A Suécia costuma ser vista pelo mundo como uma nação próspera e com plena harmonia social. Modelo de organização civil e de respeito ao cidadão, o país escandinavo é um dos primeiros no ranking mundial de desenvolvimento humano e sua população goza de invejável padrão de vida.

Por isso mesmo, nem sempre é fácil acreditar que alguém que viva num contexto de tamanha opulência tenha sensibilidade para o que ocorre em outros cantos mais pobres do mundo. Mas foi exatamente esse sentimento que fez com que o missionário sueco Erik Gunnar Eriksson criasse, em 1970, a Sociedade Educativa e Beneficente Star of Hope – expressão em inglês que significa Estrela da Esperança. Ele fez isso depois de conhecer uma das regiões mais miseráveis do Brasil, no interior de Minas Gerais. Compungido com as crianças do lugar, muitas abandonadas à própria sorte e quase sempre desnutridas e doentes, ele reuniu um grupo de voluntários em seu país e resolveu pôr as mãos à obra.

O resultado pode ser visto hoje. A Star of Hope é uma entidade que faz da solidariedade cristã sua bandeira de atuação em nações pobres como Quênia, Haiti e Gana, e atualmente presta assistência para mais de 50 mil crianças distribuídas em 18 países. Durante a Guerra do Iraque, foi a única organização não-governamental vinculada à infância que permaneceu em campo de batalha, levando assistência também às famílias vitimadas. “Desde o início de sua atuação, a Star of Hope vem apresentando um crescimento exponencial”, diz o médico e pastor Tomas Söderberg, presidente do Conselho Deliberativo da instituição. “Trata-se de uma entidade norteada por princípios cristãos cujo objetivo é oferecer às crianças carentes um bom começo de vida”, explica. Filho do casal sueco Carl Axel Rune Söderberg e Sif Ingrid Lindström, fundadores da Igreja Filadélfia, Tomas é também dirigente do Ministério 100% Vida, com sede na cidade de São Vicente, litoral de São Paulo. O trabalho desenvolvido pela entidade é regido de acordo com três programas, dependendo da faixa etária das crianças assistidas, e é o que se pode chamar de atendimento multidisciplinar: creches para crianças de 0 a 6 anos; avaliação nutricional e vocacional; unidade móvel provida de equipamentos similares às UTI´s convencionais; e implantação e gerência de escolinhas de futebol para meninos até 14 anos.

“Por conseguir agregar e gerenciar voluntários, aproveitando da melhor forma possível o potencial de cada um, o custo de uma unidade desenvolvida pela Star of Hope acaba sendo muito menor do que as unidades municipais”, compara o pastor Tomas. Mas, como toda associação filantrópica, para manter e levar adiante seus propósitos sociais e evangelísticos a Star of Hope também conta com a colaboração de empresas nacionais e estrangeiras, além de doações individuais e de atividades em concomitância com o poder público municipal e estadual. Associando-se à entidade, o doador torna-se padrinho – fadder, em sueco – de uma das milhares de crianças atendidas pela organização. “Todos os serviços são oferecidos gratuitamente aos menores assistidos pela Star of Hope e, via de regra, o processo de seleção é realizado pelos serviços públicos municipais”, ressalta Tomas Söderberg. “E, pelos valores que norteiam a instituição, a qualidade do serviço apresentado é bastante elevado e diferenciado”, orgulha-se. Os números comprovam a eficácia da ação: em seus 14 projetos em atividade, quase 5 mil crianças carentes são atendidas diariamente, a maior parte delas diretamente nas creches.

Princípios cristãos

Parcerias como essas são uma das alternativas encontradas pelos órgãos públicos – que, na maioria das vezaes, não conseguem atender com tanta eficiência à grande demanda de necessitados – e as entidades sociais para viabilizar o trabalho junto a comunidades carentes. Embora não seja via de regra, essa receita vale também para a Star of Hope, e o mais recente fruto dessa parceria é o Centro de Educação Infantil (CEI) Erik Gunnar Eriksson, construído a quatro mãos com a Prefeitura de São Paulo e inaugurado no começo do ano no bairro de Vila Prudente, zona leste da capital paulista, cujo nome homenageia o pioneiro da obra. A creche, destinada a crianças de até três anos de idade, conta com berçário, refeitório, lactário, cozinha, banheiros, solário e salas de aulas, com diversas atividades. “É a primeira unidade desse tipo na cidade de São Paulo, mas vários municípios já estão em fase de estruturação para receber novos centros”, adianta o pastor. Entre os planos de expansão, está a Unidade de Referência Social de São Vicente, cuja obra já foi iniciada e que, no futuro, terá capacidade para atender mais de mil crianças.

Izoldi Sippert Vargas dos Santos, diretora do CEI, vê com bons olhos esse tipo de parceria: “Nós recebemos uma verba da Prefeitura de acordo com o número de crianças atendidas, só que esse valor nem sempre é suficiente para suprir todas as despesas”, comenta. “Assim, com doações vindas por meio da Star of Hope, conseguimos administrar melhor as nossas contas”. Em seus dois pavimentos, a creche atende atualmente 155 crianças oriundas de uma comunidade extremamente carente do bairro. Além de um trabalho pedagógico realizado em período integral, são oferecidos cursos de orientação para as mães, sem perder o foco de que, por trás do aspecto social, há também um comprometimento cristão. “Procuramos transmitir ao nosso público valores e princípios cristãos, inclusive por meio de palestras ministradas por pastores”, diz Izoldi, que é membro da Igreja Batista da Liberdade, também em São Paulo.

Apesar da orientação evangélica do trabalho da Star of Hope, não há qualquer tipo de restrição a famílias que professam outra fé ou que não sigam nenhum credo. “Pelo contrário, o único problema – no bom sentido – é que eles ficam nos cobrando pela visita de novos convidados”, brinca a diretora do CEI. Ela ainda afirma que muita coisa mudou em sua vida ao conciliar o trabalho entre as crianças com sua vida espiritual. “Passei a ter uma outra visão de mundo; depois de ver famílias tão mais carentes do que a minha. aprendi a compartilhar muito mais as coisas e valorizar o que sou e o que tenho”, conclui. Para ela e para as milhares de pessoas atendidas pela Star of Hope, a estrela da solidariedade está brilhando cada vez mais.

Fonte: Revista Eclésia edição 127