O Vaticano deu seu apoio aos bispos britânicos que criticaram um documentário da BBC denunciando um sistema posto em prática pelo atual papa Bento 16 (foto) para acobertar crimes sexuais contra crianças, quando ele ainda era chefe da Congregação para a Doutrina da Fé.
Bispos católicos da Inglaterra e do País de Gales condenaram o documentário exibido na noite de domingo, afirmando que seu conteúdo era “falso e enganador”.
O Vaticano disse que por enquanto não faria comentários sobre o programa, mas afirmou que dava seu total apoio à forte declaração do arcebispo de Birmingham, Vincent Nichols, escrito em nome dos bispos britânicos.
Nichols, presidente do Escritório Católico para a Proteção de Crianças e Adultos Vulneráveis, disse que a BBC deveria “ter vergonha do padrão de jornalismo usado para criar esse ataque injusto ao papa Bento 16”.
A BBC defendeu o documentário, exibido no programa “Panorama”. O documentário examinou o que afirmou ser um documento secreto de 1962, que estabelecia o procedimento para se lidar com o abuso sexual de crianças dentro da Igreja Católica.
O documento, chamado “Crimen Sollicitationis”, impunha um juramento de segredo à vítima, ao padre que sofria as acusações e a qualquer testemunha. Romper o juramento resultaria na excomunhão, disse a BBC.
“O procedimento tinha a intenção de proteger a reputação de um padre até que a Igreja tivesse investigado o caso, mas na prática ele pode proporcionar um plano de acobertamento,” disse o documentário.
“O responsável por pôr o procedimento em prática durante 20 anos foi o cardeal Joseph Ratzinger, o homem que foi feito papa no ano passado”, disse o repórter Colm O’Gorman, no documentário que se chamou “Crimes Sexuais e o Vaticano.”
Ratzinger chefiou o departamento que fiscalizava a doutrina da Igreja desde 1981 e até sua eleição como papa, em 2005.
Os bispos britânicos afirmaram que o documento original de 1962 não estava preocupado especificamente com o abuso sexual de crianças, mas com o uso abusivo da confissão por um padre para silenciar sua vítima.
O documento foi revisado em 2001 para lidar mais especificamente com casos de abuso sexual, mas permaneceu secreto.
Os bispos rejeitaram com veemência o ataque ao papa. “Desde 2001 o cardeal Ratzinger, quando chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, tomou muitas medidas para aplicar a lei da Igreja às alegações e denúncias de abuso de crianças, com diligência e escrúpulo absolutos”, disse Nichols.
Em sua nota, ele disse que havia duas correntes no documentário: uma ressaltando casos de abuso de crianças por padre, um crime que segundo ele a Igreja Católica leva muito a sério, com cuidado e transparência, e outra atacando o papa.
“Esse aspecto do programa é falso e totalmente enganador. É falso porque representa erroneamente dois documentos do Vaticano e os usa de forma bastante enganadora para ligar os horrores do abuso de crianças à pessoa do papa”, disse ele.
O documento veio a público pela primeira vez em 2003, quando foi muito divulgado pela imprensa norte-americana, e foi usado por advogados de supostas vítimas de abusos sexuais em processos contra padres nos Estados Unidos.
O escândalo norte-americano, no qual os padres acusados de abusar de menores eram transferidos de paróquia para paróquia em vez de ser suspensos, centrou-se em Boston. Ele levou à renúncia do arcebispo da cidade, Bernard Law, em dezembro de 2002.
A BBC defendeu o teor de seu documentário. “A proteção das crianças é claramente um assunto de forte interesse público”, disse a emissora numa nota. “A BBC ratifica seu programa ‘Panorama’ e convida os espectadores a fazer seus próprios juízos.”
Fonte: Reuters
