No ano de comemorações do bicentenário do nascimento de Charles Darwin – o naturalista inglês que, há 150 anos, ao escrever A Origem das Espécies e propor a Teoria da Evolução, mudou totalmente a forma de a humanidade entender a natureza –, as escolas confessionais brasileiras têm sido alvo de pesadas críticas da imprensa secular por ensinar também o criacionismo nas aulas de Ciências.

De tempos em tempos o debate sobre o assunto volta à tona. Desta vez, tudo começou quando um colunista do jornal Folha de São Paulo reproduziu em seu blog na internet uma lição de criacionismo do Colégio Presbiteriano Mackenzie, um dos mais conceituados do país, para turmas da quarta série do ensino fundamental. Foi a deixa para o debate se espalhar pela mídia, o que pressionou o Ministério da Educação (MEC) a tomar uma posição contra a inclusão, em aulas de Ciências ou de Biologia, de qualquer perspectiva criacionista, mesmo em escolas confessionais. A autonomia dessas instituições para definir sua grade curricular chegou a ser questionada, num tom fortemente anti-religioso.

Mas, ao contrário do que veicularam alguns blogs mais apressados, em nenhum momento o ministério atuou para engessar ou interferir na grade dos colégios. A diretora de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Lacerda, declarou que o órgão é contrário a ensinos criacionistas nas aulas de Ciências ou de Biologia. “A nossa posição é objetiva: criacionismo pode e deve ser discutido nas aulas de religião, como visão teológica, nunca nas aulas de ciências”, disse, reconhecendo, porém, a autonomia das escolas.

No ano passado, a filial de Brasília do Colégio Mackenzie aceitou mudar uma apostila após questionamento do ministro da Educação, Fernando Haddad, que tem uma filha matriculada na escola. O colégio ensina o evolucionismo normalmente, a partir da sexta série do ensino básico, obedecendo às exigências curriculares do MEC, mas também dá espaço para o criacionismo e para o chamado “design inteligente” – concepção segundo a qual a complexidade dos organismos deriva de uma base pré-existente. O ministro teria se queixado do fato de o material não ter sido apresentado aos pais no início do ano letivo. A assessoria de imprensa da instituição negou qualquer pressão do MEC ou de Haddad e explicou que se trata de material destinado ao ensino fundamental, recentemente adaptado do exterior, e que cabiam correções de português. O conteúdo religioso também foi amenizado. E o ministro manteve sua filha na instituição.

Convicções e diversidade

As escolas adventistas, que seguem a mesma linha do Mackenzie quanto ao ensino do criacionismo, também foram criticadas pela imprensa, mesmo tendo seu desempenho educacional reconhecido. “A educação confessional é um direito constitucional e reconhecido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional”, lembra, o reitor do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), Euler Pereira Bahia. “Nossos constitucionalistas foram sábios o suficiente para compreender que aqueles que desejam educar os seus filhos em um ambiente escolar cujos valores se harmonizam com suas convicções devem ter o direito de fazê-lo dentro da diversidade que o sistema escolar reconhece”, ressaltou.

Euler, que também é o presidente da Associação Brasileira das Instituições Educacionais Evangélicas (ABIEE), não vê motivos para o criacionismo não ter espaço nas escolas. “Aquilo que é ciência, ou seja, aquilo que corresponde aos fatos observáveis e suas leis no mundo natural e que são abordados dentro do chamado método científico, é perfeitamente compatível com a visão criacionista da realidade”, declara o educador. “O que distingue os dois modelos [criacionismo e evolucionismo] é, precisamente, o fato de que, no modelo criacionista, se admite a existência de um Deus Criador, conforme revelado nas Sagradas Escrituras, que planejou a criação do Universo e estabeleceu leis para governarem o seu funcionamento. Ao contrário desta cosmovisão, os evolucionistas defendem que tudo veio à existência através das leis naturais, sem mesmo sequer admitir a existência de um Legislador”.

Para Bahia, é preciso ensinar as duas possibilidades. Ele diz que é um erro confundir criacionismo com religião: “Vale dizer que o evolucionismo não é, na melhor das hipóteses, nem mais científico e nem menos religioso que o criacionismo”, destaca. “Não vejo qualquer razão que não seja a discriminatória para impedir que o aluno tenha o direito de conhecer estas duas estruturas conceituais a respeito das origens e suas implicações sobre as demais áreas do conhecimento e comportamento humanos.”

O assunto interessa particularmente aos religiosos. Neste ano, a Unasp, em parceria com a Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), já promoveu o seu sexto Encontro Nacional de Criacionistas, com o tema “Evidências e especulações sobre as origens”. Em abril, a Universidade Presbiteriana Mackenzie deve realizar o “II Seminário Internacional Darwinismo Hoje”, para discutir design inteligente, evolucionismo e criacionismo. E em março, no Vaticano, a Igreja Católica vai realizar o seminário “Evolução biológica, fatos e teorias”.

Mas o assunto não é ponto pacífico nem entre as escolas confessionais. “Um professor bem formado e consciente não vai falar sobre criacionismo em aula de ciência”, diz José Carlos Barbosa, que é pastor metodista, historiador e autor de vários livros, dentre os quais Lugar onde amigos se encontram – Caminhos da Educação Metodista no Brasil (Editora Unimep). “Lembro de uma palestra que ouvi no salão nobre do Colégio Piracicabano, ministrada pelo professor Warwick Kerr, membro da Igreja Metodista e importante cientista. Ele disse em 1979 que era cristão e que não via nenhuma incompatibilidade entre a Bíblia e os ensinos de Darwin. Penso como ele”, frisa.

Ciência e fé

Desde que foi proposta, em 1859, a Teoria da Evolução, concebida a partir da observação científica da adaptação das espécies de plantas e animais ao seu habitat, provocou um terremoto. Como resultado dos acirrados debates entre cientistas e teólogos da época, consolidaram-se grandes fissuras na relação entre a ciência e a fé. Teólogos defensores da interpretação literal do relato do livro bíblico de Gênesis para a criação do mundo condenaram de pronto a teoria alicerçada na seleção natural das espécies.

O que muitos se esquecem é que, mesmo naquele momento, diversos teólogos cristãos de fé firme e ortodoxa não viram problemas em crer na revelação bíblica e explicar o desenvolvimento das espécies pelo prisma da teoria de Darwin. Em O deus de Dawkins: Genes, memes e o sentido da vida (Shedd Publicações), o biólogo e também teólogo Alister McGrath lembra que o anglicano John Henry Newman (1801-1890), contemporâneo do naturalista britânico, já criticava as tentativas da época de confinar e diminuir a fé cristã a uma determinada visão apologética: no caso específico, a então “teologia física” construída pelo religioso William Paley para explicar a adaptação das espécies ao meio ambiente.

Ainda de acordo com Alister McGrath, mesmo o fundamentalismo norte-americano, em seus primórdios, no início do século passado, aceitava a Teoria da Evolução de Darwin. James Orr, um dos autores fundamentalistas, chegou então a escrever que a “evolução viria a ser reconhecida como apenas um novo nome para criação, só que com o poder criador operando de dentro, e não, como na antiga concepção, de uma forma externa e plástica”. Perspectiva semelhante à de muitos pensadores evangélicos contemporâneos, como John Stott, que apesar de não se alinhar com o liberalismo teológico, não tem dificuldades com a Teoria da Evolução. Em seu livro Entenda a Bíblia, Stott diz que “é uma infelicidade que alguns que debatem essa questão comecem por pressupor que as palavras ‘criação’ e ‘evolução’ são mutuamente exclusivas”, para depois afirmar também que “não parece haver nenhuma razão bíblica para negar que alguma espécie de desenvolvimento evolutivo, servindo a um propósito, possa ter sido o recurso empregado por Deus na Criação”. Entre os teólogos católicos, o evolucionismo tem sido largamente acolhido, e já é oficialmente aceito pelos papas. Bento XVI afirmou que o debate entre o criacionismo e o evolucionismo é “um absurdo”, já que a concepção da evolução pode, no seu entender, coexistir com a fé.

Da mesma forma, cientistas respeitados, apesar de trabalharem com a teoria evolucionista – que ao longo do tempo se tornou muito mais complexa e hoje abrange diversos campos do conhecimento –, afirmam sua fé cristã sem qualquer medo ou constrangimento. É o caso do biólogo norte-americano Francis Collins, chefe do Projeto Genoma, empenhado em mapear o conjunto de genes da humanidade. Ele anunciou sua conversão ao Cristianismo, mas defende as descobertas modernas da biologia molecular, alicerçadas na Teoria da Evolução. Outro cientista, Kenneth R. Miller, professor de biologia da Universidade de Brown, nos EUA, também tem publicado livros afirmando que não vê confronto entre o evolucionismo e a Bíblia.

Coisa rara no momento em que cresce o clima de antagonismo entre Ciência e Religião, atiçado especialmente pela pregação ateísta do biólogo inglês Richard Dawkins, que combate a fé com a gana de um cruzado medieval rumo a Jerusalém. Na Inglaterra, o clima de caça às bruxas vitimou Michael Reiss, sacerdote da Igreja Anglicana – onde é larga a aceitação da Teoria da Evolução. Reiss teve que deixar a função de diretor de educação da Royal Society depois de defender a liberdade do ensino criacionista pelas escolas inglesas. Saiu sob uma saraivada de críticas.

Uma teoria contestada

Muito do criacionismo moderno, não exatamente o teológico, mas o científico, tem base nos escritos de Henri Morris (1918-2006), fundador do Creation Research Society e do Institute for Creation Research, instituição sediada no Texas (EUA). Ele questionava a idade do material fóssil encontrado. Suas teorias, no entanto, nunca foram aceitas pela comunidade científica internacional. Ainda nos anos 80, a Suprema Corte americana proibiu o ensino do criacionismo em escolas públicas.

Da mesma forma, o chamado design inteligente não recebeu o reconhecimento desejado. O termo, como é atualmente usado, surgiu com a publicação, em 1989, do livro Of pandas and people: The central question of biological origins (“Sobre pandas e pessoas: A questão central das origens biológicas”), de Percival Davis e Dean Kenyon. Muitas outras publicações e idéias apoiando o design inteligente surgiram desde então. Apesar de ter se popularizado rapidamente, a idéia de que a complexidade dos organismos vivos exigiria a existência de um design pré-existente não foi acolhida pela comunidade científica, por não ser passível de comprovação pelos métodos da ciência. Em 2005, a controvérsia foi para os tribunais. Pais de alunos e diversas associações defenderam o ensino da concepção nas escolas públicas como alternativa ao evolucionismo, mas foram derrotados.

Fonte: Cristianismo Hoje