Três terços de madeira que estavam na livraria da Paróquia Nossa Senhora das Graças, em Maria da Graça, incendiada por bandidos na madrugada de domingo, foram encontrados intactos nos destroços.

Os fiéis atribuem o fato a um milagre. Uma das peças estava guardada numa caixa de veludo, dentro de um cesto, que se desfez com o fogo. Os outros dois terços estavam presos nas prateleiras de uma estante de aço, que não resistiu ao calor e ficou completamente retorcida.

Para os fiéis, o milagre seria reforçado pelo fato de que todo dia 18 – justamente ontem – as peças são usadas para enfeitar o altar durante o encontro do grupo de oração em devoção à Nossa Senhora de Schoenstatt. Na reunião de ontem, não faltou emoção e choro.

“Nossa mãe peregrina nos reservou essa surpresa. É inexplicável que tudo tenha se queimado, roupas, toalhas, livro de cânticos, menos os terços”, comentou, aos prantos, Francelina de Almeida, 56 anos. Para outros freqüentadores da paróquia, os terços intactos são um sinal divino. “É um aviso que precisamos rezar mais”, sugeriu Maria Rosa Guedes, 64 anos.

A paróquia foi invadida por quatro homens e duas mulheres, que usaram uma escada para ter acesso a uma das janelas laterais e pular no salão principal. Ao entrar, os bandidos quebraram uma imagem de 90 cm de Santa Rita de Cássia.

A estátua, avaliada em R$ 400, foi um presente de boas-vindas da comunidade para o padre Carlos Pereira de Albuquerque, que assumiu a igreja há um ano e meio. “Um fiel se encarregou de pagar a restauração. Até pensamos em deixá-la numa redoma de vidro, quebrada, mas mudamos de idéia porque não seria uma boa lembrança” comentou o religioso. Por conta do prejuízo, que chega a R$ 13 mil, o padre fez mutirão para recolher doações.

Um abaixo-assinado circula entre moradores e comerciantes para arrecadar dinheiro. Pela manhã, dois empresários – um deles teve o posto invadido na mesma madrugada pelo bando – doaram seis sacos de cimento. A subprefeitura do Grande Méier pretende ajudar com 50 latas de tinta.

Policiais da 44ª Delegacia de Polícia, em Inhaúma, onde o caso será registrado, investigam a informação de que funcionários foram demitidos recentemente da igreja e poderiam ter atacado o local por vingança.

Famílias humildes sem doações

O clima era de tristeza na favela Bandeira Dois, em Maria da Graça. O incêndio criminoso deixou de mãos vazias 42 famílias da comunidade, que recebem doações todo dia 30. Este mês, será entregue apenas uma pequena parte das cestas básicas. Já a doação de roupas foi suspensa.

“Queimaram tudo. Para mim, a doação representa muita coisa. Foi muita maldade. Se soubessem como vai me fazer falta… Quando não tem nada lá em casa, venho aqui e sempre consigo algum alimento”, contou Adeli Oliveira Santana, 23 anos. Ela afirmou que ontem os quatro filhos não tinham nem o que comer.

Não muito diferente é a situação de Shirley Pereira da Silva, 38 anos, que divide um pequeno cômodo com cinco filhos e um neto. Sem expectativas, ela ficou revoltada ao ver como ficou a igreja. “Deus pode perdoar, eu não. Tiraram da boca da minha família para queimar à toa. Não consigo acreditar.”

Sem emprego fixo, Maria de Fátima Corrêia, 37 anos, disse que contava com as roupas doadas para enfrentar o frio: “Não tenho o que fazer. Coloco os filhos no chão e divido um cobertor”.

Fonte: O Dia