Pastor Waldeir de Oliveira espalha fake news sobre a cura do coronavírus
Pastor Waldeir de Oliveira espalha fake news sobre a cura do coronavírus

O pastor de uma igreja em Praia Grande, em Santos, litoral paulista, gravou um vídeo que viralizou nas redes sociais, disseminando uma receita sem eficácia comprovada para evitar o contágio pelo coronavírus. (Veja o vídeo no final desta matéria).

De terno e gravata, o pastor Valdeir de Oliveira, da Assembleia de Deus Ministério da Missão, em Praia Grande (SP), diz que recebeu a receita do irmão, que, por sua vez, tinha recebido a dica de um judeu.

Nas imagens, ele diz que o gargarejo de uma mistura feita com água morna, bicarbonato de sódio e limão faria com que os fiéis “não pegassem coronavírus”. A sugestão é refutada por especialistas e não há qualquer comprovação de que evitaria a Covid-19.

“Vocês vão pegar uma colher de chá de bicarbonato e pôr no copo de água. Coloca e vai mexer. Água morna. Depois, pega meia banda de limão”, explica o pastor, enquanto espreme a fruta em cima do copo. Ele ainda diz que é possível substituir o limão por vinagre de maçã.

“Você vai fazer gargarejo antes de dormir todos os dias, e você não vai pegar o coronavírus, porque ele fica quatro dias alojado na garganta. Faz até acabar a água. Depois você me diga como é o resultado”, declarou o pastor na publicação.

Ao portal G1, Waldeir de Oliveira disse que excluiu o vídeo após ser aconselhado, e que apenas deu uma dica com a publicação. “Meu irmão mora nos Estados Unidos há 40 anos. Eu expliquei bem no vídeo, ela não é para curar coronavírus, é para limpar a garganta”, alegou.

Questionado sobre a frase em que afirma que a pessoa não vai pegar o coronavírus, ele disse que era apenas um conselho. “Só era para ter higiene bucal e não efeito de remédio”, finaliza o pastor.

A equipe do Fato ou Fake fez um checagem sobre o assunto e confirmou com especialistas que a receita não tem eficácia, pode causar danos à saude e que não é verdade que o coronavírus passa dias na garganta de alguém infectado. Nas redes sociais, também já foi sugerida uma falsa cura com o gargarejo de sal, limão e vinagre.

“A infecção pelo coronavírus pode dar tosse seca, dor de garganta, mas não é possível dizer que essa tosse seca seja porque o vírus está na garganta e demora tantos dias para chegar no pulmão. Isso faz parte do quadro clínico da infecção e o tempo para o vírus chegar depende de cada pessoa. Não existe um tempo certo. O gargarejo com profutos corretos para isso pode ser bom para ajudar no alívio da tosse, mas dizer que elimina vírus é uma grande bobagem”, afirma Leonardo Weissmann, médico infectologista e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Outro ponto importante é que, além de não evitar mortes por Covid-19 , a ingestão de limão e bicarbonato em excesso pode ser prejudicial à saúde, como explica o farmacêutico Leandro Medeiros, coordenador do curso de Farmácia da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

“O bicarbonato, quando em excesso no sangue, pode gerar o que chamamos alcalose metabólica, quando o sangue fica muito alcalino, o que pode levar a complicações neuromusculares e pode também sobrecarregar a função renal, especialmente”, explica.

De acordo com o médico infectologista Evaldo Stanislau, não há nenhuma pesquisa que comprove as afirmações do pastor. “É lamentável, com tanta informação já veiculada, inclusive essa fake news (notícia falsa) já desmentida em rede nacional, que uma pessoa que deveria ter responsabilidade divulgue algo assim”, declara o infectologista.

Stanislau ainda explica que medidas como essas são um desserviço para a população. Questionado sobre pesquisas que falem sobre o assunto, o médico informa que não há nada que reitere ou confirme a afirmação feita no vídeo, e ainda orienta pessoas que vejam algo similar na internet. “Tem que denunciar à rede social para tirar do ar e bloquear [a postagem]”, completa o especialista.

A reportagem do G1 também procurou o advogado criminalista Paulo de Jesus para explicar se o vídeo sem embasamento configura crime de charlatanismo. O especialista explica que, apesar da fala ser feita sem base cientifica, já que nem a comunidade médica tem um consenso sobre o vírus, o vídeo não entra na prática. “Ele não faz menção ou desencoraja o uso da máscara ou do álcool em gel e não fala que a pessoa deve deixar de usá-lo. Não vejo como um caso que seria levado à área penal” explica.

O advogado reitera que, para entrar como charlatanismo, é necessário anunciar cura por meio secreto ou infalível. “O fato de anunciar por vídeo que algumas pessoas fazem isso não configura o crime. Ainda mais nessas circunstâncias que você falou, sobre não recomendar o descumprimento das medidas em detrimento do uso da água com limão”, completa o especialista.

Em 3 de abril, o Ministério da Saúde publicou em seu site que a receita que envolve água, limão e bicarbonato trata-se de ‘fake news’. Segundo o órgão do governo, até o momento não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo novo coronavírus.

Em relação ao que o pastor falou sobre a não propagação do coronavírus em Israel, dados oficiais indicam que o país já registrou 16.436 casos do novo coronavírus. Ao todo, são 245 óbitos e mais de 10 mil pacientes recuperados.

Fonte: G1, Último Segundo e A Tribuna