Elissa Wall narra a sua vida na seita poligâmica conhecida como Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e revela como denunciou o seu líder à Justiça por tê-la forçado a se casar aos 14 anos de idade com um primo tornando-se sua prisioneira e vítima de abusos sexuais e de agressões físicas que provocaram dois abortos.

Nascida e criada numa seita religiosa no Estado americano de Utah, Elissa Wall foi educada dentro dos preceitos da chamada Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (uma dissidência dos mórmons tradicionais), que prega a vida em famílias poligâmicas, ou seja, os pais têm o dever de se casarem muitas vezes – quanto mais esposas eles tiverem, mais abençoados serão pela justiça divina.

E as mulheres são criadas para o casamento, único caminho para a proclamada “salvação eterna”. Como a poligamia é um costume proibido pelas leis americanas, a seita exercia um controle rigoroso sobre os seus membros, já que qualquer ovelha desgarrada poderia ir à polícia e denunciar a comunidade. Foi o que acabou ocorrendo com muitos jovens criados sob os rígidos desígnios da seita.

Entre eles, Elissa, cuja triste história é contada agora no livro Inocência roubada (Ediouro, 448 págs., R$ 54,90), de sua autoria em parceria com a escritora Lisa Pulitzer. Ainda criança, ela foi ensinada a ser obediente, não se aproximar de pessoas estranhas à igreja (porque são “im pu ras e más”), ter respeito ao futuro marido e jamais questionar os ensinamentos de sua religião.

Adolescente, ela desobedeceu a cada um desses imperativos e ganhou fama mundial em 2007 ao se tornar testemunha-chave de um processo contra a seita que levou o seu líder e ideólogo, Warren Jeffs, a ser condenado a dez anos de prisão, acusado de abuso de menores e cumplicidade em casos de estupro.

A participação de Elissa foi crucial para a prisão e o julgamento de Jeffs, que já era nessa época um dos dez homens mais procurados pelo FBI. O sombrio depoimento da jovem, então com 21 anos, revelou ao mundo a realidade daqueles dez mil membros dessa dissidência mórmon, os quais formavam imensas famílias e moravam enclausurados numa região afastada entre os Estados de Utah e do Arizona.

Em seu livro, Elissa revela como foi obrigada a se casar aos 14 anos de idade com o seu primo em primeiro grau Allen, de 19 anos, tornando-se sua prisioneira e vítima de abusos sexuais e de agressões físicas que provocaram dois abortos. Ela descreve o seu frustrante casamento com Allen, celebrado clandestinamente pelo líder máximo da seita, num motel de estrada numa região erma no Arizona. Narra com riqueza de detalhes os costumes adotados por essa comunidade fechada que sobrevive há gerações à margem das leis dos Estados de Utah e do Arizona. Hoje Elissa tem dois filhos e está casada com um ex-membro da mesma igreja.

A sua mãe biológica, Sharon, também nascida e criada na comunidade, permanece fiel à seita e desaprovou a atitude da filha – ambas não se veem desde o julgamento em 2007.

Fonte: Revista Isto É