Há seca severa, mas este não é o principal motivo por trás da crise de fome que assola a Somália.

A análise é de Abdi Ismail Samatar, professor da Universidade de Minessota, nos Estados Unidos.

Nascido na Somália, naturalizou-se americano e pesquisa a África há cerca de 30 anos. Falou à Folha, por telefone, de Pretória, na África do Sul, onde é professor visitante.

Na quarta-feira, a ONU declarou crise de fome em mais três regiões somalis, elevando o total a cinco áreas que enfrentam a emergência humanitária. Segundo estimativas do órgão 3,2 milhões somalis –cerca de um terço da população do país– necessitam de assistência imediata para sobreviver.

Os EUA estima em 29 mil o número de crianças abaixo de cinco anos mortas por conta da fome nos últimos 90 dias no sul da Somália.

[b]FOLHA – Por que a Somália enfrenta uma crise de fome?
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ABDI ISMAIL SAMATAR – A cada dois anos ou três há uma seca, em um ano ou outro pode ser uma seca severa. Nos últimos 50 anos da história da Somália, houve várias secas, mas elas nunca chegaram a se tornar uma crise de fome, em que as pessoas morrem aos milhares. Isso porque haviam governos no país que tinham a capacidade de intervir e assistir as pessoas.

O que mudou nos últimos 20 anos, mas mais nos últimos 7 anos é uma série de intervenções internacionais: a ocupação da Etiópia [2006-2008], a intervenção americana em termos de apoio aos “warlordes”, que criaram uma instabilidade que tornou quase impossível o estabelecimento de um governo local.

Agora, porque não há um governo efetivo quando as pessoas enfrentam a crise da seca, não tem a quem recorrer. Então é a falta de assistência que criou a fome e não a seca em si.

[b]Mas a crítica da comunidade internacional agora é de que a milícia Al Shabab (em controle de parte da Somália) está impedindo a entrega de alimentos e ajuda humanitária. Isso é correto?
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O que acontece é que o Al Shabab era um grupo muito, muito pequeno. A intervenção dos americanos e dos etíopes produziram o tipo de Al Shabab que temos hoje. O grupo é um dos culpados pela fome na Somália hoje, os outro são, a guerra americana ao terror, a UE (União Europeia) pela manipulação da produção de alimentos no país, o Governo Federal Transitório (TFG, na sigla em inglês) e a ONU. Essas são as organizações que produziram a fome na Somália.

Se a comunidade internacional quer ajudar a Somália, agora é preciso enviar alimentos para os lugares onde as pessoas vivem para que elas não precisem deixar suas cidades e se tornem refugiados, porque uma vez que você se torna um refugiado da fome em campos na fronteira com o Quênia ou a Etiópia é muito difícil retornar à Somália.

Mas o mais importante, é que você pode distribuir alimentos e permitir que as pessoas sobrevivam, mas reconstruir suas vidas requer o tipo de governo que pode agir em prol de seus cidadãos.

Tenho argumentado nos últimos dez anos que a comunidade internacional tem sido um dos maiores obstáculos para que os somalis possam se organizar para reconstruir seus governos. Então, o que a comunidade internacional pode fazer também é ajudar os somalis a reconstruir seus governos, que seja competente e legítimo, que se importe com seu próprio povo.

[b]E você vê isso acontecendo nos próximos anos?
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Não espero que os Estados Unidos se mova nesta direção, porque apesar de Obama ser um democrata e um afrodescendente, sua política é continuação da “Guerra ao Terror” de Bush. Se você comparar a política externa de Bush na África, com a de Obama, não verá nenhuma mudança positiva.

Hoje a Hillary Clinton fez um pronunciamento em que ficou o tempo todo falando ‘Al Shabab deve fazer isso, deve fazer aquilo’, ela nunca olhou para o espelho e admitiu o que os governos americanos têm feito para minar a Somália, apoiando a Etiópia, os warlordes.

[b]Qual a situação política interna na Somália?
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Al Shabab e os que hoje se autoproclamam TFG eram as mesmas pessoas, parte de um só grupo. Depois de uma reunião em Dijibuti, em 2008, mediada pela ONU e pelos EUA, promoveu esta separação. Eu me lembro de ter falado aos representantes do TFG, então, que eles só deveriam aceitar formar um governo, se a milícia estivesse junto.

Hoje o TFG é um dos regimes mais corruptos do mundo, mas pior são assustadoramente incompetentes. O povo somali aceita o Al Shabab e não respeita o TFG, estão buscando uma alternativa. Há algumas pequenas organizações políticas surgindo, como por exemplo, o partido Hiilqaran, mas ainda há muito a ser feito.

[b]Fonte: Folha.com[/b]