Em uma decisão judicial rápida que surpreendeu os cristãos, uma Corte etíope sentenciou três homens muçulmanos à prisão perpétua por ataque mortal com machadadas a pessoas que estavam em duas igrejas. O ataque aconteceu em 2 de março no sul do país.

Na primeira audiência, em 26 de março, a Suprema Corte de Arsi sentenciou — pelos ataques que mataram uma pessoa e feriram 17 — três dos agressores à prisão perpétua, e o cúmplice à pena com suspensão condicional de três meses.

As famílias das vítimas contaram que foram informadas de que a audiência ocorreria somente em 25 de abril; e só ficaram sabendo que a sentença já havia sido dada depois que o prazo para apelar da sentença havia expirado.

“Em geral, esses casos levam meses e anos para dar uma sentença, mas esse caso terminou de forma rápida e secreta”, disse um dos observadores em Addis Ababa.

Os cristãos do vilarejo Nensebo Chebi, a cerca de 384 quilômetros a sul da capital Addis Ababa, conseguiram vencer as formalidades burocráticas para apelar da sentença por causa da preocupação com a forma “secreta” com que o caso foi tratado.

De todas as 17 pessoas presas pelo ataque nessa área predominantemente muçulmana, seis ainda estão na prisão, e o restante delas, segundo relatos, já foram soltas. Os cristãos locais disseram que as autoridades se recusaram a fornecer informação se essas pessoas serão julgadas ou não.

As três autoridades muçulmanas presas por causa de suspeita de envolvimento nos ataques já reassumiram sua posição no governo, embora uma investigação, à parte, contra esses homens ainda esteja em andamento, disse um cristão local.

“O objetivo do apelo é chamar a atenção das altas autoridades”, disse o observador. “Os membros da igreja temem que, se o caso não for tratado com seriedade, então, daqui algum tempo, o caso possa ser apresentado a uma junta de governo local que pode dar liberdade condicional ou perdoar os agressores.

O outro caso

A Corte na cidade de Shashemene deu sentença de prisão perpétua para três muçulmanos na audiência de 26 de março pelo ataque em Nensebo Chebi. Gemeda Beriso, 20 anos, Kedir Beriso, 20 anos, e Keyrudin Muhammad, 19 anos, foram condenados por “assassinato brutal e doloso”, em que tinham a intenção de matar.

Os juízes Ashenafi Tesfay, Haji Shalo e Bejiga Kefeni consideraram um quarto homem culpado por cooperação com os criminosos.

Hajji Kuma Ngero foi sentenciado a três meses de prisão com pena com suspensão condicional, sentença que se fundamentou em sua necessidade de ficar em liberdade para cuidar dos 12 filhos, conforme o veredicto observou. Ele apenas cumprirá um tempo de detenção se for condenado por algum outro crime nos próximos dois anos.

Durante a manhã de domingo do ataque de 2 de março, homens com facas e machadinhas entraram, simultaneamente, em duas igrejas que ficam a meia-hora de distância uma da outra e começaram a agredir os que ali adoravam a Deus.

Um homem morreu no mesmo instante em que recebeu um golpe em seu pescoço, enquanto dois outros perderam as mãos, e outras 15 pessoas foram feridas no pescoço, nas pernas, nos braços, nos ombros e nas costas.

Réus confessos

Os quatro homens condenados por esse crime, de acordo com relatos, confessaram o crime enquanto estavam em custódia policial por atacarem a igreja Kale Hiwot e a Wongel Baptist. Os sobreviventes disseram que durante o ataque os agressores gritavam: “Allahu Akbar”, expressão em árabe que quer dizer: “Alá é o maior”.

Os líderes da igreja, por tomarem conhecimento do veredicto apenas em 13 de abril, enfrentaram várias irregularidades em suas tentativas de apelação, disseram as fontes locais.

Os cristãos viajaram imediatamente para Shashemene, onde as autoridades judiciais pareciam não saber que a sentença já fora proferida. O oficial de registro do tribunal, o responsável por arquivar todos os documentos do processo, não tinha uma cópia do veredicto. Por fim, descobriu-se que o processo estava nas mãos do promotor estadual.

“O que vimos no tribunal de justiça é indício de que houve uma ação deliberada para nos impedir de apelar e levar o caso à instância superior para que recebesse um tratamento melhor”, disse-nos um cristão local.

Os cristãos também enfrentavam dificuldades para apelar em uma instância superior em Addis Ababa, pois o período de 15 dias para fazer petição já expirara. No entanto, após citar circunstâncias atenuadoras, incluindo o fato de que os cristãos não tinham tomado conhecimento da audiência e estavam preocupados em cuidar dos feridos, um promotor público aceitou a apelação.

Fonte: Portas Abertas