Imagino Jesus como sendo uma pessoa intensamente regional; vinha de uma família comum, viajou muito pouco, vestia as roupas simples de sua época, comia as comidas típicas da região, falava a língua do povo sem erudições (apesar do que algumas traduções fazem crer) e possivelmente com sotaque local; usava analogias direcionadas para o seu contexto, que falavam de sua terra e de seus costumes.

Se Ele fosse músico,certamente se expressaria com os ritmos e estilos de sua região. E se fosse brasileiro, talvez fosse violeiro ou zabumbeiro. mas Jesus também estava conectado com o mundo que o cercava; estava perfeitamente inteirado acerca do império romano, seu poderio, sua forma de governo, sua economia e seus efeitos na sociedade judaica. E falando em judaísmo,vemos claramente na Bíblia a proximidade de Jesus com as tradições e a religião judaica; a mesma religião que ele veementemente criticou e condenou por diversas vezes, de uma forma tão segura , como só poderia fazer quem tivesse grande conhecimento sobre o assunto. E Ele o tinha, porque foi educado na torah e no talmude; aos doze anos já dava show nas sinagogas lendo as escrituras como gente grande.

Se olharmos com algum cuidado,vamos perceber no caso de Jesus três influências muito claras e presentes em sua vida, que determinaram sua maneira de agir, suas formas de expressão e suas estratégias ministeriais; a primeira, a do seu próprio povo, suas tradições e costumes; a segunda, da sua religião, no caso o judaísmo; e a terceira, a dos colonizadores, dos conquistadores do seu povo, os gregos e os romanos. O conjunto dessas três influências, quando se circunscrevem, com maior predominância de um ou de outro, geram um conjunto que define a que tendência estamos mais inclinados.

Por exemplo, alguém que vivesse no mesmo tempo de Jesus e que tivesse por qualquer razão recebido uma influência maior do judaísmo que das outras, teria uma forte tendência à confrontação com o império romano e a rejeição a qualquer nova doutrina; alguém que tivesse maior influência do modelo local, teria a tendência de não se envolver com questões políticas e a seguir o mesmo oficio do pai; alguém que fosse mais influenciado pelo modelo do colonizador teria como tendência a adoção de novos costumes e à xenomanía.

Claro que em o ser humano não ser uma maquina, não podemos cair no simplismo de uma mera equação matemática , porque, afinal de contas , estamos falando de tendências. Mas as três forças estão aí inegavelmente.

Quando penso acerca do cristianismo e mais especificamente da música evangélica,vejo uma situação bem semelhante; afinal, estamos sujeitos, também a três modelos que nos trazem fortes influências e que são diretamente responsáveis pela linha litúrgica que cada linha venha a adotar.

As influências nem sempre são tão visíveis assim, mas certamente estão lá; é só olharmos com atenção. O modelo local, equivale às mesma influencias que Jesus teve em seu tempo, ou seja, a cultura e os costumes de cada região; o modelo bíblico, que para nós não se resume à liturgia judaica, mas também ao novo testamento e a igreja primitiva; e o modelo dos colonizadores, no nosso caso a presença missionária, principalmente de europeus e norte-americanos.

As igrejas chamadas de denominações “históricas” (batistas, presbiterianas e congregacionais, por exemplo), tem uma tendência forte de adoção do modelo dos colonizadores (missionários); até há bem pouco tempo, havia uma predominância acentuada do uso dos hinários(cantor cristão,salmos e hinos), restrição de outros instrumentos que não fossem o órgão e o piano e a supervalorização dos corais. Já as igrejas neo-pentecostais tendem mais ao modelo bíblico, buscando nos termos e estruturas do velho testamento, paradigmas para suas liturgias.

É muito comum encontrarmos nessas igrejas cânticos com expressões em hebraico, campanhas e eventos que se referem à solenidades e festas religiosas judaicas e conjuntos musicais com nomes que nao fazem sentido nenhum para quem não venha desse contexto, tipo “ Rosa de sarom “ ou coisa parecida. Já o modelo local, é o que vemos e ouvimos todo dia na maioria dos veículos de comunicação evangélicos. Basta sintonizar o radio por alguns minutos em qualquer emissora cristã, pra perceber que à muito tempo já perdemos o pudor de usar ritmos, instrumentos e gêneros regionais e populares. Aliás já a industria fonográfica evangélica já perdeu o pudor de muitas outras coisas também…

Atualmente, é muito fácil ouvirmos aqui e acolá musicas evangélicas que não diferem em nada das do meio secular, senão pela letra e performances em “shows” também não muito distantes, onde até mesmo a idolatria dos artistas pelos “fãs” também se faz presente; nesses casos a presença do modelo local é tão preponderante, que mesmo alguns de nossos princípios cristãos mais importantes são flexibilizados de forma a comportar tais excessos e contradições.

Jesus,como nós esteve sob a influência dos mesmos três modelos; mas soube tanto conhecê-los, quanto filtrar a relevância de cada um de modo a ter um discurso eficiênte e um modo de vida em sintonia com sua mensagem.

Em relação à música cristã contemporânea, regional ou não, esse também é o nosso desafio.

Um abraço,

Leon Neto