Última tendência entre cristãos conservadores são “bailes da pureza”, em que jovens juram manter a virgindade. Recursos para programa de incentivo à castidade aumentaram 18% em 2007; ajuda a grupos religiosos é questionada na Justiça.

Lá estão as meninas nos seus vestidos de princesa, com direito a arranjo no cabelo e luvas três-quartos. Elas não conseguem disfarçar a ansiedade. Chega a hora da valsa com os pais, e em torno da pista de dança se colocam os outros membros da família, em traje de gala, emocionados.

Tudo muito parecido com um festa de debutantes de antigamente, não fosse um detalhe: no centro do salão, há uma grande cruz de madeira. Aos pés dela, uma a uma, em fila, as garotas lançam rosas brancas -e, nesse momento, prometem a Deus manterem-se virgens até o casamento.

Em troca, os pais, diante dos convidados, também assumem o compromisso de levar uma vida íntegra e honesta em todos os sentidos -especialmente no que diz respeito ao seu relacionamento com as mulheres.

A cerimônia, chamada “baile da pureza”, virou moda entre os cristãos conservadores dos EUA. Foi criada em 1998 pelo ministério religioso Generations of Light (Gerações de Luz); estima-se que, em 2006, tenham sido realizados cerca de 1.500 rituais do tipo em 48 Estados do país.

Pressão sexual

“Percebemos que as garotas atualmente se sentem pressionadas demais em relação à atividade sexual, o que leva à depressão e também está na raiz de tentativas de suicídio”, diz Randy Wilson, fundador do ministério. “No nosso entendimento, fortalecer o vínculo entre pai e filha ajuda a definir a identidade das meninas, para que elas saibam o seu valor e sejam respeitadas. Ademais, devemos fazer o que for necessário para apoiar a família, base da sociedade.”

Wilson vive com a mulher, Linda, e sete filhos -três mulheres e quatro homens- em Colorado Springs, Estado do Colorado. Para os interessados em organizar uma celebração como essa, a Generations of Light vende pela internet, por US$ 90, um kit com todas as informações necessárias.

Mas o “baile da pureza” representa apenas uma das faces do movimento pró-abstinência sexual nos EUA. Além de grupos religiosos, dos quais o True Love Waits (O Amor Verdadeiro Espera) e o Silver Ring Thing (Anel de Prata) são outros exemplos, também defendem essa causa organizações laicas como a Pure Love Alliance (Aliança do Amor Puro).

“Deixar para fazer sexo depois do casamento, em uma cultura que prega o contrário, significa a verdadeira liberdade. Eis aí a nossa mensagem”, afirma Leslee Unruh, diretora da Abstinence Clearinghouse (Câmara pela Abstinência). Mesmo quem já perdeu a virgindade pode se arrepender e decidir só voltar a ter relações após o matrimônio, diz ela.

E como convencer os jovens de que esse é o melhor jeito para eles viverem a sua sexualidade? “Bem, dizendo que, dessa maneira, evita-se a decepção, traumas emocionais difíceis de serem superados posteriormente e ainda a gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis, conta Leslee.

Faz parte da estratégia frisar que a camisinha tem um índice de falha e mostrar, em palestras e panfletos, fotos de lesões cutâneas causadas por DSTs.

Assim, do terreno da fé passa-se ao do planejamento familiar e ao da saúde pública.

Escritório na Casa Branca

O governo de George W. Bush tem sido bastante criticado por privilegiar, na destinação de recursos públicos, as iniciativas que partem de grupos religiosos. Um processo em tramitação na Suprema Corte denuncia que, ao privilegiar grupos religiosos na distribuição de verbas, o governo está acabando com a separação entre Igreja e Estado.

“Se você é viciado em álcool e um programa religioso pode ajudá-lo a parar, devemos dizer aleluia e agradecer em nível federal”, disse Bush um ano atrás, ao defender mais fundos para as entidades do gênero -o que agrada em cheio a nova direita americana, sua principal base eleitoral.

A Casa Branca de Bush mantém um Escritório de Iniciativas Baseadas na Fé e Comunitárias para tratar dos projetos, para os quais foram reservados US$ 323 milhões em 2007, montante 37% superior ao do ano passado. Há escritórios semelhantes em departamentos (ministérios) como o da Educação e o da Saúde.

A campanha pela abstinência sexual está entre as prioridades de Bush e, por isso, tem orçamento próprio: US$ 191 milhões neste ano, contra US$ 163 milhões em 2006.

“Como Deus deseja”

Em janeiro deste ano, o contador Oscar Kornblat, que mora em Colorado Springs, participou do “baile da pureza” com sua filha mais velha, Hannah, 15 anos. Ele queria enfatizar o ideal de manter coração e mente limpos, “como Deus deseja”.

“E tem um outro motivo. Minhas duas filhas são adotadas. Suas mães as tiveram solteiras, com 17 anos, e elas por sua vez também eram filhas de mães solteiras. Isso vai parar nesta geração”, enuncia, firme.

Evangélicos têm motivação financeira e pragmática, diz especialista

Mark Regnerus é professor assistente de sociologia na Universidade do Texas e pesquisador do Núcleo Nacional de Estudos de Juventude e Religião, vinculado à Universidade da Carolina do Norte. Ele acabou de lançar o livro “Forbidden Fruit – Sex & Religion in the Lives of American Teenagers” [fruto proibido – sexo e religião nas vidas dos adolescentes americanos], no qual também analisa o apelo pela abstinência sexual que se faz aos jovens dos EUA atualmente.

No livro, ele apresenta estatísticas que relacionam a opção religiosa com a sexualidade dos adolescentes. Entre os evangélicos, 73,7% dizem que apóiam a idéia de esperar o casamento para ter relações; entre os fiéis de denominações protestantes tradicionais, o percentual é de 51,9%; entre os católicos, 51,2%. Judeus apresentam a menor porcentagem: 27%. Leia trechos da entrevista de Regnerus à Folha.

Por que os “bailes da pureza” têm apelo para certo público nos EUA?

Não vamos dizer que essa história está tomando conta da nação, isso não está acontecendo. Na verdade, eu vejo os bailes da pureza como uma extensão da campanha pela abstinência sexual, que faz parte da política doméstica do presidente Bush. Eles são dirigidos a um nicho de mercado muito restrito -suspeito que tenham mais apelo entre os evangélicos. Colorado Springs, onde eles começaram, justamente concentra evangélicos. O que eu vejo é um movimento geral de retrocesso [cultural], que prega contra a sexualização dos jovens.
Quem está desse lado quer dizer que está combatendo os valores alardeados por Hollywood e pela [revista] “Cosmopolitan”. Com os bailes, estão chamando a atenção das meninas. Aliás, a celebração pede o comprometimento dos pais também, ou seja, eles mostram para elas como vão tratar as suas mães porque esse é o modelo que elas devem buscar para si no futuro. É um símbolo do que a família quer que aconteça.

Mas, por trás dos religiosos, também há os objetivos práticos de evitar gravidez precoce e doenças…

Os evangélicos sempre foram muito pragmáticos. O movimento pró-abstinência é muito pragmático. Ele tenta abraçar esse ideal de os adolescentes e adultos “se guardarem” para o casamento ao mesmo tempo em que busca evitar tais problemas. Outros grupos usam argumentos diferentes. Morais, por exemplo, de dizer que o melhor é ir para a faculdade primeiro e adiar ao máximo o matrimônio.

Qual foi o papel do governo Bush nessa campanha?

Todas as organizações que participam recebem dinheiro do governo. A atual administração manda recursos para as escolas públicas que ensinem educação sexual do jeito que o presidente quer, com foco na abstinência. Não é que o governo tire dinheiro das escolas que não o fazem, mas estas não vão receber -e as escolas sempre precisam de fundos. O grupos religiosos, da mesma forma, também estão sempre buscando recursos. Como falei, eles são pragmáticos, então usam táticas pragmáticas para obtê-los.

Fonte: Estadão