A um mês de completar oficiais 50 anos de carreira, recém-saído de uma cirurgia cardíaca, Hélio Delmiro, pastor evangélico, convertido há 26 anos, o mais renomado guitarrista brasileiro no circuito mundial do jazz, pede uma oportunidade para voltar à ativa.

Aos 64 anos, ele diz encontrar-se em grande forma técnica, mas que a atual fase de sua vida “é muito delicada”. “As pessoas não me dão mais trabalho, as pessoas estão me excluindo. Estou em forma. Estou tocando melhor ainda”, afirma ele, em conversa por telefone.

Conhecido no meio musical por Helinho, o que já lhe causou alguma chateação quando do lançamento, em 1974, do histórico disco que reuniu Elis Regina e Tom Jobim, ele estreou na música em 24 de novembro de 1961, no palco do clube Mackenzie, zona norte do Rio. Era o precoce guitarrista do conjunto Bossa Méier. “Ganhei um conto de réis, era dinheiro pra burro. Foi aí que começou minha história”, lembra ele, que logo depois passou a integrar o conjunto do saxofonista Moacyr Silva, que gravava disco para bailes com o nome de Bob Fleming. Nunca mais parou. Só agora, com a doença cardiológica.

Delmiro detesta falar em retomada na carreira após a angioplastia que lhe valeu a colocação de dois stents, em agosto, na Santa Casa de Juiz de Fora (MG). Ficou um mês e meio hospitalizado. Amigos abriram uma conta bancária para a captação de recursos que cobrissem as despesas médicas. Lançaram, também, a campanha ‘SOS Hélio Delmiro’ e abriram na rede social Facebook a página ‘Viva Hélio Delmiro – Amigos Unidos pela Recuperação deste Grande Músico’.

“Quase que vou nessa. Jesus me tirou”, afirma sobre os problemas de saúde – é também hipertenso e diabético. A frase revela uma outra face do músico. Ele é pastor evangélico, convertido há 26 anos. Foi arranjador e guitarrista da banda que acompanhava as pregações do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Não esquece as duas vezes em que tocou para 250 mil pessoas reunidas nas arquibancadas e no gramado do Estádio do Maracanã. Saiu da Universal, mas manteve contatos com seus integrantes. O senador Marcello Crivella (PRB-RJ), sobrinho de Macedo e ex-dirigente da Igreja, ao sabê-lo internado, colocou-se à disposição. “Ele me disse: ‘Hélio, o que você precisar, o que você quiser, é só me ligar’. Chamo ele de bispo”.

O ex-acompanhante de Elis Regina, Sarah Vaughan, Elizeth Cardoso, Tom Jobim, Larry Coryel, Joe Pass, Paul Horn e Milton Nascimento, destaque de concertos na Europa, Estados Unidos e Japão, como solista, é um convalescente tido como rebelde pelos médicos que o atenderam. À revelia deles, deixou a casa da filha Luciana (tem mais cinco filhos de casamentos diferentes) em Juiz de Fora.

Delmiro tem circulado por Rio, Teresópolis e Volta Redonda (cidades fluminenses). Ninguém sabe se está levando uma vida moderada, como recomendaram os responsáveis pelo tratamento. O guitarrista não comenta o que tem feito. Diz apenas que está no Rio.

Cardiologista que o ajudou no período em Juiz de Fora, o pianista e compositor Márcio Hallack convidou o amigo para tocarem juntos em novembro em um festival de jazz em Tiradentes (MG). Delmiro também foi chamado pelos colegas do grupo Azymuth (José Roberto Bertarmi, nos teclados; Alex Malheiros, no baixo; Ivan Conti, na bateria) para uma apresentação no Rio. “Sou remanescente de uma música de qualidade ímpar. Tinha que participar de dois, três concertos por semana. Estou paradão, não tenho projeto. Neguinho tá pouco ligando pra minha carreira. Já me botaram na geladeira”, lamenta.

A falta de trabalho e os problemas de saúde não são os primeiros dissabores de Delmiro. Em 2004, por não pagar pensão alimentícia aos filhos, ele ficou dois meses preso em Santos (SP). A dívida de R$ 11 mil só foi quitada após show no Teatro João Caetano em 3 de agosto daquele ano, realizado por músicos como Guinga, Jards Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz, Wagner Tiso, Victor Bilglione, Leila Pinheiro e Fátima Guedes, entre outros. No meio artístico, comentou-se à época a contribuição financeira que o cantor Lulu Santos teria dado. Mesmo sem ser amigo pessoal, Lulu teria sido um dos principais colaboradores na arrecadação da quantia que permitiu a soltura de Hélio.

[b]Fonte: Estadão[/b]