O chefe da Igreja Patriótica da China, Liu Bainian, disse à agência Efe que seu convite para que o Papa Bento XVI visite o país “é um desejo pessoal, não um convite oficial”, coincidindo com o 50º aniversário da criação da instituição dissidente de Roma, mas em um momento de aproximação.

Liu, porta-voz e chefe provisório (o presidente, Fu Tieshan, morreu este ano) da Igreja, controlada pelo Partido Comunista, afirmou na semana passada ao jornal italiano “La Repubblica” que os católicos chineses “rezam pelo Papa para que um dia ele possa ser recebido no país”, o que reiterou hoje, mas com ressalvas.

O porta-voz disse que seu convite – que despertou muitas esperanças na Santa Sé, mas que o Papa preferiu não comentar – foi pessoal e extra-oficial, “pois é o Governo chinês que deve emiti-lo”.

Liu também destacou que a visita papal é “o desejo de todos os fiéis chineses”, mas reiterou, conforme o estabelecido pelo Governo comunista, que para que haja um convite oficial os laços diplomáticos entre China e Vaticano devem ser reatados.

A idéia foi reiterada na quarta-feira nas comemorações do 50º aniversário da fundação da Igreja Patriótica, em 1957.

Em discurso por ocasião do aniversário, Liu lembrou que Roma deve cortar suas relações diplomáticas com Taiwan e não pôr impedimentos à Igreja chinesa para que escolha unilateralmente seus bispos, como fez na semana passada com o novo prelado de Pequim, Joseph Li Shan.

Caso estas duas condições sejam cumpridas, a China reconhecerá a autoridade do Papa, disse Liu.

A comemoração do meio século da Igreja Patriótica – que não é subordinada ao Vaticano desde sua cisão, em 1951 – também chamou a atenção devido à participação de altos dirigentes comunistas.

Entre eles estavam o “número quatro” do Partido Comunista, Jia Qinglin (presidente do principal órgão consultivo do Governo), e o vice-primeiro-ministro Hui Liangyu, em uma das primeiras vezes nas quais políticos comunistas e líderes da Igreja chinesa participam de um mesmo ato, destacou hoje a imprensa independente.

Hui, em seu discurso diante de 40 bispos chineses e vários sacerdotes, pediu aos líderes do catolicismo comunista que “lembrem sua missão sagrada” e sirvam de ponte para ajudar os católicos do país a construir uma “nação socialista”.

O vice-primeiro-ministro encorajou a Igreja chinesa a continuar construindo uma Igreja nacional “independente”, mas “mudando de acordo com os tempos”, o que é interpretado com otimismo pelos analistas das relações entre China e Vaticano, assim como as palavras de Liu à imprensa italiana.

O convite para visitar a China poderia permitir a Bento XVI realizar o sonho que seu antecessor, João Paulo II, não conseguiu: visitar a nação mais povoada do mundo, na qual os católicos foram duramente perseguidos durante a Revolução Cultural (1966-76), mas onde agora são tolerados pelas autoridades.

Fontes governamentais chinesas citadas hoje pelo independente “South China Morning Post” minimizaram o convite de Liu Bainian, afirmando que não era nada surpreendente, “porque os católicos chineses respeitam o Papa”.

Embora não reconheçam oficialmente sua autoridade, o Sumo Pontífice costuma ser citado e lembrado nas missas da Igreja Patriótica. Quando da morte de João Paulo II, o bispo de Pequim pediu a todos os fiéis chineses que rezassem por sua alma.

A Igreja Patriótica conta com 5 milhões de fiéis e 1.900 pastores. Calcula-se ainda que entre 8 e 10 milhões de chineses são seguidores da Igreja Católica clandestina, que reconhece o poder do Vaticano.

Em 30 de junho, Bento XVI enviou uma carta aos católicos chineses, fazendo um pedido aos sacerdotes clandestinos para que saiam da obscuridade e trabalhem em conjunto com os pastores da Igreja oficial comunista, algo que já ocorre na prática, já que nem sempre é fácil distinguir os católicos “oficiais” dos “clandestinos”.

A carta foi classificada como um “grande avanço” nas relações entre Pequim e Roma, segundo o próprio vice-presidente Hui.

O Vaticano e a China não mantêm relações diplomáticas desde 1951, depois que o Papa excomungou dois bispos designados por Pequim.

O Governo chinês respondeu expulsando o núncio apostólico, que se estabeleceu na ilha de Taiwan (que tem Roma como único aliado europeu).

Fonte: EFE

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