O Brasil é o país com mais católicos do mundo, 123,3 milhões, segundo o censo de 2010. Eles representam 64,6% da população, mas 10 anos antes eram 73,6% e em 1970 91,8%.

Enquanto os católicos perderam espaço, os evangélicos – sobretudo os pentecostais – cresceram até alcançar 22,2% da população, com 42,3 milhões de pessoas.

“Desde os anos 1990 é registrada no Brasil uma crise na Igreja católica, com templos vazios e a Teologia da Libertação em retrocesso”, comenta à AFP Magali Cunha, da Faculdade de Teologia e pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo.

“Os grupos carismáticos convocam a Igreja a uma renovação para trazer de volta os fiéis e dar fôlego à instituição através de uma popularização baseada no modelo pentecostal”, acrescenta.

Mas o chefe do Departamento de Ciências da Religião da Universidade Católica de São Paulo, Edin Abumansur, ressalta que “dizer que a renovação carismática é uma resposta ou uma estratégia de contenção de fiéis é uma leitura muito limitada. Também não é uma versão católica do pentecostalismo, é um fenômeno maior, mais amplo, próprio da Igreja Católica”.

[b]”Pentecostalismo católico” [/b]

Conhecido no início como “pentecostalismo católico”, a renovação carismática chegou ao Brasil nas décadas de 1960 e 1970 e evoluiu até se tornar um movimento muito heterogêneo, sempre sob a égide da Igreja Católica.

Assuntos como a mediação do clero, a família ou o casamento entre um homem e uma mulher não estão em discussão.

Embora os carismáticos não tenham tido êxito em conter a queda do número de católicos no país, “sem este tipo de espiritualidade a Igreja Católica teria perdido muito mais fiéis em comparação com os que já perdeu”, afirma Abumansur.

Missas de cura, emoções à flor da pele, bênçãos para encontrar emprego, grupos de oração, expressão corporal da fé: a gama de ofertas é ampla e variada.

“Se há técnicas que resolvem, os carismáticos dizem ‘vamos testar elas também’, como os grandes eventos públicos potencializados pelos meios de comunicação”, acrescentou Cunha.

De acordo com a organização Renovação Carismática do Brasil, há um milhão de brasileiros neste movimento, mas outros nove milhões participam através de retiros espirituais ou encontros.

[b]Marcelo Rossi[/b]

Não é o show de um “popstar”, mas se parece. É uma missa católica onde multidões rezam, cantam e choram guiadas por padres carismáticos, símbolo de uma corrente que atrai milhares de fiéis enquanto a igreja “tradicional” os perde.

A noite é fria, mas a temperatura não importa neste enorme templo do Movimento de Renovação Carismática da zona sul de São Paulo. Milhares de fiéis sentados e outros milhares de pé esperam por horas até que, às oito da noite, aparece o padre Marcelo Rossi.

Sorridente, ativo, acompanhado por uma banda de música, com microfone nas mãos e sapatos esportivos sob a batina, Marcelo Rossi, de 46 anos e um físico de ator de cinema com seus 1,94 m de altura, começa a missa cantando e agitando os fiéis.

“Deus transformará sua tristeza em alegria!”, clama no altar, e o templo vem abaixo com a emoção dos fiéis.

Todas as quintas-feiras à noite e domingos de manhã Rossi lidera a liturgia na Mãe de Deus, o maior templo católico do Brasil com capacidade para 100.000 pessoas, inaugurado em 2012.

“O padre Marcelo é um homem carismático, humilde. Se você vem uma vez para cá, não deixa de vir nunca mais”, afirma à AFP Olga Ribeiro, de 72 anos, que há uma década segue o padre que já liderou missas até mesmo no estádio Morumbi.

Nascido em São Paulo em 1967, Rossi vendeu milhares de discos, tem programas de televisão e rádio, protagonizou filmes, tem assessoria de imprensa, é muito ativo em sua conta do Twitter e, nos últimos dias, tem percorrido o país apresentando seu último livro, “Kairós”, que vendeu meio milhão de exemplares em menos de um mês.

No clímax da liturgia, as luzes são apagadas e só restam as velas acesas pelos fiéis. Muitos choram.

[b]Missa pela internet [/b]

“Hoje há missa no Santuário. Não se esqueça de trazer uma vela. Se não puder vir, nos siga por nosso site. Deus te abençoe!”, escreveu o padre Marcelo Rossi em sua conta no Twitter há alguns dias.

Em uma entrevista por e-mail à AFP, o padre afirma que dá grande importância às redes sociais porque o mundo mudou.

“Mas o grande desafio da Igreja é saber como usar estes instrumentos para o bem, para a evangelização”, acrescentou.

Com uma linguagem direta e recorrendo sempre à música, o padre Marcelo transmite sua mensagem. Na missa fala de delinquência, mas não menciona os problemas sociais que ainda atingem o país.

“Não se pode misturar igreja e política. No momento em que você entra na política, precisa se filiar a um partido e a Igreja é apartidária”, escreveu à AFP.

E sua mensagem atinge em cheio seus seguidores.

“É uma missa moderna, animada. Eu tinha deixado de ir à Igreja porque ficava entediado, mas isso é diferente”, afirma Luis Fernando Camentori, de 58 anos.

Após anos de rejeição, a Igreja Católica brasileira apoia atualmente os movimentos carismáticos – dentro dos quais também aparecem as comunidades Canção Nova, Shalom ou 70×7 – embora ao mesmo tempo se preocupe com sua eventual autonomia.

“A Igreja ‘tolera’ estes movimentos (…) Há muitas correntes e grande parte da Igreja Católica não as aceita. Mas se elas atraem muita gente, o que podem fazer?”, afirma Abumansur.

Em 2007, a Igreja proibiu o padre Marcelo de cantar na visita do então papa Bento XVI a São Paulo, mas seis anos depois o sacerdote poderá se apresentar diante do papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro.

Há algum tempo, o próprio padre Marcelo foi criticado e classificado de “showman” pela hierarquia católica de São Paulo, mas em 2012 o próprio arcebispo Odilo Scherer assistiu à inauguração de seu gigantesco templo.

“Eu não faço show, eu celebro missas”, respondeu o padre.

[b]Fonte: AFP[/b]