O acordo financeiro (cerca de 9 milhões de euros), permitiu que o poder público francês participasse da construção da mesquita.

Houve abraços emocionados e muitos sorrisos orgulhosos, na segunda-feira (1º), por volta da meia-noite, na saída da nova grande mesquita de Estrasburgo, que abria suas portas durante a quebra do jejum do primeiro dia do Ramadã.

Diante da construção iluminada, os anciões estavam felizes, quase em lágrimas. Há mais de vinte anos alguns se desesperavam com essas salas de preces – “porões” escondidos no fundo de becos sem saída – e sonhavam com a luz de sua nova cúpula de 24 metros de altura, perto do centro da cidade.

Nessa segunda-feira, ainda faltavam os últimos acabamentos e a decoração interna: o carpete definitivo, os mosaicos nas paredes e um friso de gesso. Para abrir a tempo, a mesquita apressou as obras, mesmo que a inauguração oficial fosse ocorrer só daqui a meses. Mas, para os muçulmanos de Estrasburgo, que representariam 10% dos habitantes, segundo a cidade, o símbolo estava lá: a primeira “grande mesquita” da cidade – dos 25 locais de culto muçulmanos – , financiada em quase 30% por verba pública (prefeitura 10%, conselhos geral e regional 16%), estava finalmente de pé.

Para essa inauguração, quase 1.500 deles correram para lá. Alertados pelo boca-a-boca, eles quase lotaram o local. Os homens, muitas vezes em traje esporte fino, às vezes de djellaba, de tarboush na cabeça, se alinharam em fila indiana na grande sala do térreo. As mulheres, de cabeça coberta e roupas largas, fizeram o mesmo no mezanino reservado a elas.

“É o maior acontecimento dos últimos anos!”, comemorou na saída da última prece Mohamed Aouad, 59, vindo do Marrocos em 1960, que se tornou operário na construção civil e na indústria siderúrgica. Junto com amigos de sua idade, ele imortalizou o momento, tirando fotos com seu celular. “Apesar de tudo que se ouviu e dos incidentes, essa mesquita é a prova de que não somos rejeitados”, acredita Awatef, 30, funcionária de uma seguradora, que compareceu com sua mãe e sua tia.

O acordo financeiro (cerca de 9 milhões de euros), que permitiu que o poder público participasse da construção da mesquita, é o resultado do regime particular dos cultos que prevalece na Alsácia e em Moselle.
Diferentemente do resto do território francês, uma vez que esses departamentos eram alemães em 1905, não é a lei de separação entre a Igreja e o Estado que se aplica, mas sim os princípios da Concordata (1801). Portanto, é o Estado que nomeia e remunera os ministros dos cultos. E embora o regime concordatário não reconheça o islã – que não existia na França no século 19 – , disposições tornam possível o financiamento desses locais de culto pelos municípios.

No entanto, esse sistema não impediu que inúmeros incidentes entravassem a construção da mesquita. Os primeiros projetos remontam a 1992, a aprovação do conselho municipal – na época majoritariamente socialista – a 1999, e a colocação da primeira pedra a 2004… Entre as causas dessa lentidão: o jogo da alternância política, sobretudo após a eleição, em 2001, da prefeita da UDF, Fabienne Keller, que dirigiu a cidade até 2008. Resistente ao projeto, foi durante seu mandato que a construção do minarete foi cancelada.

Mas neste 1º de agosto, representantes locais e dirigentes religiosos, presentes desde o começo da tarde, se empenharam para aparar as arestas de um assunto cuja dificuldade era conhecida de todos. “A visibilidade está lá com a cúpula, a prioridade é escutar o outro, (…) aqui defendemos um islamismo pacífico”, disse Fouad Douai, 51, administrador da empreendedora que supervisiona a mesquita. Said Aalla, presidente da mesquita, repetia que ele já tinha pedidos por parte das escolas para visitar a construção na volta às aulas.

Já Olivier Bitz, 36, adjunto encarregado dos Cultos junto ao prefeito Roland Ries (Partido Socialista), insistiu na “igualdade” entre as religiões. “Estrasburgo é uma capital europeia que defende todos os direitos humanos. (…) O islamismo não é a religião do estrangeiro (…) e nós somos uma cidade aberta a todas as espiritualidades que respeitem os valores da República”. Segundo ele, a cidade deve em breve financiar a construção de uma igreja protestante e de um templo budista.

[b]Fonte: Le Monde[/b]