O governo interino de Honduras, presidido por Roberto Micheletti, impediu nesta sexta-feira (25) que o bispo católico Luis Alfonso Santos e o candidato presidencial César Ham se reunissem com o presidente deposto do país, Manuel Zelaya.

Em declarações a agências de notícias, Ham disse que a visita poderá acontecer neste sábado e que Zelaya negociou, mas “o governo interino de Micheletti não deu permissão para que chegasse à Embaixada do Brasil”, onde o governante deposto está refugiado desde a segunda-feira passada, após 86 dias de exílio.

Nesta quinta-feira, o arcebispo auxiliar de Tegucigalpa, Juan José Pineda, cruzou o cordão militar que cerca a embaixada brasileira para conversar com Zelaya, refugiado no local desde que retornou clandestinamente ao país na segunda-feira.

“Como filho deste país e desta Igreja, eu quis assumir a responsabilidade de dar o primeiro passo e abrir esta porta para que haja diálogo”, disse após o encontro.

A Igreja Católica apoiou em nome da paz a queda de Zelaya em 28 de junho.

Depois de Pineda, estiveram na embaixada brasileira quatro candidatos às eleições presidenciais de novembro para se engajar no que descreveram como diálogo.

“Às duas partes envolvidas pedimos que se sentem para dialogar (…) Já que Zelaya está aqui, há que se aproveitar o diálogo”, acrescentou Darwin Andino, outro bispo auxiliar de Tegucigalpa.

Histórico

Zelaya voltou a Honduras quase três meses depois de ser expulso. Nas primeiras horas do dia 28 de junho, dia em que pretendia realizar uma consulta popular sobre mudanças constitucionais que havia sido considerada ilegal pela Justiça, ele foi detido por militares, com apoio da Suprema Corte e do Congresso, sob a alegação de que visava a infringir a Constituição ao tentar passar por cima da cláusula pétrea que impede reeleições no país.

O presidente deposto, cujo mandato termina no início do próximo ano, nega que pretendesse continuar no poder e se apoia na rejeição internacional ao que é amplamente considerado um golpe de Estado –e no auxílio financeiro, político e logístico do presidente venezuelano, Hugo Chávez– para desafiar a autoridade do presidente interino e retomar o poder.

Isolado internacionalmente, o presidente interino resiste à pressão externa para que Zelaya seja restituído e governa um país aparentemente dividido em relação à destituição, mas com uma elite política e militar –além da cúpula da Igreja Católica– unida em torno da interpretação de que houve uma sucessão legítima de poder e de que a Presidência será passada de Micheletti apenas ao presidente eleito em novembro. As eleições estavam marcadas antes da deposição, e nem o presidente interino nem o deposto são candidatos.

Mas o retorno de Zelaya aumentou a pressão internacional sobre o governo interino, alimentou uma onda de protestos que desafiaram um toque de recolher nacional e fez da crise hondurenha um dos temas da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), reunida em Nova York esta semana. A ONU suspendeu um acordo de cooperação com o tribunal eleitoral hondurenho e a OEA planeja a viagem de uma delegação diplomática a Honduras para tentar negociar uma saída para o impasse.

Pelo menos duas pessoas morreram em manifestações de simpatizantes de Zelaya reprimidas pelas forças de segurança durante um toque de recolher que foi suspenso nesta manhã. Nesta quinta-feira, houve novas marchas em favor do presidente deposto, mas também manifestações favoráveis ao governo interino.

Fonte: Folha Online

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