
Representantes da bancada cristã e de partidos como o PL impediram a votação do Projeto de Lei 896/23, que visa criminalizar a misoginia, na Câmara dos Deputados nesta semana. O impasse ocorreu durante uma reunião de líderes nesta terça-feira (16), onde não houve consenso, especialmente sobre a questão da submissão feminina em relacionamentos, conforme defendido por alguns textos religiosos.
Os parlamentares argumentam que a proposta de lei precisa incluir explicitamente a proteção à liberdade religiosa, um direito fundamental garantido pela Constituição Federal. A deputada Julia Zanatta (PL-SC) expressou preocupação de que o projeto possa ameaçar essa liberdade, citando passagens bíblicas que abordam a submissão da mulher ao homem.
A relatora do texto, deputada Tabata Amaral (PSB-SP), apresentou uma nova redação para o projeto durante a reunião, mas o acordo não se estendeu nem mesmo à votação em regime de urgência. Ficou acordado que a relatora se reunirá com as bancadas nas próximas duas semanas para tentar solucionar os pontos de divergência. A expectativa é que o texto seja submetido à votação do plenário na semana de 29 de junho.
Em coletiva de imprensa, a deputada Tabata Amaral esclareceu que a criminalização da violência e incitação contra mulheres não sofrerá ressalvas. Contudo, a inclusão explícita da liberdade religiosa é uma demanda da bancada cristã, algo que, segundo ela, seria possível de conciliar. A deputada também indicou que o conceito de misoginia pode ser ajustado para maior segurança jurídica, sem comprometer a proteção às mulheres.
A definição de misoginia apresentada na proposta mais recente pela relatora é “a prática, a indução ou a incitação de violência, de restrição ao pleno exercício de direitos ou de ofensa à dignidade da mulher, em razão da condição de mulher”. Essa definição passou por aprovação simbólica em um grupo de trabalho, mas a palavra “ofensa” ainda gera discordância.
O texto aprovado pelo grupo de trabalho já representa uma evolução em relação a propostas anteriores, que incluíam a “incitação de menosprezo ou discriminação contra a mulher” ou definições mais genéricas como “conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres”, como a aprovada pelo Senado Federal em março. As demais partes do projeto, como a definição de penalidades, não devem sofrer alterações.
Apesar dos debates, Tabata Amaral considerou o resultado da reunião de líderes positivo, destacando o entendimento alcançado para que o projeto seja votado antes do recesso parlamentar. A líder da bancada feminina, deputada Jack Rocha (PT-ES), reforçou a importância da mobilização e diálogo nas próximas semanas com bancadas, sociedade civil e governo, que é favorável à aprovação da matéria. Rocha enfatizou a urgência da matéria para evitar a continuidade de mortes e desumanização de mulheres.
Folha Gospel com informações de Folha de S.Paulo
