Parece que está virando moda esse negócio de convidar cantores famosos para cantar o hino nacional em cerimônias esportivas. Não que seja novidade, já que nos Estados Unidos, onde a tradição começou, até em jogo “adultos x casados” arrumam alguém para cantar de forma estilosa o “Star Spangled Banner”.

Aqui no Brasil, durante a época da ditadura era proibido fazer qualquer modificação no nosso hino, fosse na melodia, letra e até mesmo no arranjo. Naquela época em que o governo tinha por objetivo exercer controle total sobre a população, ninguém podia usar qualquer um dos símbolos nacionais “indevidamente”, sob risco até mesmo de prisão. Lembro-me que em anos de copa do mundo, todo mundo tinha medo de usar as cores da bandeira e ser enquadrado naquelas leis exageradas.

Fafá de Belém, que eu me lembre foi a primeira cantora popular à fazer uma interpretação livre, e pública do hino nacional brasileiro, nos dias finais de uma ditadura já moribunda. A tocante versão de Fafá virou símbolo das “Diretas Já” e da eleição de Tancredo Neves à presidência da república.

Nos nossos dias de liberdade democrática, ninguém mais tem medo de “brincar” com os símbolos nacionais. Agora assistir a jogos da copa do mundo , ou mesmo amistosos ficou muito mais divertido e todos usam o verde e amarelo de todas as formas imagináveis em suas roupas e adereços. A bandeira do Brasil está em todos os lugares e não há mais restrições em seu uso. Certamente uma vitória da democracia frente á truculência e estupidez do passado.

Mas, já estamos passando dos limites. Quarta-feira passada, o cantor romântico/sertanejo Zezé di Camargo, foi o convidado especial para cantar o Hino nacional na cerimônia de abertura do jogo amistoso de futebol entre as seleções de Brasil e Portugal. Sem dúvida uma grande festa, ultimo jogo do ano da canarinha e para muitos também o derradeiro de Dunga no comando. Até o rei Pelé e Felipe Massa, o vice-campeão mais celebrado da história do esporte brasileiro, estavam presentes.

Para o Hino português, uma cantora trazida especialmente de Portugal cantou com elegância e sem firulas o “Às Armas”, um hino bem sem graça por sinal, com todo respeito aos nossos irmãos portugueses.

A escolha de Zezé não dá nem para ser questionada. Afinal de contas, o jogo era em Brasília, na cidade satélite do Gama, região sabidamente apreciadora do gênero no qual Zezé é um dos ícones. Eu até gostei do arranjo, evocando modas de viola e toadas; ficou bem arrumadinho e simpático. Mas o mínimo que Zezé di Camargo poderia ter feito era ter cantado a melodia correta. Aquilo que se viu foi um assassinato em primeiro grau. Acho que faltou orientação para o cantor, que provou ser mais um dos milhões de brasileiros que não sabem cantar o hino nacional.

Claro que eu sei que o nosso hino não é dos mais fáceis de se aprender e principalmente de se memorizar, mas numa cerimônia daquele porte, os produtores musicais deveriam ter orientado Zezé melhor. Aquele trecho do ‘ó , pátria amada , idolatrada, salve, salve!”, foi qualquer coisa , menos os arpejos de sétima da dominante originalmente escritos. Mas, pelo menos ele acertou a letra.

Nada tenho contra música sertaneja, principalmente a autêntica, e até tenho certa tolerância pela pessoa do Zezé di Camargo, que tem uma história bonita de superação pessoal e sempre se mostra bem articulado e inteligente nas entrevistas. Também não sou contra a estilização de hinos cívicos e o cerceamento da criatividade. Mas, penso que hino nacional tem que ser levado mais á sério e especialmente em cerimônias públicas, ser interpretado de forma mais solene e formal. A versão que Zezé di Camargo utilizou seria mais apropriada para um disco infantil ou trilha sonora de novela.

E não sei porquê temos que copiar tudo o que se faz aqui nos Estados Unidos. Vejam só, por exemplo como é ridículo esse negócio de colocar “cheerleaders” em jogos de futebol; uma tradição que não é nossa, que nada tem a ver com nossa cultura. Puro pensamento de colônia. Da mesma forma, não temos que ficar escalando cantores de popularescos de voz caprina para assassinar publicamente nossos hinos cívicos, só porquê os americanos acham bonito as firulas e exageros de suas divas antes dos jogos de baseball.

E o pior de tudo é que depois da acachapante vitória do Brasil por 6 x 2, parece que vamos ter que agüentar o Dunga por mais algum tempo…

Um abraço,

Leon Neto