Sexta-feira passada o Rio de Janeiro viveu um dia de carnaval fora de época, ao ver o comitê olímpico internacional lhe dar o direito de sediar os jogos olímpicos de 2016. Depois de quatro tentativas frustradas o Brasil finalmente consegue a façanha de entrar no rol dos países hospedeiros, anteriormente restrito à América do norte, Europa e Ásia.

Nem todos sabem que o cinema brasileiro, que vive uma de suas melhores fases, também deu sua contribuição para que o Rio recebesse a nomeação. O nosso vídeo promocional, que todas as delegações tem que produzir e que é parte importante do pacote a ser apresentado para os delegados do COI, teve à frente ninguém menos do que o premiadíssimo diretor de cinema Fernando Meirelles.

Meirelles, depois do mega-sucesso “Cidade de Deus”, dispensa apresentações e goza de enorme prestígio junto à comunidade artística internacional. O vídeo por ele produzido é um encanto. Imagens deslumbrantes, edição primorosa e toques de poesia e brasilidade em todas as cenas. A qualidade do vídeo brasileiro pôs no chinelo até mesmo a bela produção da delegação americana, recheado também de belas imagens ao som de muito blues, gênero originário da cidade de Chicago. Mas, convenhamos, é difícil bater o Rio em termos de belezas naturais. Todos os comentaristas internacionais foram unânimes em eleger a produção de Meirelles como a melhor entre as quatro cidades candidatas.

A escolha do Rio de Janeiro me pareceu bastante justa e apropriada. Afinal nunca uma olimpíada tinha sido designada para um pais da América do sul. E de fato, Ninguém aguentava mais ver jogos olímpicos nos Estados Unidos ou na Europa. Nada mais justo, portanto, do que dar a oportunidade para o Brasil. Além disso, a economia brasileira nunca esteve tão bem e a dos paises de primeiro mundo poucas vezes esteve tão mal.

Mas, eu tenho que confessar que não estava torcendo pelo Rio. Apesar de ver os avanços sociais no Brasil, ainda acho que estamos muito longe do ideal e não entendo porque gastar quase 30 bilhões de dólares em um evento esportivo que dura apenas duas semanas. Claro que eu entendo os benefícios de se sediar um evento desse porte, como a geração de empregos, a construção de ginasios e complexos desportivos, a incrementação do turismo; mas ainda assim questiono se a relação custo – beneficio é satisfatória. Acho que temos outras prioridades

E o pior argumento de todos é daqueles que afirmam que “agora o problema da criminalidade do Rio vai ser resolvido”. Isso realmente me enoja e mostra muito do que temos de pior em nosso país. Ora, se as autoridades sabem como resolver o trafico de drogas, os assaltos, arrastões e sequestros no Rio de janeiro, por que não o fazem logo de uma vez? Por que precisamos de uma porcaria de uma olimpíada para catalizar esse processo? Resposta: corrupção no governo e falta de vontade política.

Políticos e empresários estão celebrando a escolha do Rio mais do que todos, porque sabem que terão muitas oportunidades de encher os bolsos com superfaturamentos e desvio de dinheiro publico. Enquanto o povo se esbaldava na arena montada na praia de Copacabana para acompanhar a apuração dos votos do COI, muitos empresários gananciosos já estavam fazendo as contas de quanto e de que forma poderão capitalizar com o evento. O povo reagiu exatamente como se esperava e como foi programado: alienando-se. a maioria dos que estavam lá se esbaldando nem se deu conta de que provavelmente não vão ter grana para assistir a nenhum jogo e nem usufruir do evento em si. Os veículos de comunicação certamente contribuíram muito para gerar esse clima de ufanismo. Aliás, vocês notaram como a rede Globo nem uma unica vez entrevistou algum esportista ou jornalista que fosse contrário à candidatura do Rio?

Resta agora aos cidadãos de bem do Brasil, fiscalizar os gastos e denunciar os abusos que certamente ocorrerão. Só nos resta esperar que nenhum centavo seja desviado da educação ou saúde para financiar esse mega-projeto. E que não se acabe como nos jogos pan-americanos, onde a fatura final ficou quase dez vezes acima do orçado, conta esta, paga pelos contribuintes brasileiros.

Mas pelo menos na categoria vídeo promocional, Fernando Meirelles já merece uma medalha de ouro.

Um abraço,

Leon Neto