
O caso do cão comunitário Orelha, na Praia Brava (Florianópolis/SC), não é apenas um episódio de maus-tratos. Segundo informações divulgadas na imprensa, alguns adolescentes são suspeitos e investigados por agressões que deixaram o animal gravemente ferido, levando-o a atendimento veterinário e, pela gravidade dos ferimentos indo a óbito. A Polícia Civil também divulgou que Orelha sofreu lesão contundente na cabeça e que morreu no dia 6 de janeiro.
Não se pretende, neste texto, estabelecer diagnóstico ou produzir inferências clínicas conclusivas a partir de informações jornalísticas. Ainda assim, é possível sustentar, em termos teórico-clínicos, que a gravidade do ato descrito constitui um indicador relevante de risco psíquico e social, e que determinadas respostas de adultos no período subsequente ao evento podem intensificar esse quadro, na medida em que interferem nos processos de responsabilização, elaboração e contenção institucional.
Quem foi Orelha: um pequeno vulnerável do cotidiano
Orelha era um cão comunitário, cuidado por moradores e frequentadores da região, um desses animais que, sem ter um “tutor oficial”, acaba pertencendo ao bairro, à praia, ao afeto coletivo. Ele tinha por volta de 10 anos.
Há cães que viram paisagem. Orelha parecia ser o contrário: ele virava presença. Presença que não exige, mas acompanha. Presença que pede pouco, água, comida, um canto de sombra e entrega algo enorme: a lembrança diária de que ainda somos capazes de cuidar do vulnerável sem recompensa.
Por isso sua morte fere tanto. Porque, simbolicamente, quando um ser assim é atacado, não é só um corpo que cai: cai um pedaço da nossa humanidade compartilhada.
A violência como linguagem: quando falta palavra, sobra ato
Na psicanálise lacaniana, o humano se organiza no campo da linguagem, da lei e do laço com o Outro. Quando esse circuito falha, o sujeito pode responder não com discurso, mas com o corpo e com o ato.
É aqui que a clínica psicanalítica distingue dois movimentos importantes:
Acting out: uma cena dirigida ao Outro, um recado encenado, ainda dentro do palco social (há um apelo, um endereçamento).
Passagem ao ato: uma queda fora da cena simbólica, quando o outro deixa de ser sujeito e vira objeto, e o ato não pede leitura, ele “resolve” à força.
Na psicanálise, o “ato” pode funcionar como linguagem quando a palavra falha. Em vez de conseguir falar do que sente, do que deseja, do que o atravessa (raiva, vergonha, humilhação, angústia, sensação de não existir para ninguém), o sujeito “fala” com o corpo e com uma ação. Só que nem todo ato é igual: Lacan ajuda a diferenciar dois modos principais de agir quando a simbolização não dá conta: acting out e passagem ao ato, e essa diferença muda completamente o que está acontecendo na cena.
Acting out é quando o sujeito faz uma cena endereçada ao Outro (a alguém, a um grupo, à família, à escola, à sociedade). É um ato que chama um olhar: mesmo que seja confuso ou chocante, ele carrega algo como um recado encenado, uma mensagem que não conseguiu virar palavra. Dá para pensar assim: no acting out, ainda existe palco, ainda existe público, ainda existe alguém para quem aquilo está sendo mostrado. Por isso, muitas vezes, ele vem carregado de provocação, desafio, exibição ou teatralidade: não é só fazer, é fazer para ser visto, como se dissesse sem dizer: olhem para mim, olhem o que eu sinto, olhem o que vocês não enxergaram.
Já a Passagem ao Ato é mais grave porque é uma queda fora da cena simbólica: não há pedido de leitura, lembrança, recado ou apelo. O sujeito sai do palco do laço e vai para o curto-circuito do real: age como se precisasse eliminar rapidamente uma tensão insuportável, resolver pela força. Em vez de falar, refletir ou suportar o que está sentindo, ele explode em ação, de modo rápido e bruto, só para descarregar a tensão. Curto-circuito aqui significa: não passa pela palavra e nem pelo pensamento; vai direto para o ato, como um choque. Nessa lógica, o outro deixa de ser percebido como alguém (um semelhante, um vivente com dor) e passa a ser tratado como objeto: algo sobre o qual se descarrega, se controla, se domina, se destrói. É justamente por isso que a passagem ao ato assusta: ela não está organizada para comunicar; está organizada para fazer cessar algo por via brutal.
Quando a crueldade se dirige a um vulnerável, o risco é que ela se aproxime dessa segunda modalidade: a vida é coisificada. Isso não autoriza carimbar diagnósticos, mas autoriza nomear a estrutura do gesto: há atos que ainda pedem um Outro (acting out), e há atos que desligam o Outro e transformam o vivo em alvo (passagem ao ato). Dito de forma simples: no acting out, ainda há um “você” a quem se endereça; na passagem ao ato, o “você” desaparece, fica só o ato, como descarga e domínio. Essa diferença ajuda a compreender por que certos episódios não são brincadeira que passou do ponto, mas rupturas sérias do laço, onde o vínculo com respeito pelo outro e pelos limites se mostram perigosamente falhos.
Crueldade contra um vulnerável frequentemente se aproxima desse segundo eixo: não se trata de um pequeno ato isolado de uma brincadeira que passou do ponto. Trata-se de um ato que coisifica a vida. E coisificar é um sinal grave: é o ponto em que o semelhante perde estatuto de alguém (mesmo sendo um animal, ele representa o vivo vulnerável) e vira alvo para um exercício de poder.
O que torna o sintoma mais grave em adolescentes
Embora adolescentes sejam os principais suspeitos, não temos ainda a certeza que foram de fato estes, pois ainda não há a conclusão do inquérito policial e nem o julgamento aconteceu contra os verdadeiros responsáveis.
Mas, geralmente quando delitos e crimes são praticados por adolescentes há um discurso social confortável que costuma aparecer: são jovens, foi impulso, não tinham noção. Cuidado. A adolescência é, sim, um tempo de intensidades, de transgressão e de teste de limites. Mas a psicanálise não romantiza isso. Ela lembra que o adolescente está justamente num momento em que precisa encontrar um lugar para a lei simbólica: um limite que não seja apenas medo de punição, mas reconhecimento interno de responsabilidade.
Quando o ato é de crueldade extrema, alguns sinais preocupantes se acendem:
Dessensibilização à dor do outro. A violência deixa de ser um limite e vira um recurso. Isso sugere empobrecimento de empatia e falha na construção de um freio interno.
Gozo no domínio. Em Lacan, gozo não é prazer saudável; é um excesso que pode se colar à destruição. A satisfação aqui não vem do vínculo, mas do poder de ferir.
Ataque ao vulnerável como escolha. O alvo frágil revela algo do cenário psíquico: ferir o indefeso é uma forma de provar potência esmagando o que não revida. Isso é gravíssimo.
Efeito de grupo e valentia performática. Em grupo, a responsabilidade se dilui e o ato pode virar ritual de pertencimento: faço para ser aceito, para não ser o fraco, para estar dentro.
Esses elementos não autorizam diagnóstico, mas autorizam dizer: há sinais compatíveis com traços antissociais e com ausência de empatia, que são aspectos frequentemente associados, no senso comum e na literatura clínica, ao que se chama de “psicopatia”. O cuidado ético é não carimbar pessoas, e sim nomear a gravidade do funcionamento psíquico que o ato sugere.
O sintoma familiar (“defesa” virando coação)
Depois do horror, outra camada perturbadora surgiu: a Polícia Civil informou que três familiares foram indiciados por coação no curso da investigação.
Do ponto de vista psicanalítico, isso pode funcionar como sintoma de um grupo: quando a realidade é insuportável, tenta-se controlar não a verdade, mas o discurso sobre a verdade. É uma tentativa de apagar o ato não pela reparação, mas pela intimidação; não pela transformação, mas pela pressão.
Em termos lacanianos, é como se a família tentasse substituir a lei simbólica (responsabilização, limite, consequência) por uma lei privada: “aqui dentro, a nossa imagem vale mais do que o real”. Esse tipo de operação costuma produzir dois efeitos devastadores:
Desresponsabiliza o adolescente (ele aprende que sempre haverá um adulto para “dar um jeito”).
Normaliza a violência (porque, se o problema é “quem contou”, o ato vira detalhe). Isso é tão grave quanto o ato em si: porque sinaliza um ambiente que pode proteger a repetição.
Justiça não é vingança: não deixemos o pior nos possuir
Eu entendo a fúria coletiva. Ela nasce do luto e do espanto. Mas há uma fronteira que não podemos atravessar: a barbárie do outro não pode autorizar a nossa barbárie.
O linchamento público costuma se apresentar como “justiça”, mas frequentemente opera como descarga coletiva: uma forma de dar destino imediato à angústia e à impotência diante do horror. Freud, ao pensar a psicologia das massas, descreve como o sujeito, no grupo, pode regredir, intensificar identificações e aderir a certezas simplificadoras, como se a complexidade do real fosse insuportável (FREUD, 1921). Nessa lógica, a multidão não quer apenas que algo seja apurado; ela quer que a tensão cesse e, para isso, tende a buscar um alvo nítido, um nome, um rosto, uma sentença pronta.
É nesse ponto que o benefício da dúvida e o direito de defesa não são detalhes formais: são um freio civilizatório contra o pior que habita o humano, e que pode nos desumanizar. A pressa de condenar pode funcionar como defesa maníaca diante do trauma social: “se eu apontar um culpado imediatamente, recupero a sensação de controle”. Só que essa tentativa de controlar o real por meio da certeza pode produzir um segundo dano: o risco de acusação injusta e de violência contra inocentes. Do ponto de vista psicanalítico, é o momento em que o sujeito ou o grupo prefere a certeza agressiva à angústia de sustentar o não-saber.
Além disso, há um mecanismo psíquico frequente nas explosões de ódio coletivo: a projeção. O mal é expulso para fora, concentrado no “outro”, como se, eliminando-o, o grupo pudesse purificar-se. Freud lembra que o superego não é apenas instância moral; ele pode ser cruel, exigente e sádico, convocando punição como se fosse um dever (FREUD, 1930). Quando esse superego ganha forma coletiva, o discurso moralizante pode virar autorização para a violência e o combate à barbárie, paradoxalmente, repete a barbárie por outra via.
Lacan, ao recolocar a ética no centro, aponta que a resposta ao real do horror não pode se reduzir a um gozo punitivo travestido de virtude. Há uma diferença decisiva entre responsabilização e sadismo: a primeira exige lei, limite, trabalhar a verdade; o segundo exige espetáculo, humilhação e destruição do outro (LACAN, 1959-1960). É por isso que moderação e equilíbrio não significam indiferença: significam maturidade emocional para sustentar indignação sem converter a indignação em licença para descarregar violência.
Em outras palavras: indignar-se é humano; desejar punir sem apurar, expor sem critério, “cancelar” sem defesa, é ceder ao atalho pulsional que quer fazer o mal cessar pela eliminação do outro. A psicanálise insiste que o laço social se perde duas vezes quando, diante de um ato bárbaro, respondemos com uma barbárie “do bem”. O compromisso com a verdade, inclusive a verdade processual, com dúvida e defesa, é uma forma de não permitir que o trauma social nos transforme em instrumentos do mesmo circuito de violência que condenamos.
O que se espera da sociedade é firmeza sem sadismo: apuração rigorosa, proteção de testemunhas, responsabilização dentro do que a lei prevê, e ações educativas e preventivas. A vingança promete alívio, mas entrega contágio. E quando o ódio vira nosso modo de responder, Orelha morre de novo, porque o que ele simbolizava (cuidado do vulnerável) é substituído por mais violência.
Para que Orelha não seja só notícia
Orelha era idoso, simples, comunitário. E, talvez por isso mesmo, profundamente vivo no sentido humano: ele nos lembrava que o valor de viver não depende de utilidade, status, beleza, fama. Depende do fato de que é vida.
Eu quero enfatizar nesse texto a vitória de Orelha e o fracasso existência desses defuntos sociais que fizeram isto com ele.
Orelha sempre teve amor, presença, pertencimento social. Fico me perguntando sobre a relação desses com seus familiares. Será que aquele, ou aqueles que fizeram essa monstruosidade eram amados, tinham presença e validação e sentimento de pertencimento como Orelha continua tendo mesmo após a sua morte?
Orelha, enquanto figura de um objeto bom, investido de afeto comunitário, pode ter despertado em quem o atacou afetos intoleráveis ligados à falta e à inferioridade, vividos como humilhação e desamparo. Nessa perspectiva, o encontro com o bom e o belo em Orelha não produz admiração, mas intensifica inveja e ódio, como se sua presença expusesse uma ferida narcísica, colocando o sujeito que agride diante do que não consegue ter, sustentar ou reconhecer em si. A partir daí, pode emergir a fantasia de estragar, contaminar ou aniquilar o objeto bom, não porque ele seja ameaçador em si, mas porque sua existência torna insuportável a experiência de falta e dependência, tal como Klein descreve no ataque invejoso ao seio bom (KLEIN, 1991).
Que esse caso nos leve a uma aliança enquanto mais elevada: proteger os vulneráveis, sustentar a verdade, exigir responsabilização, e recusar a tentação de nos tornarmos aquilo que condenamos.
Helena Chiappetta
Psicóloga e Psicanalista
