Dezenas de cidadãos no Turcomenistão foram detidos ao tentar participar das celebrações da Páscoa cristã na cidade de Balkanabat, no Oeste do país. As detenções ocorreram em dois domingos consecutivos, marcando um período de intensa vigilância e repressão contra a comunidade cristã. A situação levanta sérias preocupações sobre a liberdade religiosa no país, onde minorias enfrentam olhares atentos e ações direcionadas por parte das autoridades.
Relatos de testemunhas à Rádio Azatlyk, serviço local da Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade (RFE/RL), indicam que agentes do Ministério da Segurança Nacional (MNS) e da polícia local realizaram operações ao redor da única igreja cristã da cidade. Essa abordagem seletiva e direcionada sublinha a complexidade da situação religiosa no Turcomenistão e o que motiva essa vigilância durante um período tão significativo para os cristãos.
Vigilância e detenções direcionadas durante a Páscoa
Moradores da região descreveram que os agentes, atuando tanto à paisana quanto uniformizados, abordaram fiéis antes mesmo que pudessem entrar no local de culto. Cerca de 50 pessoas foram levadas para delegacias em veículos oficiais e particulares pertencentes às forças de segurança. A forma como essas ações foram executadas sugere um planejamento prévio e um conhecimento detalhado sobre os indivíduos visados.
As testemunhas destacaram que os agentes pareciam ter informações prévias sobre os fiéis abordados. Uma atenção especial recaiu sobre os cristãos de origem muçulmana, cidadãos turcomenos que se converteram do islamismo ao cristianismo. Para esses indivíduos, a entrada na igreja foi impedida, sendo conduzidos para interrogatório. O número exato de detidos não foi divulgado oficialmente, mas a magnitude das ações aponta para um controle rigoroso sobre as atividades religiosas minoritárias.
Interrogatórios e pressão religiosa após as detenções
Uma fonte da polícia local, que preferiu manter o anonimato, revelou que os detidos foram submetidos a questionamentos focados em suas escolhas religiosas. As perguntas incluíam detalhes sobre quem os incentivou à conversão, se receberam apoio financeiro e os motivos para terem deixado o islamismo. Essa linha de interrogatório demonstra a preocupação das autoridades com a expansão de confissões não tradicionais dentro do país.
A verificação dos telefones celulares foi realizada individualmente, e aqueles que portavam uma Bíblia foram interrogados separadamente, indicando uma busca por evidências de proselitismo ou organização religiosa não autorizada. Relatos apontam para a ocorrência de coerção, incluindo ameaças e pressão psicológica, com o objetivo de fazer com que os cristãos renunciassem à sua fé. Em alguns casos, líderes islâmicos locais foram envolvidos em encontros posteriores, nos quais os detidos foram exortados a retornar ao islamismo, evidenciando uma estratégia de reintegração forçada.
O controle estatal sobre a religião no Turcomenistão
Especialistas em liberdade religiosa apontam que o governo do Turcomenistão exerce uma vigilância rigorosa sobre todas as atividades religiosas. Felix Corley, editor do Forum 18, organização que monitora a liberdade religiosa em países da antiga União Soviética, afirma que o Estado controla tanto comunidades cristãs quanto muçulmanas. Essa política visa manter a estabilidade social e o controle ideológico.
Observadores independentes notam que jovens no Turcomenistão enfrentam desemprego e poucas oportunidades, o que pode levar alguns a buscar apoio comunitário em grupos religiosos minoritários. No entanto, conversões são vistas pelas autoridades como socialmente desestabilizadoras e contrárias à identidade nacional. Essa percepção contribui para a repressão contra minorias religiosas, que são vistas como um potencial fator de dissidência.
Posição do Turcomenistão na liberdade religiosa
O Turcomenistão é consistentemente classificado como país de particular preocupação em relatórios internacionais sobre liberdade religiosa. Atualmente, ocupa a 35ª posição na Lista Mundial da Perseguição 2026, um ranking que identifica os 50 países onde cristãos enfrentam a perseguição mais severa. Essa classificação sublinha os desafios contínuos para a prática da fé cristã no país.
Até o momento, o destino dos cristãos detidos em Balkanabat permanece desconhecido. As autoridades não responderam aos questionamentos da RFE/RL, e familiares evitam comentar o caso por medo de represálias, o que reflete o clima de apreensão e silêncio imposto pela vigilância estatal. A situação destaca a importância do apoio contínuo a cristãos perseguidos em todo o mundo.
Fonte: Portas Abertas

