O LATIDO DOS INOCENTES: quando a fé precisa reagir!

Orelha, Profeta de Quatro Patas: Seu Martírio denuncia o que nossa Teologia esqueceu

Orelha, cachorrinho idoso torturado em Santa Catarina, morreu após eutanásia indicada pelos ferimentos graves. (Crédito: Reprodução/Redes sociais)
Orelha, cachorrinho idoso torturado em Santa Catarina, morreu após eutanásia indicada pelos ferimentos graves. (Crédito: Reprodução/Redes sociais)

O justo cuida bem dos seus animais, mas até os atos mais bondosos dos ímpios são cruéis. Provérbios 12.10

Se isso não é um espelho, é porque a gente quebrou o espelho.

Chamar o cachorrinho idoso Orelha de profeta é propositalmente desconfortável, e precisa ser, isso porque a Bíblia sempre usou sinais simples para desmascarar a dureza humana: um jumento que enxerga o perigo quando o profeta está cego, um pardal que denuncia a indiferença dos poderosos, uma criação que geme quando a consciência se cala. Orelha, por não ter voz humana, torna-se um espelho moral, sua dor revela o que nossa teologia às vezes encobre com frases bonitas, que adoração sem compaixão é mentira, que fé sem misericórdia é ruído, e que espiritualidade que não protege o vulnerável trai o Deus Criador. Seu martírio denuncia uma sociedade que canta sobre amor, mas tolera violência sobretudo quando tenta trocar verdade por ameaça, justiça por intimidação, arrependimento por acobertamento. Se chamar Orelha de profeta nos ofende, talvez seja porque a ferida é real: há coisas que só um inocente ferido consegue expor com tanta clareza.

Orelha era um cão comunitário idoso, que morava na Praia Brava em Florianópolis SC, desses que viram parte do bairro e entram na rotina como gente da casa, sem ter casa. Não tinha sobrenome, não tinha defesa, não tinha advogado, não tinha voz. Tinha apenas a confiança frágil de quem vive à mercê do nosso caráter. E foi exatamente por isso que o seu nome virou clamor: porque, quando um inocente assim é esmagado, o que fica exposto não é apenas a violência de alguns, mas a doença moral de muitos. Orelha nos confronta como um sinal profético: ele nos obriga a perguntar que tipo de pessoas a nossa sociedade está produzindo, se conseguimos cantar sobre amor, e ao mesmo tempo, tolerar crueldade, e ainda tentar calar a verdade quando ela quer aparecer.

E o texto bíblico de Provérbios 12.10 não é um versinho fofo para postar nos stories. É um raio-X do caráter. É blia sem anestesia: a justiça se mede, também, pelo modo como tratamos os vulneráveis; e os animais estão nesse lugar de vulnerabilidade absoluta.

notícias que não são apenas notícias. São juízo. São um grito que rasga o verniz da nossa religiosidade funcional e expõe o que de fato somos quando ninguém está olhando.

Deus ama a Sua criação (e isso deveria encerrar o debate)

A primeira página da Bíblia já derruba o nosso orgulho humano: Deus cria, vê que é bom, e abençoa a vida. E abençoa também os animais. Ele não faz a criação por engano, nem coloca a fauna e a flora como cenário descartável para o drama humano.

O mundo é obra. É criação. É bênção. Deus não cria e se arrepende: Ele cria e declara bom. E a vida animal é abençoada (Gênesis 1.22). Mais: depois do dilúvio, Deus inclui todo ser viventena aliança (Gênesis 9.9–10). Quando Jesus quer falar do cuidado do Pai, não usa exemplo de templo, nem de palácio. Usa pardais. Pequenos. Sem valor. Invisíveis aos poderosos. E diz que nenhum deles cai sem o Pai saber. (Mateus 10.29–31).

E quando Jonas queria ver a cidade de nive arder, Deus termina o livro lembrando que naquela cidade havia gente, e também muitos animais. A compaixão divina é maior do que o nosso moralismo seletivo.

Logo, desprezar a criação é desprezar o Criador. Maltratar um animal não é um detalhe, nem coisa menor. É profanar uma assinatura divina cravada na vida.

A etimologia da adoração: proskuneo e o beijo da reverência

No Novo Testamento, uma das palavras mais usadas para adorar” é proskuneo (προσκυνέω). Os léxicos apontam para a ideia de prostrar-se, prestar reverência, fazer a vênia e, na raiz, a imagem do beijo” de submissão/respeito (como beijar a mão”, beijar em direção”).

E aqui entra um detalhe que muita gente ignora (ou finge ignorar): há tradições lexicais que descrevem esse kuneo/kiss” com uma comparação popular, como um cão que lambe a mão do seu tutor(a) em sinal de reconhecimento e lealdade.

Eu mesmo já usei essa analogia antes, justamente para mostrar que os escritores do NT pegavam gestos do cotidiano e ressignificavam para ensinar realidades espirituais: a adoração como lealdade e entrega, algo devido somente a Deus. Isso trabalha o nosso ego. Porque um animal, muitas vezes, nos dá uma aula de fidelidade que a nossa espiritualidade performática desconhece.

O Evangelho segundo meus cães (sim, eu disse isso)

Eu tive cães que me ensinaram teologia sem abrir um livro.

Se eu saísse e viajasse, um dia, uma semana, uma hora, dez minutos, era sempre a mesma festa. A mesma alegria. O mesmo pai-chegou!. O mesmo coração inteiro derramado naquele encontro. Se eu saísse dez minutos para buscar pão, ou se viajasse uma semana, o ritual do retorno é praticamente o mesmo: festa. Pulso acelerado. Cauda abanando. Olhos brilhando. Uma celebração que diz: Você voltou. Está aqui. Está tudo bem”.

Eles não calculavam merecimento. Não negociavam afeto. Não mediam retorno. Não há vingança pela ausência. Não há chantagem emocional. Há pura celebração do reencontro. Eles apenas celebravam a presença.

Isso é um sermão em quatro patas: adoração, no coração bíblico, não é performance, é lealdade amorosa, é reconhecimento da presença do Amado, é retorno ao centro.

E eu pergunto: quantos de nós adoramosa Deus assim com essa inteireza? Sem cinismo? Sem barganha? Sem o teatro do religioso que canta alto, mas ama pouco?

Talvez a nossa adoração esteja doente porque a nossa compaixão está atrofiada.

O Brasil e o cãozinho Orelha: quando a crueldade vira método e a intimidação vira estratégia

E aí chegamos ao ponto em que este texto precisa doer na alma.

O caso do cão comunitário Orelha, em Florianópolis, chocou o país: investigação aponta agressões praticadas por adolescentes e desdobramentos que incluem outros atos, além dos maus-tratos.

O caso de Orelha não foi um deslize juvenil. Foi a manifestação pública e grotesca de uma crueldade entranhada, um sintoma de colapso moral de uma cultura que se acostumou a desumanizar. E quando se acostuma a desumanizar, qualquer vítima serve.

Mas há um detalhe bem revelador do estado moral de certos adultos: a Polícia Civil informou o indiciamento de familiares por coação de testemunha no curso da investigação. Ou seja: em vez de buscar verdade, responsabilidade e reparação, optaram, segundo as autoridades, por pressão e ameaça.

Quando uma família, em vez de correr para a luz (verdade, responsabilidade, arrependimento), escolhe o atalho sombrio da ameaça, ela não está “protegendo os seus. Está protegendo a perversidade. Está tentando calar a realidade na marra. Isso é espiritualidade adoecida e é pecado social com nome e sobrenome: coação, mentira e acobertamento.

Isso não é defesa da família. Isso é aliança com a mentira.

E aqui eu falo como pastor: quando alguém tenta calar testemunha, a pessoa não está apenas se protegendo. Está tentando matar a verdade de novo. Primeiro se tortura um inocente que não pode se defender. Depois se tenta torturar a narrativa para que ninguém responda por nada.

No Reino de Deus, isso tem nome: trevas.

A Bíblia é incisiva: nossa resposta cristã deve produzir verdade, justiça e voz para quem não tem voz!

Provérbios 12.10 não deixa espaço para maquiagem: o justo cuida; o ímpio pode até fingir bondade, mas seu fundo é cruel.

O caso de Orelha não foi um deslize juvenil. Crueldade contra animal não é “brincadeira de adolescente”. Foi a manifestação pública e grotesca de uma crueldade entranhada, um sintoma de colapso moral de uma cultura que se acostumou a desumanizar. E quando se acostuma a desumanizar, qualquer vítima serve.

A Sagrada Escritura não romantiza a crueldade. Ela a identifica como marca interna: coração cruel. Não é só uma fase. Não é só uma brincadeira. Quando alguém tortura um ser indefeso, revela um colapso moral, sua falência moral, e isso precisa ser tratado como aquilo que é: maldade.

Crueldade contra animal é sinal profético. É a prova visível de que as entranhas são cruéis”. E para nós, cristãos, há um chamado claro que brota dessa verdade: 1. Amar a Deus sem amar a criação é contradição; 2. Cantar Santo, Santo, Santoe ignorar sofrimento de seres vivos é dissonância; 3. Ver maldade e se calar é cumplicidade.

Denuncie. Proteja. Acolha. Apoie quem resgata. Ensine seus filhos. Discipule sua igreja.

E quando, diante disso, adultos escolhem o caminho da ameaça contra testemunha, a degradação não é apenas individual; ela se torna institucionalizada, protegida pelo clã, blindada pela covardia.

A Bíblia chama isso pelo nome. E a Igreja não pode maquiar com eufemismos.

Porque adorar (proskuneo) é lealdade, e lealdade começa na forma como tratamos o que Deus confiou às nossas mãos.

Sejamos a voz daqueles que não têm voz

Não adianta exaltar o Artista e desprezar Sua obra.

Deus ama a criação. E nós, que dizemos amar a Deus, precisamos provar isso com atitudes, inclusive na defesa dos animais. E quando a crueldade aparece, a Igreja não pode oferecer silêncio. A Igreja precisa oferecer verdade, justiça, arrependimento e responsabilidade.

A memória de Orelha precisa virar mais do que comoção. Precisa virar conversão pública: denúncia, responsabilidade e proteção.

Se a nossa fé é real, ela não se mede apenas pelos nossos hinos, mas pelo respeito que demonstramos à vida que pulsa ao nosso redor. E se somos povo do Reino, então precisamos ser, com coragem, a voz dos que não podem falar. Abra a boca em favor dos que não podem defender-se…” (Provérbios 31:8).O proskuneo que Deus deseja não é teatro: é um coração que reverencia o Criador amando o que Ele ama. E Deus ama a sua criação.

Porque adorar (proskuneo) é lealdade, e a verdadeira lealdade a Deus se manifesta quando nossas entranhas se comovem com o sofrimento de sua criação e nosso coração celebra sua beleza com a fidelidade jubilosa de um cão.

Que a festa fiel dos nossos cães nos humilhe e nos reeduque. E que o sofrimento de Orelha nos acorde para o óbvio que a Bíblia já disse e que muitos fingem não ouvir: o justo cuida; o ímpio cruza a linha do cruel.

No Reino de cabeça para baixo, amar os animais não é “lacração”: é Bíblia pura. É a mais alta forma de honrar o Criador.

Estêvão Chiappetta <><

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