A partir da iniciativa da Igreja Batista Memorial, uma comunidade de brasileiros no sul da Flórida, tive o privilégio esse fim de semana, de participar da montagem dos musicais “Jesus Sertanejo” em pleno território norte-americano.

Jesus Sertanejo foi criado em 1992 em um tempo em que as Igrejas Brasileiras ainda não estavam abertas para o uso da cultura regional no culto cristão. a grande maioria das Igrejas locais naquele período dava preferência às traduções de hinos e cânticos e muito pouca musica autenticamente brasileira tinha espaço no meio evangélico.

Após a estréia no congresso “Despertar 93”, promovido pela JUMOC, junta de mocidade da convenção batista brasileira, muita coisa começou a mudar. Inesperadamente “Jesus Sertanejo”foi recebido com grande entusiasmo por jovens do Brasil inteiro que se reuniram naquele congresso em Brasília.

A exuberância da cultura nordestina brasileira acoplada à mensagem do evangelho causou grande comoção e entusiasmo e encontrou perfeita aceitação nas mentes e corações de uma geração carente de expressões religiosas que englobassem também nossa cultura, nossas tradições, nossa etnia. De lá para cá, o musical rodou o Brasil inteiro e ajudou a abrir as portas para o surgimento de um louvor autenticamente brasileiro. Na verdade quando se fala em “Jesus Sertanejo”estamos nos referindo à dois musicais; o primeiro, “O nascimento”e o segundo “A Missão”.

Ambos são estruturados em forma de mini-oratório, cantados do inicio ao fim, sem partes faladas, através de arias, coros, e recitativos. Conduzindo a trama e introduzindo cada nova cena existe a figura do “repentista”, tradição bem típica do nordeste brasileiro que tem sua origem nos menestréis da idade média. Acompanhado pela viola sertaneja, o repentista vai contando a historia do evangelho usando rimas e improvisos bem ao estilo dos violeiros que ainda hoje circulam de cidade em cidade do sertão nordestino.

Jesus Sertanejo faz largo uso de ritmos e formas musicais do nordeste brasileiro, e apresenta a história de Jesus de forma contextualizada e singela utilizando elementos do cotidiano do sertanejo para ilustrar cada episódio, criando um paralelismo entre a palestina e o solo seco do sertão, a cultura judaica do primeiro século e o estilo de vida prosaico do sertanejo.

A Igreja Memorial, teve a idéia de apresentar os dois musicais na mesma noite, algo nunca feito antes. Normalmente “Jesus Sertanejo I” é apresentado no Natal e o segundo musical na páscoa. Outra inovação foi o uso, pela primeira vez da orquestração para grupo de cordas, escrita especialmente para a ocasião. A produção conseguiu localizar alguns excelentes músicos locais que ajudaram muito a abrilhantar o evento.

A reação do público foi acima do esperado e nas duas apresentações, uma no sábado e outra no domingo (com legendas em inglês para o público americano), participou animadamente. Deu gosto ver o capricho nos detalhes da produção, que conseguiu encontrar chapéus de couro, sandálias e até mesmo rapadura para compor figurino, cenário e adereços.

O melhor de tudo foi ver como uma comunidade de pouco mais de 60 pessoas se mobilizou de forma dinâmica e ativa tendo como objetivo principal levar a mensagem do evangelho de forma contextualizada para o enorme numero de imigrantes brasileiros naquela região, que ainda não conhecem a Jesus. Praticamente todos os membros ajudaram de alguma forma. Quem não estava cantando ou tocando, ajudou na produção, som, luz, bastidores, montagem e etc. Ao conviver por alguns dias com aquele grupo maravilhoso, pude conhecer um pouco mais da realidade dos imigrantes e das dificuldades por que passam, especialmente nesses dias de crise econômica.

Fiquei profundamente tocado pela garra com que todos se envolveram nesse projeto e como superaram todas as adversidades e limitações, para apresentar um trabalho extremamente bem feito e cheio de emoção e sensibilidade. Ver a irmã Marlene cantando com tanto empenho, “seu” Renato, do alto de sues 70 anos esbanjando uma energia de garoto, os sorrisos francos e abertos do coro, o esforço dos mineiros e goianos tentando aprender o xaxado, e a dedicação incansável de Mardoqueu, encheu meu coração de alegria e justificou todo o esforço de pegar 15 horas de estrada.

Ainda é cedo para se apurar os frutos desse trabalho e o impacto causado na comunidade brasileira do sul da Flórida, mas possa atestar que ao menos uma vida foi tremendamente abençoada por essa iniciativa; a deste que vos escreve.

Um abraço e um Feliz Natal,

Leon Neto