A possibilidade de uma solução dialogada para o conflito com os palestinos parece ainda mais remota que no governo anterior.

Os ministros que formam o novo Executivo de Israel, liderado por Benjamin Netanyahu, tomaram posse de seus cargos na segunda-feira (18), dando por inaugurada uma nova legislatura na qual a possibilidade de uma solução dialogada para o conflito com os palestinos parece ainda mais remota que no governo anterior. Sobretudo porque alguns dos cargos mais importantes nesse novo gabinete são ocupados por políticos que ou simpatizam com o movimento de expansão de assentamentos judeus na Cisjordânia ou são eles mesmos colonos.

O resultado fragmentado das eleições legislativas de janeiro obrigou Netanyahu, que se declarou vencedor com maioria simples, a pactuar com partidos moderados e a incluir políticos de centro em alguns cargos, como Finanças ou Justiça.

Entretanto, vista a composição final do Executivo, quem se declarou vencedora no novo governo, por seu peso nele, é a base de colonos judeus, cerca de 500 mil pessoas que vivem na Cisjordânia e na parte oriental de Jerusalém, no lado palestino da chamada Linha Verde, a fronteira estabelecida depois da guerra de 1967.

O partido que representa os interesses dos colonos, Habayit Hayehudi (Casa Judia), controla três ministérios, entre eles o da Construção e Habitação, no qual são propostos e financiados os novos assentamentos. Seu titular, Uri Ariel, ele mesmo um colono, disse no domingo que em seu novo governo “prosseguirá a construção além da Linha Verde, de acordo com a política do governo e na mesma ordem de magnitude”. “A construção na Judeia e Samária será mais ou menos a mesma que já havia”, acrescentou, empregando o nome bíblico da Cisjordânia, no Canal 10 de TV.

Essas declarações não agradaram à diplomacia americana, dada a proximidade da visita do presidente Barack Obama à região, que começa nesta quarta-feira (20). Tanto os EUA como o grosso da comunidade internacional, incluindo a ONU, consideram ilegais os assentamentos em território palestino. Em sua legislatura anterior, desde 2009, Netanyahu aprovou cerca de 6.900 moradias na Cisjordânia e em Jerusalém leste. No final do ano passado anunciou que construirá nos próximos anos mais 11 mil.

Quem dá a aprovação final para os assentamentos judeus em território palestino ou ordena o desmantelamento daqueles que o governo considera não autorizados é o Ministério da Defesa. Este é liderado desde segunda-feira por Moshe Yaalon, do partido Likud, extremamente impopular entre os colonos por defender a expansão dos assentamentos e a ideia de que não deveria existir um país palestino nas fronteiras hoje controladas por Israel.

No final de 2009, Netanyahu ordenou um congelamento de dez meses na construção de assentamentos na Cisjordânia para abrir caminho para um acordo de paz. Yaalon declarou-se em rebeldia. Em uma reunião com membros de seu partido, disse: “Creio que os judeus têm o direito de viver onde quiserem, para sempre, na terra de Israel”. E sobre a pressão que Obama havia exercido sobre Israel para esse congelamento, acrescentou: “Os americanos não me assustam. Há assuntos nos quais deveríamos dizer basta”. Netanyahu o chamou então à ordem.

Preocupa notadamente às autoridades palestinas o recente crescimento dos assentamentos em Jerusalém Oriental, já que consideram que persegue o objetivo de isolar a Cidade Velha, onde se reúnem lugares santos para muçulmanos, cristãos e judeus. São blocos de apartamentos em bairros árabes em torno do monte das Oliveiras, como Beit Orot, cujas 24 moradias estão em sua última fase de construção, ou Maale Hazeitim, onde residem cerca de cem famílias israelenses há nove anos, a poucos metros de um cemitério judeu de mais de 3.000 anos de antiguidade.

“As razões para viver aqui são claramente ideológicas. Este é um lugar sagrado e muito importante para os judeus”, dizia na segunda-feira Daniela Silber, 39 anos, moradora há dois em Maale Hazeitim. “E não é fácil viver aqui, é um ambiente muito hostil por causa dos palestinos. As mulheres e as crianças não podem ir caminhando para a Cidade Velha”, acrescentou.

Nos últimos meses, as autoridades israelenses também adiantaram os planos de construção de uma academia militar em zona ocupada no monte das Oliveiras. A poucos metros do solar onde será erguida, encontra-se a “yeshiva”, ou escola religiosa judia, de Beit Orot, onde estudam 120 jovens. “A Autoridade Palestina afirma que existe um plano de Israel para ‘judaizar’ a cidade”, afirma o diretor-executivo da escola, Shlomo Zwickler. “Mas o que eu creio é que os árabes fizeram um grande trabalho de ‘arabização’ nos últimos cem anos. Entre 1948 e 1967, quando esta zona estava sob controle da Jordânia, não permitiam que os judeus visitassem aqui os túmulos de nossos rabinos e profetas.”

As autoridades palestinas consideram que o crescimento desses assentamentos, e a composição do novo governo, deixam muito poucas oportunidades para a paz. “Nunca haverá paz entre palestinos e israelenses sem dois Estados com as fronteiras de 1967”, disse na quinta-feira em uma visita a novos assentamentos em Jerusalém o negociador palestino Saeb Erekat. “Os dois Estados com as fronteiras de 1967 são a única opção para israelenses e palestinos. E com esses projetos de assentamentos o governo de Israel destrói as possibilidades de paz”, acrescentou.

[b]Fonte: El Pais
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves[/b]