O padre português, António Escudeiro, está tirando todas as imagens de Cristo crucificado das igrejas e capelas da sua paróquia e substituindo por imagens de um Cristo ressuscitado. Uma revolução que não é vista com bons olhos por boa parte dos paroquianos

A eucaristia da Páscoa, no domingo, decorreu normalmente na capela de Curvaceiras, Tomar, em Portugal, mas assim que o padre da paróquia saiu o rebuliço foi total, com mais de uma dezena de paroquianos a dirigir-se de imediato para a zona da sacristia onde, junto à casa de banho, o padre António Escudeiro tinha mandado colocar a imagem de Cristo crucificado. “Isto é uma heresia”, dizia uma paroquiana, inconformada com o “desrespeito” demonstrado pelo pároco. Alguns católicos viraram-se contra os membros da comissão da Igreja, afirmando que eles só faziam o que o padre mandava, sem consultar o povo.

O Cristo crucificado tinha sido retirado da parede por trás do altar, onde sempre esteve, dando lugar a uma imagem, em tamanho real, de um Cristo ressuscitado, de braços abertos e sem a tradicional cruz. A posição do pároco é publicamente conhecida – António Escudeiro diz que Cristo só esteve três dias crucificado e por isso não faz sentido manter nas igrejas a sua imagem na cruz. Uma opinião partilhada por alguns – como os membros da comissão, que acreditam que a Igreja deve evoluir – mas contestada por outros paroquianos. “Sempre se viu Cristo com a cruz, não é agora este padre que vai mudar a tradição. Não se vê nenhuma Igreja que não tenha um Cristo crucificado”, critica Maria da Conceição Andrade.

Francisco Vicente até concorda com o Cristo Ressuscitado em lugar de destaque mas quer que a antiga imagem esteja também junto ao altar. “Tenho a certeza que os membros da comissão fizeram isto contrariados, obrigados pelo padre”.

O pároco de Paialvo diz não obrigar ninguém a fazer nada mas “já era tempo” de as pessoas terem consciência que a imagem do Cristo crucificado é, nesta época, “uma aberração”. “Há mais de dois mil anos que Cristo está vivo, sentado à direita do Pai. Continuar a apresentar Cristo morto na cruz é de pessoas que não sabem o que andam a dizer nem a fazer”.

António Escudeiro diz “embirrar” com a imagem de Cristo na cruz mas admite que essa é uma opinião muito pessoal, apesar de considerar que toda a Igreja devia segui-la. “Não sou o primeiro a fazer isto, até em Fátima, no meio do santuário, há um Cristo ressuscitado”.

Afirmando “não ser vanguardista” o pároco de Paialvo salienta a necessidade de os seus colegas evoluírem. “A doutrina católica é sempre a mesma, o modo como a vivemos é que tem de ser alterado”.

Apesar de concordarem com a substituição da imagem, os membros da comissão da igreja também não gostaram de ver o Cristo crucificado “escondido” na Sacristia. “Nós pedimos-lhe para o deixar aqui, ao lado do altar, mas ele teimou que a imagem iria lá para trás, o que podíamos fazer?”

Por causa do descontentamento dos paroquianos com a situação, a comissão pondera organizar uma reunião com o pároco para que ele coloque a antiga imagem no altar, vísivel aos fiéis. “Não acho justo o padre tratar a anterior imagem como lixo, mandando-a lá para trás, para junto da casa de banho”, diz o sacristão Manuel Luís, adiantando que as duas imagens deviam estar juntas, representando a morte e ressurreição de Cristo. O padre não é da mesma opinião – “Só me interessa ter um Cristo Crucificado no altar na altura da Quaresma, o resto do ano Ele vai ficar guardado”.

A imagem do Cristo ressuscitado colocada agora na capela de Curvaceiras custou quatro mil euros, tendo sido comprada com dinheiro das esmolas dos paroquianos e com alguma verba dada por alguns membros da comissão. A intenção do pároco é comprar uma imagem de Cristo ressuscitado para todas as capelas da paróquia.

Fonte: O Mirante – Portugal