ÉTICA NO DESEJO?

670
O Enigma do Desejo Surrealismo de Dali
O Enigma do Desejo Surrealismo de Dali

Te desejo…

(Alceu Valença)

O desejo é uma força que brota de raízes muito profundas do nosso ser, do nosso inconsciente. Às vezes eclode tão fortemente, que não conseguimos controlá-lo. É possível construir uma postura ética no desejo?

A depressão, considerada mais profunda do que a tristeza, tem recebido o apelido de “mal do século”, comprometendo as atividades do dia a dia por uma perda de interesse em todas as atividades da vida.

Nesse artigo pretendemos falar um pouco mais sobre depressão, mas em suas articulações com o desejo.

Freud construiu toda uma teoria a partir da repressão da sexualidade: por trás do desejo sexual estão todos os outros desejos. Pelo fato de o desejo sexual ser conflituoso, e pelos primeiros objetos (pai e mãe) serem proibidos, então desejar provoca angústia, e daí surge a recusa desses objetos onde investimos a libido, ou seja, nosso desejo. Nós nos sentimos culpados por transgredir nossos desejos proibidos.

Na religião, entendemos a transgressão como pecado, mas para a psicanálise, a transgressão da lei pelo desejo nos torna responsáveis, consciente ou inconscientemente, pelas nossas ações. Então a pessoa cede ao desejo transgredindo a lei pela imposição do desejo do inconsciente. A transgressão da lei pelo desejo do inconsciente vai gerar culpa.

No âmbito do desejo, o psicanalista Jacques Lacan nos coloca diante da questão ética: “Agiste conforme o desejo que te habita?” (LACAN, 1959-1960/1991, p. 376). Uma ética que não leve em conta o desejo do inconsciente não pode ser compreendida como ética da psicanálise.

O que o desejo tem a ver com a depressão? A depressão está diretamente relacionada ao desejo ou à falta do desejo. O depressivo não quer desejar. A verdade é que o depressivo recusa a realização dos seus desejos. A depressão tem tudo a ver com a angústia. E a angústia por sua vez com o vazio do inconsciente.

Na pergunta de Lacan – “Agiste conforme o desejo que habita?” – podemos compreender a depressão como uma renúncia do depressivo ao desejo. O depressivo sente desejo, mas não quer desejar.

Segundo Lacan:

“… ao longo desse período histórico, o desejo do homem, longamente apalpado, anestesiado, adormecido pelos moralistas, domesticado por educadores, traído pelas academias, muito simplesmente refugiou-se, recalcou-se na paixão mais sutil, e também a mais cega, como nos mostra a história de Édipo, a paixão do saber.” (LACAN, 1959-1960/1991, p. 388-389).

Ficamos deprimidos por não nos reconhecermos no nosso próprio desejo. Sendo o desejo conflituoso, tornamo-nos sempre insatisfeitos; daí, buscamos substituições para o preenchimento desse vazio que nasce pela renúncia do objeto de desejo amado, mas proibido.

E por não sabermos o que realmente desejamos, podemos compreender a importância do nosso vazio como regulador do desejo. É ele, o vazio, que aponta o caminho para a realização dos nossos desejos.

A proposta da ética psicanalítica é questionar e agir conforme o desejo. É pela censura, pelo recalque que nos tornamos responsáveis pelo nosso desejo, seja este inconsciente ou consciente.

Na verdade, a psicanálise propõe um “remédio” para a depressão. O remédio é que nos interroguemos sempre sobre o nosso desejo e que também sejamos responsáveis por ele. Será que conseguimos? Esse questionamento diário nos conduz a uma ética do desejo, e novamente nos coloca diante da necessidade de responder à questão: “Agiste conforme o desejo que te habita?”.

Quando a vida inventou o desejo

O desejo, num outro desejo, se transformou

O desejo não para, o desejo não cansa

É o moto contínuo que a vida inventou

(Alceu Valença)

Por Helena Chiappetta


Artigo anteriorÁrvore de Natal? Jesus Cristo, um significante da esperança…!
Próximo artigoImplicações Jurídicas do Exercício da Fé no Brasil
Maria HELENA Barbosa CHIAPPETTA Psicóloga Clínica (CRP-02/22041) Psicanalista Clínica (CORETEPE CRTP-1041-PE) FORMAÇÃO • Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional. • Especialização em Ciências da Religião. • Bacharelado em Psicologia. • Licenciatura em Pedagogia. • Licenciatura em Filosofia. • Bacharelado em Teologia. EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL • Tem experiência no ensino do Hebraico Bíblico, Psicologia Geral, Educação Religiosa, Artes, Teologia com ênfase em Ciências da Religião Aplicada e Liderança Institucional. • Professora convidada no curso de formação em psicanálise da SNTPC. Professora auxiliar do programa de pós-graduação em psicanálise e teoria analítica (Faculdade de Teologia Integrada – Fatin). Professora visitante na faculdade de Teologia Integrada FATIN (curso de teologia) ATIVIDADES PROFISSIONAIS ATUAIS • Atualmente é Docente no SEID Nordeste. • Também tem-se dedicado ao estudo das neuroses atuais e dos transtornos da aprendizagem. INFORMAÇÕES ADICIONAIS • Autora do capítulo "A psicanálise na pedagogia: a transferência como facilitador ou inibidor no processo de ensino-aprendizagem", in Rosângela Nieto de Albuquerque (org.), Neuropsicologia e Saúde Mental: Reflexões Multidisciplinares, Tarcísio Pereira Editor, Recife, 2019, p. 221-230. Mulher Destaque na Sociedade Pernambucana - Destaque Defesa Animal pelo Partido Verde (2015). Endereços: • Consultório: Empresarial Camilo Brito – Sala 802 – Rua Arnóbio Marquês 253 – Santo Amaro – Recife – PE (ao lado do Hospital Oswaldo Cruz).
Comentários