Se existe uma convicção e um desejo compartilhado por cristãos de todas as correntes teológicas, é a volta de Jesus. Então, por que se preocupar tanto com os chamados “sinais dos tempos”, preditos pelo próprio Senhor nos evangelhos, se são acontecimentos inevitáveis e até certo ponto esperados? Em tempos de aquecimento global e de muita propaganda sobre responsabilidade ambiental, ainda existem crentes que não se interessam pela questão justamente por causa desse pensamento.

Para eles, o que importa é cuidar da espiritualidade, já que esperam “novos céus e nova terra”. Contudo, outro pensamento vem ganhando terreno entre os evangélicos nos últimos anos. Conhecido como Igreja Verde, esse movimento acredita que a volta de Cristo e o cumprimento das profecias das Escrituras são realmente inevitáveis, mas defende a tese de que aquilo que pertence a Deus – ou seja, os sinais do fim – deve ser deixado em suas mãos, e que aos homens compete cumprir a ordem de zelar pelo mundo que ele criou e deixou aos cuidados da humanidade desde os tempos de Adão.

“Somos mordomos de Deus e preservar o ambiente faz parte de nossa missão”, defende o pesquisador adventista Marcos De Benedicto. “O pensamento indiferente é insustentável teologicamente e irresponsável socialmente. É inegável que o mundo está sendo destruído por causa do pecado do homem, mas não será a ação da Igreja que impedirá o retorno do Senhor. Tudo que está escrito acontecerá, mas podemos melhorar nossa situação e a do mundo, se não ficarmos na contramão da obra divina. É imperioso preservar a vida”, sintetiza.

Justamente por causa de idéias equivocadas, o cristianismo tem sido acusado nos últimos séculos de insensibilidade ecológica. E pior: de ser o grande responsável pela destruição da natureza, ao instrumentalizá-la. Em 1843, o filósofo alemão Ludwig Feuerbach chegou a dizer que “a natureza, e mesmo o mundo, não têm qualquer valor ou interesse para os cristãos. Eles só pensam na salvação de suas almas”. Apesar de garantir que o ensino bíblico é justamente o oposto (ver quadro), Benedicto admite que nem todos os cristãos têm o discernimento correto. “Será que a raiz ideológica da crise ecológica atual não está mesmo no cristianismo?”, questiona.

Quando se assistem esses cultos que dão ênfase apenas nas bênçãos financeiras e no incentivo do consumismo desenfreado por meio de promessas de prosperidade, as dúvidas se transformam em cruéis certezas. “Devemos mostrar o ensino do próprio Jesus para não acumularmos tesouros aqui e vivermos de modo simples. Simplicidade não significa voto de pobreza, mas a opção de dizer não ao consumismo, ao materialismo e à teologia da prosperidade”, defende a educadora e bióloga Gínia César Bontempo, responsável pela área de educação ambiental da ONG A Rocha, organização cristã internacional que reúne pessoas de todos os credos para realizar pesquisas e projetos de conservação do meio ambiente. Criada em 1986 na Europa, pelo casal anglicano Peter e Miranda Harris, A Rocha se transformou em um empreendimento bem sucedido de preservação ambiental e de estratégia missionária. Isso porque, como é cada vez mais difícil testemunhar diretamente em um ambiente extremamente secularizado, ao colocar num mesmo espaço cristãos, seguidores de outras religiões e ateus, a entidade têm a oportunidade de propagar os valores do Reino de Deus.

Regra dos 3 RR

No Brasil, a ONG existe há apenas dois anos. Mesmo assim, exibe objetivos audaciosos. Trabalhamos como agentes disseminadores, sensibilizando as igrejas para a questão do meio ambiente. Muitas delas estão localizadas nos grandes centros, perto de favelas ou em áreas de conservação nas periferias. Então, mesmo sem sair de seu quintal, podem organizar a comunidade na preservação ambiental”, explica a também bióloga Solange Cristina Mazzoni Viveiros, pesquisadora do Instituto de Botânica de São Paulo e vice-presidente da organização no país. Diferente de outras organizações como o Greenpeace, que adota o enfrentamento como estratégia, a militância cristã trabalha muito mais na conscientização. Além da visão conservacionista, presente também no trabalho dos outros grupos, para eles, a preservação do meio ambiente é um imperativo teológico e questão de amor ao próximo.

Solange atua em A Rocha ao lado do marido, o jornalista Billy Viveiros. Membros da Igreja Presbiteriana, eles contam que a ONG está envolvida em um processo que deve selecionar cerca de 300 comunidades, escolas e igrejas para fazer um amplo trabalho de educação ambiental. A ação conta com o apoio do Ministério do Meio Ambiente, que já manifestou o desejo de usar igrejas – organizações já estruturadas e enraizadas nas comunidades – em alguns projetos. A parceria surgiu em 2006, quando a organização promoveu junto com outras entidades cristãs o I Fórum Cristão Sobre Missão Integral: Ecologia e Sociedade, em Araçariguama, na Grande São Paulo. O evento contou com a presença da senadora e, na época, ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que é evangélica da Assembléia de Deus, e teve boa repercussão inclusive com o lançamento do livro Missão integral: Ecologia e sociedade.

Como em outros países, aqui também A Rocha atua por meio de parcerias e linhas de pesquisa. Inicialmente, o ecossistema trabalhado será a Mata Atlântica, mas com a futura criação de um Centro de Pesquisas e Convivência, a instituição pretende expandir sua ação para outros biomas como a Amazônia, o cerrado e a caatinga – e sempre com a consciência de que não basta apenas reciclar. “Qualquer ação que pretenda ter efeitos na preservação do meio ambiente precisa passar por uma mudança de hábitos. Existe até uma regra, que chamamos de ‘os 3 Rs’: reduzir, reutilizar e reciclar. Se reduzimos nosso consumo, também produzimos menos lixo. Também precisamos usar mais produtos naturais e menos industrializados. Depois, tentamos reutilizar e, por fim, reciclar. Nessa ordem, para economizar energia”, ensina Gínia Bontempo.

A receita já tem sido utilizada com sucesso por algumas escolas, igrejas e até na produção da Palavra de Deus. É o caso da EcoBíblia, a primeira versão ecológica das Escrituras Sagradas no mundo. Lançada em parceria pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) e pelo Instituto Gênesis 128, a obra serve para a expansão do programa Igreja Verde, criado pelo instituto para despertar a consciência de preservação do meio ambiente. “Além do texto bíblico, ela contém recursos como a Carta da Terra e textos sobre desenvolvimento sustentável, cidadania, responsabilidade social e meio ambiente”, diz Valter Ravara, diretor executivo do Gênesis. “Produzida de forma ambientalmente correta, a encadernação em formato brochura leva laminação fosca biodegradável e o encarte é impresso em papel reciclado”, destaca Erni Seibert, Secretário de Comunicação e Ação Social da SBB.

Sabão de óleo

O mesmo caminho é seguido por algumas escolas e igrejas evangélicas. Apesar de não serem ainda muito comuns, cada vez mais organizações em todo o Brasil despertam para o mandamento divino de preservar o jardim – no caso, o planeta. Na Igreja Metodista Livre da Saúde, em São Paulo, a iniciativa partiu do grupo de jovens e já contagiou toda a congregação. “Depois que nosso pastor nos incentivou, começamos a promover palestras e oficinas sobre redução, reutilização e reciclagem para sensibilizar a comunidade”, conta Larissa Tiemi Nakano, estudante de gestão ambiental e uma das coordenadoras do Projeto Reação.

Após esse primeiro passo, eles começaram a trabalhar com os membros. Primeiro, incentivando a mudança de hábitos. Os jovens fizeram tabelas para economizar água, incentivaram os membros a implantar a coleta seletiva em seus bairros e pediram que os fiéis não jogassem fora o óleo usado em casa nas frituras, mas que o trouxessem para a igreja. Junto com o óleo oriundo da cantina, foi fabricado sabão para o pessoal da igreja, oferecido a preço simbólico. O dinheiro arrecadado, claro, é investido nos trabalhos do grupo, como a confecção de folhetos explicativos. O próximo passo do grupo é alcançar a vizinhança do templo. Mas enquanto isso não acontece, o pessoal do Projeto Reação já comemora as primeiras vitórias. A igreja agora se prepara para reformar o telhado. Antes, porém, está montando uma comissão de engenheiros recrutados entre os próprios membros para analisar algumas alternativas. A idéia é fazer com que se aproveite melhor a energia natural e se economize eletricidade – e a obra deve até captar a água da chuva, que pode ser usada, por exemplo, nas descargas dos vasos sanitários. Tudo no melhor espírito ecologicamente correto.

“A educação é sempre o melhor caminho para despertar a consciência ambiental. E os cristãos têm todos os instrumentos para isso”, afirma a professora Márcia Barbutti Barreto, capelã do Colégio Presbiteriano de Governador Valadares, em Minas Gerais. Com 1,2 mil alunos de ensino Infantil, Fundamental e Médio, a escola adotou o tema “Vida diversa: Projetos que fazem a diferença”. Inspirados nele, os alunos estão replantando a mata ciliar nas margens do Rio Doce, que corre ao lado da instituição. Além disso, as crianças menores adotaram árvores para cuidar e zelar e fizeram até uma cantata em defesa do meio ambiente, intitulada Socorro, salve o planeta. Os mais crescidos estudam a poluição no rio e fizeram um canteiro com plantas medicinais. Lá, nem as folhas secas são jogadas fora: tudo é reaproveitado e transformado em adubo, utilizando uma composteira feita pelos próprios estudantes.

Outra escola com educação ambiental exemplar é o Colégio Friburgo, de São Paulo. Associada à Unesco, órgão da ONU para a educação que escolheu 2008 como o Ano Internacional do Planeta Terra, a instituição, mesmo plantada numa das mais poluídas e caóticas metrópoles do mundo, conta com muita área verde e até animais de várias espécies. Lá, os alunos do Ensino Infantil podem desenvolver tarefas inimagináveis em centros urbanos, como tirar leite da vaca, tosar ovelhas e fazer receitas culinárias com produtos plantados e colhidos por eles mesmos. Já a turminha do Ensino Fundamental trocam os copos plásticos, grandes vilões do ambiente, por garrafinhas e canecas não-descartáveis. Eles criaram até um mascote da ecologia, para divulgar suas iniciativas entre pais e colegas. Jogar papel no lixo? Nem pensar. A ordem é guardar, reciclar e fazer cartões para ocasiões festivas, como o Dia das Mães – de preferência, com mensagens que estimulem a consciência ecológica.

A escola conta ainda com uma área de preservação ambiental com 400 mil metros quadrados no município paulista de Cabreúva, onde funciona sua Estação Natureza do Ensino. Os alunos fazem regularmente viagens pedagógicas para lá. “Nosso lema é ‘Qual é a sua natureza?’”, diz o professor Ciro Rodrigues Figueiredo, diretor-geral do Colégio Friburgo e crente presbiteriano. “Nossos funcionários, professores e alunos contam com programas próprios que estimulam a preservação do meio ambiente, supervisionados por educadores e biólogos. Não há sentido na existência humana sem essa preservação. O planeta está degradado e procuramos formar cidadãos para transformá-lo”.

Fonte: Revista Eclésia edição 124