O apelo ao diálogo entre cristãos e muçulmanos marcou hoje, em Bruxelas, o terceiro seminário promovido pela Comissão das Conferências Episcopais Européias.

A Europa tem de rever a forma como tem lidado com o Islã – É uma das idéias que marcou o seminário que hoje teve lugar em Bruxelas, organizado pela Conferência dos Episcopados Europeus, uma iniciativa centrada no tema “A Europa cristã e o Islã na Europa”.

Um debate onde foram feitas criticas à simplificação abusiva e às generalizações muitas vezes comprometedoras do modo como é visto o Islã.

Numa discreta sala do Parlamento Europeu, representantes das diferentes fés discutiram abertamente a forma como a religião islâmica é vista na Europa e também a forma como os muçulmanos consideram que a sua fé é muitas vezes objeto de distorções preconceituosas.

O Xeque da comunidade islâmica da Sérvia respondeu a dúvidas e tentou desmontar o que considera serem simplificações abusivas e generalizações comprometedoras, mas também assumiu que o comportamento de muitos muçulmanos está bastante longe dos ensinamentos do profeta, pelo que só com a sua modificação será possível esperar que os outros alterem as suas percepções.

“A realidade do verdadeiro Islã, que existe no Corão é diferente da realidade que nós, muçulmanos, projetamos. Quando lidamos com mulheres, de muitas formas distorcemos o Islã. No Islã, a mulher tem todos os direitos de se realizar em qualquer domínio que seja capaz de o fazer, isso é garantido, é-nos dado por Deus. Mas o que acontece é que as pessoas não lêem o Corão, olham para nós e dizem, «vejam como eles se portam, é porque são muçulmanos, aprenderam isso do Islã», mas não é verdade, é uma construção nossa» – disse.

E termina com uma reflexão destinada à sua comunidade religiosa, mas que podia aplicar-se a qualquer outra.

“Vivemos como sabemos. Nadamos tanto como sabemos. Uns nadam muito depressa e outros quase se afogam, mas todos dizem que sabem nadar. As pessoas que tratam mal os outros em nome da religião, no fundo, não sabem nadar bem. E estão a cometer danos irreparáveis a todos nós, estão a impedir-nos de fazer parte de uma comunidade mais vasta. Para mim, o significado de integração é compreender que nem toda a gente é como nós, que uns vão à igreja ao domingo, outros vão à mesquita à sexta-feira e outros ainda vão à sinagoga na sexta à noite”.

Segundo uma socióloga, investigadora da universidade de Cambridge, que também participou nesta conferência, a Europa ainda está a aprender a lidar com um fenômeno recente, que é a emergência de uma comunidade muçulmana cada vez mais significativa no seu território. Uma comunidade menos monolítica do que se possa pensar e que tem obrigado a Europa secular a rever a sua relação com a religião em geral.

“Penso que depois de um período em que a religião teve um grande papel na política de cada país até ao século XIX, os europeus rejeitaram completamente a religião. E agora, como conseqüência da visibilidade do Islã, os europeus estão a reconsiderar se é boa idéia uma sociedade totalmente secular e a reconsiderar se não se deve apreciar novamente o papel que a religião desempenha em mobilizar as pessoas e a fornecer valores para uma vida em comum melhor” – disse.

Este ciclo de debates prossegue depois das férias de Verão.

Fonte: Rádio Renascença