O papa Bento 16 enviou um apelo por escrito para a maior autoridade do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, para que ele fizesse o possível para libertar os 15 militares britânicos detidos por Teerã durante a crise que durou 13 dias entre o governo iraniano e o Reino Unido, segundo informações divulgadas pela mídia britânica.

Os militares, que foram libertados na última quarta-feira (4), afirmaram que foram submetidos a maus-tratos e pressão psicológica durante a detenção.

A informação sobre o apelo do papa foi confirmada pelo Vaticano, que afirmou que foi enviada uma carta ao Irã. Não foram oferecidos detalhes sobre a correspondência. A influência do apelo a Khamenei para libertação do grupo, que surpreendeu os britânicos ao ser realizada sem negociações entre os dois países, ainda não está clara.

Segundo o jornal britânico “The Guardian”, horas antes da libertação o papa pediu a Khamenei para “fazer todo o possível para garantir que os militares britânicos possam se reunir com suas famílias na Páscoa”. “Seria um gesto religioso significativo da boa vontade do povo iraniano”, teria dito o papa na carta segundo o “Guardian”.

Neste sábado, os militares britânicos receberam uma licença do trabalho.

Ameaça de guerra

O “Guardian” também revelou neste sábado que os Estados Unidos ofereceram ao Reino Unido ajuda militar para libertar os 15 militares britânicos.

O jornal britânico cita fontes diplomáticas para dizer que, nos primeiros dias da crise, quando Londres não dispunha de informações sobre o paradeiro dos marinheiros e fuzileiros navais detidos pelo Irã no golfo Pérsico, o Pentágono sugeriu uma lista de opções de ação militar ao governo britânico. Entre as opções estão algumas que continuam em segredo dado o risco de guerra entre os EUA e o Irã.

Uma das possibilidades estudadas consistia no envio de aviões de combate americanos para realizar “patrulhas agressivas” sobre bases da Guarda Revolucionária do Irã, corpo militar de elite que realizou a detenção dos 15 britânicos em 23 de março último.

Segundo o “Guardian”, o governo do Reino Unido recusou a oferta e pediu aos EUA que se mantivessem à margem do conflito para não “complicar o problema”. A detenção levou ao corte de relações diplomáticas entre Reino Unido e Irã no auge da crise.

Londres também teria pedido aos americanos que baixassem o “tom” de suas operações no golfo Pérsico, já que três dias antes da detenção um segundo porta-aviões americano chegou à região. Em resposta ao pedido, a força naval dos EUA na região, que pretende intimidar o Irã devido ao polêmico programa militar iraniano suavizou seus exercícios militares.

A gravidade da questão, segundo o “Guardian”, se reflete na fala de uma fonte próxima da Guarda Revolucionária iraniana citada no jornal: “Se isso [a crise] tivesse acontecido entre soldados iranianos e americanos, poderia ter sido o início de uma guerra”.

Pressão psicológica

O grupo de 15 militares britânicos detidos pelo Irã declarou ontem ter tomado uma “decisão consciente” de obedecer aos iranianos no momento da captura e disse ter passado por intensa pressão psicológica durante os 13 dias de detenção no país persa.

As afirmações foram feitas por membros do grupo nesta sexta-feira no Reino Unido, durante a primeira entrevista coletiva dada após a libertação. O Irã condenou imediatamente as declarações e afirmou que a entrevista foi armada para “acobertar os erros” dos militares.

“Estes atos armados não podem encobrir o erro cometido pelos militares britânicos, que entraram ilegalmente no território iraniano”, informou o Ministério das Relações Exteriores do Irã em um comunicado.

“Essa propaganda teatral não pode justificar os erros dos soldados”, acrescenta o texto. “Sentimos muito pelo fato de os britânicos desconhecerem a cultura islâmica e a civilização iraniana a ponto de não entenderem a razão do perdão do Irã aos soldados.”

Na entrevista, os britânicos tentaram justificar a aparente cooperação com os iranianos durante a detenção, alvo de críticas no Reino Unido. “Percebemos que a resistência ocasionaria uma grande luta, e que não poderíamos vencer. Decidimos conscientemente obedecer aos iranianos”, afirmou o capitão da Marinha Real britânica Christopher Air. Um dos detidos, Air disse que os iranianos os submeteram a “jogos psicológicos”.

Os 15 marinheiros e fuzileiros navais chegaram ao Reino Unido na manhã de quinta-feira (5), se reuniram com familiares e foram interrogados por autoridades da Marinha em uma base no sudoeste da Inglaterra.

“Agora ficou claro para nós que eles chegaram com um plano em mente. Alguns dos marinheiros iranianos foram deliberadamente agressivos e instáveis. Dialogar era nossa única opção. Fizemos o que foi possível, mas nossas palavras caíram em ouvidos surdos. Eles tinham um propósito claro e nunca sairiam sem nos levar”, disse Air.

Localização disputada

Já o tenente da Marinha Real britânica Felix Carman, outro dos presentes, leu um comunicado reafirmando que o grupo estava em “águas iraquianas internacionalmente reconhecidas” no momento da detenção. A localização dos britânicos no momento da captura é alvo de disputa entre o Irã e o Reino Unido –enquanto os iranianos denunciaram a suposta invasão ilegal de suas águas territoriais, Londres negou a violação durante toda a crise.

Carman disse que a embarcação britânica estava a 1,7 milhas náuticas das águas iranianas. A informação contrasta com as confissões gravadas em vídeo que os britânicos ofereceram aos iranianos durante a prisão –o que foi explicado pelo grupo pela pressão psicológica a que foram submetidos. Os iranianos também teriam ameaçado o grupo com sete anos de prisão a não ser que eles confessassem a invasão.

O marinheiro Arthur Batchelor, outro membro do grupo presente na entrevista, afirmou que o tratamento a que foram submetidos no Irã foi “humano”, mas que eles foram impedidos de se comunicarem uns com os outros.

Os militares disseram que a única mulher entre os detidos, Faye Turney, foi mantida separada dos outros por vários dias e informada que os demais haviam sido liberados.

Eles afirmaram ainda que todos foram vendados, algemados e obrigados a dormir em pequenas celas.

A descrição dada pelos marinheiros e fuzileiros navais contrasta também com as imagens divulgadas pelo Irã, nas quais eles aparecem sorrindo, comendo e até jogando xadrez. O grupo classificou as fotos e vídeos divulgados de “golpe de mídia” do governo iraniano.

Atividades suspensas

Após o fim do impasse de 13 dias, o Reino Unido anunciou nesta sexta-feira a suspensão de todas as operações e patrulhamentos no golfo Pérsico.

O chefe de pessoal da Marinha britânica, almirante Jonathon Band, afirmou ontem que as operações no golfo estão suspensas até que seja esclarecido o episódio da captura dos 15 marinheiros e fuzileiros navais pelo Irã. “No momento estamos com as operações e patrulhamentos suspensos. Obviamente faremos uma revisão completa”, disse.

Band, no entanto, defendeu o comportamento dos militares e afirmou que a cooperação foi obtida sob “certa quantidade de pressão psicológica”. “Eles se comportaram bem e não colocaram ninguém em perigo. O grupo agiu com dignidade considerável e muita coragem”, afirmou.

Primeiras palavras

Em um comunicado divulgado várias horas após seu retorno, os 15 militares disseram que sua chegada a Heathrow foi “um sonho tornado realidade” e que eles não se esqueceriam da recepção que tiveram.

“As últimas duas semanas foram muito difíceis, mas permanecendo juntos como um time nós pudemos nos manter confiantes”, disse o grupo no comunicado, que foi lido por um porta-voz da Marinha.

O Reino Unido continua mantendo a versão de que os militares estavam realizando operações de rotina em águas iraquianas quando foram detidos pelo Irã. Na última quinta-feira foi divulgado pelo canal de TV Sky News que o grupo britânico estava no golfo Pérsico realizando operações de espionagem, o que não foi confirmado oficialmente até agora.

A Sky News afirma ter entrevistado o capitão Chris Air, responsável pelos 15 militares, no dia 13 de março. Segundo o canal, a entrevista não foi levada ao ar para não pôr em perigo a segurança do grupo, detido dez dias depois.

“Basicamente, falamos com a tripulação [dos navios inspecionados], averiguamos se há problemas, afirmamos que estamos aqui para protegê-los, para evitar o terrorismo e a pirataria na região”, teria dito Air sobre as operações no golfo.

“Em segundo lugar, tenta-se obter informação de inteligência: se eles [os navios inspecionados] dispõem de informação, já que passam dias aqui, para poder compartilhá-la conosco”, acrescentou.

O secretário de Defesa britânico, Des Browne, afirmou que a tripulação fragata HMS Cornwall, da qual fazia parte o grupo, agiu corretamente ao tentar se inteirar de tudo que acontecia na área. “O mandato da ONU concedeu claramente poderes aos efetivos que faziam parte da força para reunir informações sobre a zona em que estavam se movendo”, afirma Browne à Sky News.

Anistia

O grupo recebeu uma surpreendente “anistia” do presidente iraniano em uma cerimônia na última quarta-feira.

Mesmo após o fim da crise, os questionamentos sobre a surpreendente libertação do grupo pelo presidente iraniano ontem continuam sem resposta.

Enquanto o Irã afirma que seus “objetivos foram alcançados” e que o premiê britânico, Tony Blair, enviou uma carta de desculpas ao governo persa antes da libertação, o governo em Londres reafirmou ontem que não houve nenhum tipo de negociação prévia para o fim do impasse.

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, exigiu em várias ocasiões durante os 13 dias de impasse que o Reino Unido admitisse a violação de suas águas, o que Blair –ao menos oficialmente– se recusou a fazer. A libertação de quarta-feira foi uma surpresa para os britânicos, que haviam afirmado apenas um dia antes que não esperavam uma solução rápida para a crise.

Em Londres, Blair afirmou categoricamente ontem que não houve negociação para a libertação do grupo. “Eles foram libertados sem acordo, sem negociação alguma, sem nenhum convênio de nenhuma natureza”, disse o premiê. “Quero ser muito, muito claro: sem transação, sem negociação”, insistiu.

Ele também expressou sua satisfação com a “abertura de novas vias de comunicação com o regime iraniano”.

Irã e Reino Unido viveram um incidente similar em 2004, quando o regime de Teerã manteve detidos durante três dias oito militares britânicos acusados de entrarem de forma ilegal em águas territoriais do Irã no golfo Pérsico. Na época, o Reino Unido também negou a invasão.

Desta vez, a tensão teve início na mesma semana em que o Conselho de Segurança da ONU aprovou novas sanções contra Teerã por sua insistência em manter seu programa nuclear.

Fonte: Folha Online