Culto
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Os evangélicos foram muito atuantes no rumo das eleições deste ano. Assim como em questões de interesse geral: ideologia de gênero, aborto e Escola sem Partido. De acordo com o Censo 2010, este nicho representa 22% da população.

Na sexta-feira (30), quando se comemorou o Dia do Evangélico, o site Pleno.News conversou com a jornalista e escritora Lamia Oualalou.

Autora do livro Jésus T’aime, La Déferlante Évangélique (Jesus te Ama, a Onda Evangélica, em tradução livre), Lamia fez uma análise do perfil dos evangélicos no Brasil. Com dupla nacionalidade – franco-marroquina e brasileira – ela morou dez anos no Rio de Janeiro e agora vive no Novo México. Na entrevista, a escritora fala sobre o fenômeno visto no cenário político e sobre a atuação das igrejas evangélicas em locais, muitas vezes, esquecidos pelo poder público.

Qual o perfil do evangélico nos dias de hoje?
Os evangélicos representavam 22% da população no último Censo. Pesquisas do Datafolha mostram que estamos perto de 30% e os católicos caíram para os 54%. Tem evangélicos em todo o Brasil e em todas as camada sociais. Mas, basicamente, você pode dizer que os evangélicos cresceram muito em novas terras. Seja nas periferias e nas grandes cidades ou no Centro-Oeste e na Amazônia. Basicamente, nas últimas décadas, os evangélicos são pessoas que migraram do Nordeste e chegaram às periferias de grandes cidades. Os espaços onde moram não têm a atuação do Estado e as igrejas acabam ocupando essa função. São pessoas com nível de educação não muito alto, trabalham duro e a igreja acaba sendo o lugar que fornece apoio e ainda vira um espaço do lazer. Uma mulher na Baixada Fluminense, por exemplo, volta do trabalho e não tem nada para fazer e o único lugar onde ela pode socializar de maneira segura é a igreja evangélica.

Em seu livro Jésus T’aime, La Déferlante Évangélique, você sugere que a disseminação do evangelismo é uma forma de resposta ao desengajamento do Estado. Como avalia essa situação?
As igrejas evangélicas cresceram por causa da desigualdade enorme desse país e a incapacidade do Estado em ser presente nas comunidades carentes. Quando presente, é só de maneira violenta e sem oferecer saúde e educação. O brasileiro encara a vida, mas a vida é muito difícil. Na igreja, ele encontra alguém que o ajuda e lhe dá um papel na sociedade. Para as mulheres, isso é uma coisa muito importante já que, nessas comunidades carentes, muitas delas são chefes de família. A igreja evangélica acaba dando uma identidade e as pessoas se identificam como brasileiras e também como cristãs. Acredito que vai ser difícil lidar com todos esses elementos do ponto de vista político nos próximos anos.

E como enxerga a moda que surgiu com a conversão dos famosos?
Isso foi uma coisa que a mídia deu muito espaço. Se trata cada vez menos de conversão e tem uma parte de pessoas fazendo esse circo por ter muito espaço na mídia. De fato, os evangélicos dão mais espaço para algum tipo de redenção na vida e isso funciona para, por exemplo, o jogador de futebol que bebia demais, a cantora que ia para a balada e para o narcotraficante. De repente, essa pessoa decide que encontrou Jesus, se converte, é aceita pela igreja e a igreja a usa como exemplo.

Como você explica o fenômeno dos desigrejados, uma crescente no meio evangélico?
Esse é um fenômeno importante e muitos especialistas esperam pelo próximo Censo para saber o que vai acontecer. Porque temos cada vez mais evangélicos, mas também temos os que saem das grandes igrejas. Uma parte se deve às pessoas que se cansaram do show do dinheiro e dessa competição que existe nas grandes igrejas e que acaba causando uma cisão. E tem um pouco do que aconteceu com a Igreja Católica: pessoas que se identificam como evangélicas, mas não se identificam com nenhuma denominação.

Acredita que as igrejas estão saindo um pouco do seu próprio “universo particular” e focando mais em questões da sociedade, como aborto e ideologia de gênero?
Há um processo conservador não só dos evangélicos, mas, se você ver no Congresso, os deputados católicos são parecidos nesse ponto de vista. Os evangélicos têm um papel importante na discussão de elementos como ideologia de gênero, aborto e Escola sem Partido. Isso vai ter um peso muito grande no mandato do atual presidente. O país e o mundo estão nessa onda e o evangélico vai ter um papel cada vez mais importante. As igrejas vão mais para o lado da Direita já que, para a Esquerda, o evangélico é careta por defender a família.

Como avalia a atuação da igreja neste ano no âmbito político com lideranças influenciando até mesmo a eleição do novo presidente?
Primeiro, temos que lembrar que a Igreja Católica sempre teve um papel político no Brasil. Mas não era algo percebido como “problemático”, diferente dos evangélicos com 1/5 do Congresso. O papel político existe em muitos níveis. O que aconteceu vai além disso porque não se pensava no impacto dos evangélicos em cargos executivos. Os evangélicos souberam como ninguém usar os aparatos e a estratégia da mídia. Os evangélicos viviam num mundo à parte quando as lideranças começaram a dizer em quem votar. Os partidos da Esquerda, sobretudo o PT, não prestaram muito atenção na expansão dos evangélicos e na importância do fenômeno. Bolsonaro continua a crescer, casou com uma evangélica, continua a ir às igrejas e se tornou o porta-voz dos evangélicos nessa eleição.

Fonte: Pleno News