Médicos estão medindo a temperatura corporal de passageiros no saguão de embarque do aeroporto de Changsha, na província de Hunan, na China, epicentro do novo coronavírus - Thomas Peter/Reuters
Médicos estão medindo a temperatura corporal de passageiros no saguão de embarque do aeroporto de Changsha, na província de Hunan, na China, epicentro do novo coronavírus - Thomas Peter/Reuters

É da cidade chinesa de Wuhan uma ameaça classificada “de algo risco global” pela Organização Mundial de Saúde (OMS): de um hospedeiro desconhecido, uma nova cepa do coronavírus matou ao menos 106 pessoas na China, aé a noite desa segunda-feira, 27, e já chegou à Coreia do Sul, Japão, Tailândia, Taiwan e Estados Unidos. As autoridades tentam conter a doença e evitar que ela se espalhe pelo planeta.

A letalidade da nova cepa e a velocidade com que se espalha já rendeu comparações com a temida Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que entre 2002 e 2003 matou pelo menos 650 pessoas na China e em Hong Kong.

Infectologistas ouvidos pelo UOL explicam o que é o vírus e avaliam a possibilidade de ele chegar ao Brasil. Na tarde de ontem, a Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais anunciou o primeiro caso suspeito de infecção no país, de uma paciente que regressou da China e apresentou sintomas compatíveis com a doença.

O que é o coronavírus?

O coronavírus pertence a uma família viral com alto poder de infectar humanos. Até a descoberta dessa nova cepa, a 2019-nCoV, os cientistas haviam detectado apenas seis delas. A Sars, por exemplo, foi causada por um coronavírus.

“A família do corona recebe esse nome porque tem um envelope com proteínas que parece uma coroa. É uma família porque existem várias espécies dentro dela que infecta humanos e animais”, explica a infectologista e professora na Escola Paulista de Medicina da Unifesp, Nancy Bellei.

O que o coronavírus faz?

Os sintomas variam: pode causar apenas um resfriado, provocar tosse, evoluir para febre forte e dificuldade para respirar. Em seu estado mais grave, leva à morte. A professora explica que, assim como a Sars, o novo coronavírus parece mais letal em idosos e doentes.

“Muitos desses vírus novos não têm uma eficiência de transmissão entre humanos para se estabelecer como um vírus que vai ficar por aí, como o Influenza”, diz Nancy. “A Sars foi grave, mas é uma doença que acabou desaparecendo.”

Como se transmite o coronavírus?

“O coronavírus é semelhante ao vírus da gripe porque infecta animais, que transmitem o vírus ao ser humano”, explica a médica infectologista Joana D’arc Gonçalves da Silva. “Em seguida, a infecção é de pessoa para pessoa por meio da secreção, tosse, ar e objetos contaminados.”

Ela explica que essa nova cepa “pode ser mais agressiva” porque o vírus ainda está se adequando ao organismo humano. “Isso é muito complicado para o tratamento e para a criação de uma vacina.”

O vírus chegará ao Brasil?

Para Joana, o mundo globalizado permite que o vírus chegue ao Brasil. “Quem mora aqui chega a outro continente no mesmo dia”, afirma. “Se precisar viajar à China, é preciso evitar a cidade foco e sempre usar máscaras. Os governos devem monitorar as pessoas com quem o infectado entrou em contato. Isso é difícil porque muita gente viaja.”

Nancy lembra que o aeroporto de São Paulo recebe dezenas de milhares de estrangeiros. “Temos também os portos recebendo mercadorias de navios chineses”, diz. “São passageiros que fazem conexões da Ásia, comissários que ficam em hotéis com outros comissários.”

O boletim epidemiológico do Ministério da Saúde afirma que ainda não há nenhum caso suspeito no Brasil. A pasta enviou comunicado à Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) em portos e aeroportos para que viajantes sejam orientados sobre os cuidados em viagens ao exterior, principalmente nos aeroportos com conexões para a China.

As secretarias de Saúde de estados e municípios também foram notificados pelo ministério.

O que causa o coronavírus?

A nova cepa provavelmente chegou aos humanos por meio de algum animal selvagem, como aconteceu à Sars, transmitida pelo gato-de-algália.

As principais suspeitas recaem sobre morcegos, coelhos, cobras, galinhas e até mamíferos aquáticos. Esses animais são comercializados vivos em um mercado público de Wuhan, de onde as autoridades desconfiam que o vírus tenha saído.

Joana diz que encontrar o animal transmissor “é importante por questões epidemiológicas”. “Conhecer o animal é importante para fazer a vigilância ambiental na natureza, em zoológicos e onde as pessoas manipulam alimentos”, afirma.

Como se prevenir da infecção pelo coronavírus?

“Geralmente o contato entre pessoas é a forma mais frequente de transmissão”, diz Joana. “É comum a gente tocar a boca, o nariz e depois cumprimentar as pessoas.”

Por isso, algumas dicas são:

  1. Não entrar em contato com quem sofre de infecções respiratórias
  2. Evitar contato com animais selvagens ou doentes
  3. Lavar as mãos frequentemente — você pode ter entrado em contato com doentes sem saber
  4. Use álcool gel para limpar a superfície dos móveis e objetos

Como se cuidar em caso de infecção?

Joana recomenda o uso de máscaras cirúrgicas e sua troca a cada duas horas. “Quando tossir ou espirrar, use um papel e o descarte em seguida. As mãos não impedem a dispersão do vírus e o lenço de pano por ser reutilizável”, afirma Joana. Ela também pede que o paciente se recolha para evitar contágio e procure ajuda médica.

Segundo a professora da Unifesp, ainda não há um tratamento para a doença, “assim como o resfriado comum também não tem”. “Para os pacientes graves, se faz tratamento de suporte: hospitalização, oferta de oxigiênio e UTI (Unidade de Terapia Intensiva) com ventilação mecânica até que o organismo se livre do vírus. É como a gente faz com a dengue. O importante é procurar rapidamente o sistema de saúde.”

Onde surgiu o vírus?

O vírus foi identificado pela primeira vez em Wuhan, uma cidade chinesa com 11 milhões de habitantes. Até agora, 400 pessoas foram infectadas, segundo o último boletim divulgado pelas autoridades chinesas.

Como combater o coronavírus?

Na China, os infectados estão sendo isolados durante o tratamento. Quem chega aos hospitais reclamando de febre recebe máscara e é encaminhado para clínicas especializadas.

O mercado público suspeito foi fechado para esterilização, enquanto as autoridades recomendam que os chineses evitem viagens em direção a Wuhan. Para quem já está na cidade, o pedido é que não saia do município e evite aglomerações.

O município cancelou um importante evento do Ano Novo Lunar, que a cada ano atrai milhares de pessoas.

Várias igrejas em três províncias chinesas suspenderam seus serviços devido a preocupações com a disseminação do coronavírus, informa o portal canadense CHVN.

À medida que a preocupação cresce em todo mundo, Hong Kong, governada pela China, e que teve oito casos confirmados, proibiu a entrada de pessoas que visitaram Hubei nos últimos 14 dias. A proibição não abrange os residentes de Hong Kong.

Macau, que teve pelo menos um caso do vírus, impôs uma proibição semelhante aos que chegavam de Hubei, a menos que eles possam provar que estão livres de vírus.

A cidade de Haikou, na ilha de Hainan, no sul da China, disse que os turistas de Hubei devem ficar em quarentena por 14 dias.

“O povo de Hubei está sendo discriminado”, reclamou um morador de Wuhan na plataforma de mídia social Weibo.

Pelo menos 11 países confirmaram casos da doença em pessoas que vieram de Wuhan, incluindo Tailândia, França, Japão, Estados Unidos e Camboja, que confirmou o primeiro caso nesta segunda. Até o momento, nenhuma morte foi relatada fora da China.

O governo chinês estendeu o feriado do Ano-Novo em três dias, até 2 de fevereiro, numa tentativa de retardar a propagação do vírus. Milhões de chineses costumam viajar durante o feriado, mas muitos tiveram que cancelar os planos devido ao surto. 

A China anunciou a construção emergencial de dois hospitais para receber casos de coronavírus. Um dos prédios terá capacidade para 1.000 leitos, o outro suportará até 1.300.

Fonte: UOL e Folha de S. Paulo