Quando eu tinha uns sete anos me lembro de deitar no chão do pátio de nossa casa, em Manaus, e ficar olhando a abobada celeste, azul, profunda, enigmática, assustadora — e de dizer: “O que é isto? Que lugar é este? Aonde fica isto? E o que está dentro do quê?”

Eu olhava e sentia que um dia eu iria saber.

Mas quando indagava as mesmas perguntas aos adultos, a resposta sempre era um nada…

Logo depois comecei a sofrer da nostalgia do por de sol. Havia uma mangueira no fundo do quintal da casa de minha avó, e, através da mangueira eu via o sol se pondo… Ela ficava toda pintada como uma mangueira ardente… Um equivalente infantil amazônico da sarça ardente…

Então eu sentia que havia algo, uma revelação, um mistério a ser entendido, atrás da mangueira.

O resto de minha vidinha, até aos 18 anos, essa nostalgia do por do sol me per-seguiu.

Foi apenas quando me converti que a imagem mudou em minha alma, e a mangueira passou a simbolizar minha busca de Deus, até o encontro com Ele em Cristo, na Árvore da Vida. Assim, a mangueira virou passado sem nostalgia para mim.

O encontro com Deus tira a saudade de Deus.

Mas isto não significa que a alma não mais escreva salmos 42 para si mesma; em diferentes ocasiões da existência.

Entretanto, o encontro com Deus tira a saudade do vazio, como saudade de não sei o quê; e a coloca na perspectiva não do ausente a quem desejo, mas do presente acerca de quem desejo mais; não de um conhecimento mental, mas totalmente relacional; e que também não gera intimidade com Deus como fofoca entre a divindade e seus profetas.

Todavia, aparece a saudade de conhecer mais, pois, se saudade olha ou para trás ou para o ausente, a saudade de mais de Deus nem olha para trás e nem para o ausente, mas sim para o presente, e nos chama a mergulhar Nele mesmo infinitamente.

“Certamente se lembrassem de onde saíram, voltariam para lá” — diz o escritor de Hebreus.

Assim, não é a saudade do desconhecido, mas Daquele que em sendo conhecido, se deixa conhecer sempre em parte, ainda que não esconda o peso de sua totalidade.

Chega, entretanto, uma hora-existencial na qual se instala em você um conhecimento profundo de Deus como comunhão; e, quando isso acontece, mesmo que seu ser deseje mais, isso não significa para você nenhuma ausência, mas apenas a certeza da possibilidade de um mergulho mais profundo Naquele que para você já é; mesmo que você saiba que entende o que não se pode compreender.

Na fé não há saudade como ausência, mas apenas desejo de mais presença!

Isto porque pela fé surge um espigão de Deus em você. Com ele não vêm todas as respostas, e nem todas as certezas; mas vem algo maior: conhecimento experiencial de Deus.

Sim! Você sente que vai ficando amigo de Deus e que Ele é seu amigo também.

Todavia, como disse antes, a “intimidade” não é Candinha entre o homem e Deus.

A intimidade de Deus é crescente consciência acerca Dele, de nós mesmos, e da existência Nele.

Assim que voltei com a família dos Estados Unidos em 1990, depois de um período de dois anos por lá, alguém perguntou a meu filho Lukas o que ele mais sentia saudade na Califórnia. Ele respondeu: “De mim lá!”

É assim com Deus depois que se o conhece. Você sente saudades de você mais profundamente Nele.

Nele, que se revela de gloria em gloria todos os dias,

Caio

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