Ficou para a última das 38 rodadas do Brasileiro a sorte de um dos principais clubes do País. O corintiano não agüenta mais. Com a corda no pescoço, ele tratou de buscar ajuda numa esfera longe do campo, mas sempre próxima do time. Em São Jorge Guerreiro.

Desde quinta, o torcedor corre em duas frentes: para garantir seu lugar na caravana que partiu ontem, sábado, às 17 horas para Porto Alegre, onde o time enfrenta o Grêmio em sua última tentativa de escapar do descenso; e atrás das imagens do “santo” católico padroeiro.

Uma derrota no Sul, aliada a uma vitória ou empate do Goiás diante do Inter, leva o Corinthians para o fundo do poço. Nunca foram vendidos tantos santinhos, imagens, camisetas e medalhas de São Jorge como nesta quinta. A livraria Loyola, no centro de São Paulo, teve seu estoque esgotado antes das 16 horas. Das dez camisetas que haviam na loja, sobrou apenas uma, tamanho GG.

Cada camisa era vendida por R$ 21. Entre medalhas com a imagem do padroeiro corintiano e santinhos com sua oração, foram vendidos mais de 100 unidades. Os preços variavam entre R$ 0,10 e R$ 0,40. “Nunca tinha visto uma procura tão grande num mesmo dia pelas imagens de São Jorge. As pessoas já chegavam aqui perguntando sobre o santo e diziam que era para ajudar o Corinthians”, contou a vendedora Maria Marileide Bezerra, funcionária da loja há quatro anos e corintiana.

“Já tenho meu kit São Jorge, com chaveiro, camiseta, marca página e até um devocionário para fazer a novena”, disse a moça, também na onda que toma conta dos corintianos.

O apelo tem sido feito também a outros santos. Na igreja São Judas Tadeu (patrono católico das causas desesperadas), dois corintianos deixaram na sacristia, após a missa do meio dia, pedidos para que o time não caia para a Série B. Escreveram os pedidos de próprio punho, conforme contou uma funcionária da secretaria da igreja.

Há meses, o torcedor corintiano vem demonstrando carinho e amor pelo clube. Está esgotado. É paulada atrás de paulada. A derrota para o Vasco por 1 a 0 no Pacaembu quarta-feira enfraqueceu o elenco e desanimou alguns seguidores.

Abatida, desiludida e cheia de vergonha, aquela multidão de 30 mil pessoas deixou o Pacaembu caminhando em ritmo de procissão. Esperam por um milagre domingo.

Como o Palmeiras em 2002

O Corinthians vive situação parecida com a do Palmeiras em 2002, quando a equipe do Palestra Itália também precisava vencer o Vitória para escapar da queda. Perdeu e passou um ano no purgatório da Segunda Divisão. A Portuguesa também caiu naquele mesmo ano e viveu cinco temporadas no buraco, tentando se reerguer. Subiu há duas semanas.

A fase de sofrimento, contudo, fez nascer uma tendência nos estádios onde o Corinthians passa. Tendência que vai pegar: músicas revelando o amor do torcedor pelo clube.

Nelas, não há provocação ou xingamento ao adversário, como havia recentemente. É o som da massa que acredita, torce, festeja e chora com os atletas. “Aqui tem um bando de louco. Louco por ti, Corinthians”, é um dos trechos de uma dessas músicas.

Foi o Flamengo quem primeiro começou com esse entrosamento com o time quando estava mal no Brasileiro. Seus torcedores entenderam que não adiantava xingar, protestar, reclamar. O elenco era aquele mesmo e não mudaria. O jeito então era apostar e apoiar. O Flamengo reagiu, voltou a ganhar jogos, subiu na tabela e garantiu a Libertadores da América em 2008.

Contra o Vasco, até o placar do Pacaembu deu uma mãozinha. “Hoje, temos a obrigação de empurrar o Corinthians”, era a mensagem escrita em letras enormes.

Domingo, uma nação de corintianos estará ligada na TV para torcer por sua equipe contra o Grêmio. Nesta sexta, torcedores da Gaviões da Fiel começaram a montar a caravana para Porto Alegre.

Fonte: Estadão