Levantamento da organização Aid to the Church in Need identificou agravamento da situação em 10 dos 18 países analisados. Conflitos armados, violência extremista e restrições governamentais estão entre os fatores que ameaçam comunidades cristãs.
A perseguição aos cristãos se agravou em mais da metade dos países monitorados pela organização católica Aid to the Church in Need (ACN) nos últimos dois anos. A conclusão faz parte do relatório Perseguidos e Esquecidos? Um Relatório sobre os Cristãos Oprimidos por sua Fé 2024–2026, divulgado em 27 de outubro.
O documento analisa a situação dos cristãos em 18 países onde há preocupação especial com violações da liberdade religiosa. O período estudado vai de agosto de 2024 a junho de 2026.
Segundo a organização, a situação piorou em 10 dos 18 países avaliados. Nenhum deles apresentou uma melhora geral nas condições enfrentadas pelos cristãos.
A ACN estima que aproximadamente 413 milhões de cristãos vivem nesses 18 países, marcados por diferentes níveis de violações da liberdade religiosa. O relatório aponta como principais fatores de agravamento a violência de grupos extremistas, a repressão de governos autoritários e o crescimento do nacionalismo religioso.
Cristãos do Oriente Médio temem pelo futuro
O relatório destaca a preocupação com a continuidade das comunidades cristãs no Oriente Médio, região historicamente ligada às origens do cristianismo.
A guerra civil na Síria, a violência de grupos islamistas no Levante e as consequências da resposta de Israel ao ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023, são apontadas como fatores que contribuíram para a deterioração das condições na região.
Segundo a ACN, operações militares israelenses na Faixa de Gaza provocaram mortes e deslocamentos, enquanto igrejas como a Sagrada Família e a de São Porfírio serviram de abrigo para cristãos que fugiam da violência.
O conflito também se estendeu ao Líbano após ataques israelenses contra o Hezbollah, grupo militante apoiado pelo Irã. De acordo com o relatório, as operações contra o grupo esvaziaram localidades cristãs próximas à fronteira entre Israel e Líbano. Pelo menos 1 milhão de pessoas foram deslocadas no território libanês.
A escalada dos conflitos renovou o temor entre comunidades cristãs sobre a possibilidade de permanecerem na região.
No Iraque, os ataques iranianos contra bases norte-americanas aumentaram as preocupações com uma nova onda de saída de cristãos. A população cristã iraquiana já teria diminuído de quase 1 milhão para cerca de 187 mil pessoas ao longo da última década, período marcado por guerras e instabilidade política.
Repressão cresce na China, no Irã e na Nicarágua
Além dos conflitos armados, o documento aponta o agravamento da perseguição em países governados por regimes autoritários.
Na China, a pressão sobre igrejas e comunidades cristãs está relacionada ao controle estatal sobre a prática religiosa. Na Coreia do Norte, o cristianismo é frequentemente visto pelas autoridades como uma influência ocidental considerada uma ameaça à unidade nacional.
O relatório estima que aproximadamente 190 mil norte-coreanos estejam presos ou confinados em campos de trabalhos forçados. Uma parcela significativa dessas pessoas seria cristã, segundo a avaliação citada no documento.
No Irã, o levantamento identifica aumento das restrições e das detenções de cristãos. Na Nicarágua, a repressão contra comunidades religiosas inclui prisões e exílio de líderes cristãos, além de limitações à atuação de instituições religiosas.
A ACN também observa que, em países com influência regional ou global, o crescimento do sentimento contrário ao Ocidente tem sido acompanhado por níveis elevados de repressão.
Nacionalismo religioso aumenta a pressão sobre minorias
O relatório alerta que cristãos são cada vez mais tratados como pessoas indesejadas em países onde o nacionalismo religioso influencia políticas públicas e relações sociais.
Na Índia, leis contra conversões religiosas e discursos nacionalistas são apontados como fatores associados a episódios de hostilidade contra cristãos. O documento também destaca a influência de grupos islamistas no Paquistão, onde cristãos enfrentam problemas como acusações de blasfêmia e casos de conversão e casamento forçados envolvendo meninas cristãs.
Na avaliação da ACN, a pressão sobre as minorias religiosas não ocorre de maneira isolada. Questões étnicas, instabilidade política, pobreza e disputas por terras e recursos podem se combinar com a identidade religiosa e agravar os conflitos.
África Subsaariana concentra violência contra cristãos
A África Subsaariana é apontada pelo relatório como um dos principais focos mundiais de perseguição aos cristãos. Grupos extremistas têm atacado igrejas, líderes religiosos e comunidades inteiras, provocando mortes e deslocamentos em diferentes países.
Segundo o documento, seis dos dez países mais afetados pelo terrorismo no Índice Global de Terrorismo de 2026 estão na África.
No Sudão, a guerra civil em andamento provocou acusações de crimes de guerra e de perseguição religiosa. Mais de 100 igrejas sofreram danos ou foram destruídas, segundo os dados citados na reportagem.
Na Nigéria, pelo menos 1 milhão de cristãos estão entre os mais de 3,5 milhões de habitantes deslocados internamente em consequência da violência e dos conflitos no país.
O relatório também descreve ataques extremistas em diferentes partes do continente, incluindo regiões da África Oriental e Ocidental. A violência tem obrigado milhões de pessoas a abandonar suas casas, entre elas numerosas famílias cristãs.
Cristão nigeriano relata violência e encontra força na oração
Entre os testemunhos incluídos no levantamento está o de Solomon Ako, cristão de 33 anos do norte da Nigéria. Ele foi sequestrado e sofreu repetidos abusos depois de se recusar a renunciar à fé cristã.
Ao relatar sua experiência à ACN, Ako afirmou que a lembrança de cristãos de outros países que oravam pela Igreja perseguida o ajudou a suportar o sofrimento.
“Todas as noites, quando nossos sequestradores dormiam, nós orávamos. Orávamos sabendo que não estávamos sozinhos, que havia pessoas como vocês que nunca nos abandonariam. Isso foi o que nos manteve fortes naquela época e é o que nos mantém fortes agora”, relatou.
O testemunho destaca a dimensão pessoal da perseguição documentada no relatório, que reúne análises sobre diferentes países e relatos de comunidades afetadas por violência e discriminação.
Milhões de cristãos enfrentam perseguição ou discriminação
Os dados da ACN são semelhantes aos apresentados por outras organizações que monitoram a liberdade religiosa.
A organização Portas Abertas, responsável pela Lista Mundial da Perseguição, estimou que aproximadamente 388 milhões de cristãos enfrentavam algum tipo de perseguição intensa ou discriminação por causa da fé, conforme levantamento divulgado em 2026.
Segundo a entidade, mais de um em cada sete cristãos no mundo enfrentou situações de perseguição ou discriminação em 2025. A estimativa representa um aumento de mais de 8 milhões de pessoas em relação ao ano anterior.
Os números utilizam metodologias próprias de cada organização e não devem ser somados, pois os levantamentos podem abranger situações e populações sobrepostas.
O relatório da ACN conclui que a violência e a repressão continuam ameaçando comunidades cristãs em diferentes regiões. Além dos riscos à segurança, os deslocamentos em massa podem alterar de forma duradoura a presença histórica de cristãos em determinados territórios.
Folha Gospel com informações de The Christian Post







