As autoridades foram criticadas por seus métodos contra as manifestações em junho e nas proximidades dos pontos visitados pelo papa.

A missa acabou, o papa pode voltar para casa satisfeito com sua semana no Brasil. Apesar da chuva e do frio, quase 1 milhão de pessoas vieram aclamá-lo durante sua cerimônia de recepção, número que foi duas vezes maior no domingo (28), em sua última bênção. Francisco convidou o clero a descer de sua torre de marfim, remetendo à imagem de um papa próximo dos fiéis.

Para as elites brasileiras, ele lançou um apelo ao diálogo, à humildade e à responsabilidade. Palavras que soam como críticas a uma elite dirigente que se mostrou incapaz de entender a revolta popular de junho, cuja repercussão ainda está se fazendo sentir.

Acima de tudo, a visita papal lançou uma luz inclemente sobre a incompetência de certos dirigentes políticos e organizadores locais. Os seguidos contratempos provocaram certa preocupação entre a opinião pública quanto à capacidade do país de organizar de maneira transparente e eficaz os próximos eventos de grande porte, que são a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em 2016.

O primeiro problema ocorreu logo na descida do avião do papa, na segunda-feira (22). O Fiat branco escolhido por Francisco acabou preso nos engarrafamentos antes de ser cercado, de janelas abertas, pela multidão, após um erro no caminho.

No dia seguinte, o metrô sofreu uma pane, jogando centenas de milhares de jovens nas ruas, a quilômetros de distância da missa prevista para ser realizada em Copacabana.

Métodos truculentos
As autoridades também foram alvo de críticas por seus métodos truculentos e rocambolescos, dignos de agentes secretos, contra as manifestações organizadas nas proximidades dos pontos visitados pelo papa.

Dois dias após a divulgação de vídeos que mostravam agentes infiltrados tirando a camiseta antes de se juntar às unidades da polícia militar, as autoridades acabaram reconhecendo terem recorrido a tais procedimentos, ao mesmo tempo em que negavam o envolvimento de seus membros nas ações violentas. Mas imagens que podem ser acessadas na internet apresentam semelhanças entre um lançador de coquetel Molotov e um policial infiltrado.

Mais estranho ainda foi o caso de um casal detido durante uma manifestação contra o governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, um dos principais alvos das manifestações das últimas semanas. Na quinta-feira, a imprensa revelou que ambos eram funcionários da Abin (Agência Brasileira de Inteligência). A mulher, Carla Hirt, teria jogado pedras contra vitrines. Em uma entrevista ao jornal “Folha de São Paulo”, o marido, Igor Matela, chegou a alegar que estava na rua não para se infiltrar entre os manifestantes, mas sim por seu “engajamento político” pessoal…

Igualmente grande foi a confusão em torno do anúncio tardio da transferência da vigília e da missa dominical para a praia de Copacabana. O enorme campo de Guaratiba, situado a 50 quilômetros do Rio, recebeu grandes investimentos, mas ficou inutilizável após as chuvas. Dados pluviométricos do local, no entanto, apontavam claramente os riscos que esse terreno corria, conhecido por ser inundável.

Foi mais um erro, somado a uma obscura história sobre a escolha inicial do local. Um dos donos do terreno é um dos grandes empresários do setor de transporte da cidade. O espaço, cedido gratuitamente aos organizadores da JMJ, deveria receber em troca obras de drenagem efetuadas pela prefeitura. A venda de 120 lotes de moradia chegou a ser anunciada para 2014.

Uma pesquisa recente acusou 12% de opiniões favoráveis ao governador Cabral. Membro do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro, centro-direita), peso-pesado da maioria presidencial, ele registra o pior desempenho entre os governadores do país.

Como efeito colateral e revelador do mal-estar da população em relação a seus governantes, a presidente Dilma Rousseff tem no Rio somente 19% de aprovação. O prefeito, Eduardo Paes, ele mesmo do PMDB, deu a si mesmo uma nota “mais perto de zero do que de dez”. Com razão.

[b]Fonte: Le Monde
Tradutor: UOL[/b]