Desde 2002, cerca de 40 mulheres católicas foram ordenadas como sacerdotes, desafiando as leis do Vaticano. Embora um pequeno número de mulheres trabalhando como sacerdotes possa parecer apenas uma pequena irritação, e não uma ameaça, ao Vaticano, o número não pára de crescer.

Em um domingo de final de inverno, em San Diego, vestida com os trajes tradicionais de um sacerdote católico, um manto branco conhecido como alva, uma estola dourada envolvendo seus ombros estreitos e um longo roupão verde conhecido como casula sacerdotal, Jane Via estava rezando uma missa proibida diante dos 100 fiéis reunidos na Comunidade Apostólica Católica Santa Maria Madalena.

Via, 59 anos, seria um candidata ideal ao sacerdócio, não fosse o fato de que ela é mulher, casada e tem dois filhos.

Ela se converteu ao catolicismo ainda caloura, na universidade, e tem um doutorado em Teologia, além de um diploma em direito. Trabalha como promotora pública assistente há 17 anos, em San Diego, cuidando para que ladrões, assassinos e molestadores de crianças sejam encarcerados.

Em seu segundo emprego, como sacerdote católica, no entanto, ela está deliberadamente violando a lei canônica n° 1.024, segundo a qual apenas homens batizados podem ser ordenados como sacerdotes. “Eu acredito há muito no princípio legal da desobediência civil”, disse Via. “A lei canônica que proíbe mulheres sacerdotes é injusta. Temos de quebrá-la para promover mudanças”.

Desde 2002, cerca de 40 mulheres católicas foram ordenadas como sacerdotes, desafiando as leis do Vaticano. Embora um pequeno número de mulheres trabalhando como sacerdotes possa parecer apenas uma pequena irritação, e não uma ameaça, ao Vaticano, o número não pára de crescer.

Mais de 120 mulheres, muitas das quais há muito conectadas com a Igreja, como freiras, capelãs e líderes laicas, estão estudando para a ordenação, no momento. Cerca de 11 mulheres norte-americanas esperam ser ordenadas até setembro.

Os líderes da Igreja consideram essas mulheres como hereges, ou, talvez ainda pior, como simples imitadoras. “Para encontrar uma analogia na esfera laica, seria como se um amigo meu me empossasse como governador de Nova York”, diz o cardeal Avery Dulles, professor na Universidade Fordham, em Nova York. “Isso me tornaria governador de verdade?”

Como aluna de pós-graduação, no começo dos anos 70, Via se deixou influenciar por teólogas feministas como Rosemary Ruether e Mary Daly. Em 1977, ela foi contratada como professora de estudos do Novo Testamento na Universidade de San Diego. Um ano antes, a Pontifícia Comissão Bíblica determinou que as escrituras não impõem obstáculos ao sacerdócio feminino, e Via era uma entre muitas mulheres católicas que acreditavam que a ordenação de mulheres não demoraria a começar. Mas o Vaticano se manteve firme por mais de 30 anos em sua posição: só homens podem ser padres e representar Jesus em termos simbólicos.

Então, em 29 de junho de 2002, frustradas com a falta de progresso, seis mulheres européias e uma norte-americana foram ordenadas por Romulo Braschi, um ex-padre controverso que alega ter sido ordenado bispo. Na opinião das mulheres, a presença de Braschi garantia sua posição na “sucessão apostólica”, que as conecta aos apóstolos originais da Igreja. Elas depositaram uma cópia registrada em cartório de sua ordenação por Braschi em uma cofre de um banco europeu.

Para o Vaticano, a tentativa de documentar o status episcopal era irrelevante. Dentro de oito meses, foram todas excomungadas por decreto do cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI. Via, que trocou a vida acadêmica pela lei mas nunca perdeu seu apego à religião, escreveu a uma das sete mulheres ordenadas originalmente, e foi ordenada em 24 de junho de 2006, depois de concluir seus estudos preparatórios. Alugou espaço em uma igreja metodista e começou a conduzir missas católicas no local a cada domingo.

Em agosto passado, ela foi informada pelo bispo Robert Brom, de San Diego, que estava sob “interdição”, por sua ordenação ilegal, e portanto impedida de receber sacramentos. Ele anunciou que reportaria o caso dela à Congregação de Defesa da Fé, para revisão.

Via não sabe quando, ou se Roma vai agir, mas não muda de idéia. Quando criança, ela se deixou fascinar por uma estátua de Santa Joana d¿Arc, pela altivez que ela exibia. Agora, vê a história da santa como outra forma de parábola. Joana foi morta na fogueira como herege, em 1413, e terminou canonizada posteriormente. Ou seja, a Igreja pode mudar, afinal.

Fonte: The New York Times Magazine

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