O goleiro Vitor, 31 anos, não tem dúvidas ao afirmar: está no melhor nível de sua carreira. Brilhou na Série C no ano passado, com o Londrina, clube pelo qual também conquistou o campeonato paranaense de 2014. A bagagem de grandes vitórias, no entanto, chegou acompanhada de uma decisão que agora deixa em dúvida o futuro do arqueiro: pela religião adventista, optou por “guardar” os sábados – não treina ou atua desde o pôr do sol das sextas-feiras até o do dia seguinte.

[img align=left width=300]http://zh.rbsdirect.com.br/imagesrc/17920302.jpg[/img]A escolha, que já impediu que uma negociação com a Chapecoense fosse concretizada, é tratada com tranquilidade por Vitor. Não teme que a carreira seja mais curta do que planejado. O contrato com o Londrina, em que hoje ocupa o banco de reservas nas partidas do estadual, vai até maio. Gostaria de renovar com o time até dezembro, mas, como a direção anunciou que isso não irá acontecer, sonha em encontrar uma equipe que o deixe seguir o que a religião prega. O futebol, atualmente, é o que sustenta a família formada pela mulher e os dois filhos, uma menina de seis meses e um menino de nove anos.

Vitor foi batizado no último 27 de dezembro, na Igreja Adventista da Pituba, em Salvador. A religião é presente em sua rotina há cerca de 12 anos. Porém, foi somente agora que o jogador decidiu seguir o que, segundo ele, “é ensinado pela Bíblia”. Aos sábados, reserva o dia para orações, almoço em família e atividades de caridade.

Foi nos ensinamentos adventistas que o goleiro encontrou conforto para superar decepções trazidas pelo futebol. Uma delas é um teste no Barcelona, em 2006, que não deu certo. Em outras ocasiões, sente-se escravo do mundo da bola:

— Meu primeiro filho nasceu no dia da minha estreia profissional pelo Vitória. Fui o último a saber. Só soube depois do jogo. Além disso, teve um momento da minha vida em que fiquei quatro meses sem clube. Deus chegou e me disse que há vida além do futebol — afirma.

Natural do Rio de Janeiro, Vitor jogou, além do Vitória, em clubes como a Ponte Preta, Joinville, Portuguesa, Atlético Goianiense e os gaúchos São José e Novo Hamburgo. Desde que chegou ao Londrina, em 2014, atuou em 79 jogos. Na temporada passada, esteve presente 43 deles, e ficou de fora de apenas um jogo na Série C, pela primeira fase, em razão de um terceiro cartão amarelo.

— O próprio Tencati (técnico do Londrina) falou que jogador que não pode participar na sexta e sábado não tem como ficar conosco — comentou o gestor de futebol do clube, Sérgio Malucelli, ao jornal paranaense Nosso Dia. — Ele tem contrato até maio e nós vamos cumprir e depois, infelizmente, ele vai ter que seguir o caminho dele.

Em contato com ZH, por telefone, o jogador falou sobre a decisão, as expectativas para a carreira e sua visão sobre o futebol:

[b]Como você comunicou ao Londrina que não treinaria ou jogaria aos sábados?
[/b]Eu conversei com o treinador (Claudio Tencati) assim que eu me reapresentei. Expus minha situação, minha condição de guardar o sábado, de obedecer a Deus, e ele falou que ia pensar, que isso nunca tinha acontecido antes. Eu falei que aceitava as consequências que isso implica. O que ele decidisse, para mim, estava decidido. Achei que iam rescindir meu contrato. Na mesma semana, chegou proposta da Chapecoense para disputar a Série A, com salário três vezes maior. E eu tive que colocar minha condição, expus à direção (a Sérgio Malucelli, gestor de futebol do Londrina), que tomou um susto. A Chapecoense não aceitou. Ele disse, então, que eu poderia ficar aqui, que a gente ia procurar uma maneira de lidar com a situação. Fui para o banco de reservas, pois o treinador preferiu colocar o Marcelo direto.

[b]Alguém tentou dissuadir você da decisão?
[/b]Na primeira ligação, ele (Malucelli) meio que não acreditou. Falou para eu pensar com minha família. Mas é uma convicção de fé. Não é uma decisão familiar ou profissional, é uma decisão de fé. Não foi o pastor da Igreja, foi a Bíblia que me disse a palavra de Deus. Não foi tomada de um dia para o outro. Ele talvez não tenha entendido, mas, na outra ligação, como a Chapecoense não aceitou, disse para eu ficar aqui mesmo.

[b]Você não teme que isso possa abreviar sua carreira?
[/b]Não temo. Foi uma decisão pensada, preparada. O futebol, na minha vida, foi uma história bem de altos e baixos. Fui preparado para jogar em clubes grandes da Europa e fiquei em clubes do interior do Brasil. Fiz teste no Barcelona, e acabei no Arapongas (clube do Paraná). Você vê a diferença entre a expectativa e a realidade. Quando eu fiquei quatro meses sem clube (em 2013), eu não vi ajuda de ninguém, mas fui muito bem cuidado por Deus. Não tinha nenhuma poupança, e comecei até ganhar mais do que com futebol, com uma marca de bolsas e carteiras, ideia que surgiu da noite para o dia (…) O futebol, de alguma forma, te escraviza. Até nas férias você depende do clube, se vai se classificar ou se não vai classificar. Nunca sabe a data que vai sair de férias.

[b]Você parece cansado do futebol.
[/b]Isso aí todo o atleta sente. Estou com 31 anos, jogo futebol desde os 13. Com essa regularidade, com 18 anos de futebol. Se o jogador chega, depois dos 30, e diz que não está cansado, é mentiroso ou não tem coragem de falar. É uma profissão desgastante. Você não tem data, você depende do futebol.

[b]E pensa em seguir a carreira, então?
[/b]Penso em prosseguir, mas tem de ter um clube que aceite minha crença religiosa. Minha liberdade religiosa é até protegida por lei. Eu poderia agregar valor a uma equipe. Eu só agregaria, mas precisa de um clube que entenda isso. Poderia ser principalmente a Série A e C, que têm jogos domingos e quartas. Se aparecer, eu vou. Vivo o melhor momento da carreira, meu melhor nível técnico.

[b]Por que a decisão de não trabalhar aos sábados?
[/b]Deus criou esse dia especial para gente descansar. Ele criou o mundo em seis dias, e no sétimo descansou. Não que Ele tenha cansado, mas deixou isso para todas as gerações. É um dia de descanso. Para esquecer preocupações e problemas e adorar a Deus. Visitar a igreja, se abster do trabalho por interesse próprio. Reunir a família para o almoço, visitar asilo, visitar hospital. É um dia especial. Durante a semana, às vezes, tem gente que não consegue 10 minutos para orar. Por isso que está essa loucura. Ninguém respeita mais ninguém.

[b]E como você se sente na reserva, que é uma consequência da sua decisão?
[/b]Estou indo para os jogos focado em ser campeão mais uma vez. Vou esperar uma posição, bem tranquilo. Até agora, não tiveram jogos aos sábados. Fiquei sabendo que vão ter uns três que serão aos sábados, aí não vou poder participar. Eu trabalho dobrado todos os dias se for preciso, mas no sábado não.

[b]Fonte: Zero Hora[/b]