Um sujeito educado, bom de lábia, conhecedor profundo da “Bíblia”, mas um picareta. Tão grande quanto a fé de quem acreditou nas promessas de José Moisés da Silva, 58, só mesmo a ficha criminal do homem que se passava por pastor de uma igreja para tirar dinheiro de fiéis bolivianos na Zona Norte.

[img align=left width=300]http://www.midianews.com.br//storage/webdisco/2016/08/24/438×291/d394435ab0992490f4db07df5fd673b0.jpg[/img]Preso em flagrante no fim da noite de segunda-feira (22), quando se preparava para conduzir mais uma reunião na Assembleia de Deus da Vila Maria, ele pode ter “ganho” mais de R$ 500 mil das vítimas em três anos. “Prendemos o diabo ajoelhado dentro da igreja”, contou o delegado Edilzo Correia de Lima.

O golpe só foi descoberto porque, na tarde de segunda-feira, o pastor titular da Assembleia de Deus, Moises Velasco, se apresentou no 19 DP (Vila Maria) com 15 vítimas.

“Esses foram os que toparam denunciar, mas outros não quiseram se expor”, afirmou o verdadeiro religioso. Segundo ele, a igreja existe há 16 anos e atende a comunidade evangélica boliviana, contando hoje com aproximadamente mil integrantes.

Após a prisão, os agentes descobriram que esta não era a primeira vez que o falso pastor cometia esse tipo de crime. Com uma ficha criminal de mais de 200 folhas, que inclui até condenações por estupro (leia mais ao lado), Silva já havia passado 12 anos atrás das grades.
A Polícia Civil o indiciou por crime de estelionato, falsidade documental e associação criminosa. Se condenado, ele pode pegar mais 12 anos de cadeia. Ontem, depois de passar apenas uma noite preso, José foi solto pela Justiça sem pagamento de fiança. Ele responderá pelas acusações livre.

[b]Tudo falso
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Apresentando uma carteirinha da Convenção Geral das Igrejas Pentecostais do Brasil e uma carta de recomendação da Igreja Evangélica Jesus Voltará, José chegou há três anos na Assembleia de Deus da Vila Maria. “Descobrimos depois que isso tudo era falso também”, disse Velasco, o pastor titular.

Um ano após começar a frequentar o local, Silva passou a conduzir cultos e reuniões. “Foi assim que ele ganhou a confiança dos fiéis e, depois, se passou também por advogado, oferecendo auxílio na negociação de imóveis”, relatou o pastor verdadeiro.

Os contratos feitos desses imóveis e terrenos, que iam do Butantã (Zona Oeste da capital) até Cotia (Grande São Paulo), eram assinados por outros advogados, que também não existiam. “Sendo um com a OAB cassada e outro já falecido”, explicou o delegado.

A trama só veio à tona pois o pastor titular desconfiou quando ouviu de alguns fiéis que haviam dado, em dinheiro vivo, adiantamentos que iam de

R$ 3 mil a R$ 145 mil para o estelionatário. “Ele usava a fé dessas pessoas para tirar dinheiro delas”, disse Velasco.

[b]Golpista conhecia bem a ‘Bíblia’ e era ‘perito’ em direito
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Durante três anos, a figura serena de José Moisés da Silva não despertou desconfiança nem das vítimas nem dos líderes da igreja. “Ele era de muito boa lábia, muito eloquente. Conhecia muito bem o âmbito evangélico e do direito”, lembrou Velasco, que é filho de bolivianos e atua na Assembleia de Deus há oito anos.

Segundo o pastor titular, Moises Velasco, José era responsável por conduzir o culto das 18h de domingo. Fora da celebração, enganava os fiéis, recebia o adiantamento pelos contratos falsos e passava a enrolar as vítimas. “Ele pegava o dinheiro, sempre pago à vista, e, quando questionado, dizia que o processo era longo, que demorava seis meses até um ano.”

Comerciantes, mecânicos e costureiras foram enganados. “Ele se aproveitou da humildade das pessoas. É um charlatão mesmo”, lamentou Velasco.

Ainda segundo o denunciante, ao se apresentar há três anos, o falsário afirmou ter experiência com evangelização em hospitais e presídios. Na delegacia, o “currículo” provou que Silva passou 12 anos em casas de detenção, não como missionário, mas cumprindo pena por diversos crimes, entre eles, estelionato e até estupro.

[b]‘Capivara’ tem 200 folhas
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Falso pastor já foi acusado de estelionato outras vezes, além de responder por tráfico e cumprir pena por estupro. Ficha criminal tem quase 50 metros

Exercício ilegal da profissão, embriaguez ao volante, falsificação, furto, apropriação indébita, cárcere privado, usurpação da função pública, tráfico de drogas, falsa identidade, duas acusações de estupro, além de outras de estelionato. A ficha criminal de José Moisés da Silva tem mais de 200 folhas, ou, aproximadamente, 50 metros.

“Ele fez um passeio por todas as delegacias da capital e Grande São Paulo”, revelou o delegado Edilzo Correia de Lima.

Segundo a Polícia Civil, o falso pastor, que agora responde em liberdade, iniciou a vida criminosa em 1977, aos 19 anos. Desde então, passou por prisões no interior paulista (Bauru, Serra Azul, Jandira e Itaí), além de ter ficado detido no Complexo do Carandiru.

Ainda de acordo com as autoridades, em uma das condenações por estelionato, Silva ficou preso por seis anos e oito meses. Em outra, desta vez por estupro, foram mais sete anos em regime fechado.

“Ele tem dois estupros. Se tivesse cumprido todas as condenações, seriam mais de 30 anos. Mas ele foi recorrendo e acabou cumprindo só 12”, destacou o delegado.

A polícia acredita que outras pessoas podem ter sido vítimas do falso pastor, independentemente da religião. “Católicos, espíritas, tanto faz. Ele se aproveita da fé das pessoas.”

[b]Fonte: Midia News[/b]