O Brasil é um país gigante, rico e cheio de recursos naturais. Mas, por conta de diversos fatores, é também campeão em injustiça social e violência. Todos nós abrimos nossas bocas com a maior facilidade para falar mal do governo, da corrupção de nossos políticos, da ineficiência do nosso sistema educacional.

Mas de fato, com poucas exceções, nós cristãos pouco fazemos para minorar esse quadro ou promover mudanças efetivas em nosso meio social. Vejo a maioria das Igrejas mais preocupadas em implementar estratégias de marketing para aumentar a contribuição do que se envolver em trabalhos de ação social. Acho isso imperdoável em um país carente como o nosso.

Por isso fiquei extremamemte feliz ao assistir aqui nos Estados Unidos a um documentário sobre a banda “Lactomia”, filhote de Carlinhos Brown e da Timbalada. O curta-metragem, foi produzido e dirigido por David Zucker, famoso por suas comédias escrachadas como “Apertem os cintos, o Piloto Sumiu”, e “Corram que a Policia vem aí”, que foi para a Bahia em 2006 e passou vários dias documentando a rotina da Banda.

Lactomia, é um grupo de percussão, formado exclusivamente por moradores do bairro do Candeal, em Salvador, que se utilizam de material reciclável para a elaboração de seus instrumentos musicais e indumentária. Para fazer parte do grupo os componentes, em sua maioria adolescentes, tem que estar na escola, tirar boas notas e não se envolverem com gangues de rua ou drogas.

O projeto nasceu da Cabeça mirabolante de Carlinhos Brown, e funciona como uma categoria de base para o Timbalada, treinando crinças e adolescentes para no futuro ingressarem na banda principal. Mas, muito mais importante do que isso, é o serviço importante de tirar da marginalidade uma multidão de adolescentes sem grandes perspectivas e promover inclusão social e educação artística. O mestre Jair Rezende, filho também do candeal, é quem está à frente do trabalho e orienta todo o processo de coleta e tranformação dos materiais recicláveis, assim como os ensaios e treinamento da trupe. Aliás, como as crinças são lindas! Tá cheio de baianinho bonito lá no Candeal.

O filme conta com a participação de diversos antropólogos e etnomusicólogos, todos ressaltando a importância de um projeto como o do Lactomia. O fato de usarem material reciclável, retirado dos lixões, pode ser visto como uma alegoria para a própria vida daquelas crinaças que, jogadas no limbo das periferias, são também resgatadas e transformadas em individuos produtivos, da mesma forma que latas, garrafas de plástico e sacos de batata se transformam em tambores, timbales e camisetas.

Emocionei-me diversas vezes ao assitir a essa pequena pérola de pouco mais de trinta minutos de duração. Fiquei sonhando em ver coisas semelhantes sendo promovidas por igrejas evangélicas, sem prosetilismo ou segundas intenções, de ver mega-catedrais deixando de gastar dinheiro em predios pomposos e investindo mais em orfanatos e agencias de adoção, de ver corais arregaçando as mangas e entrando nas favelas para criar projetos de inclusão semelhantes, ao invés de ficarem disputando para ver quem canta mais vezes no culto noturno.

Detalhe: o terreiro de candomblé Mayamba está diretamente ligado ao projeto.

Sei que existem organizações evangélicas que desenvolvem excelentes trabalhos de ação social. A Cidade Evangélica dos Orfãos, em Moreno, Pernambuco, é uma delas. Mas, ainda estamos longe, muito longe de fazer diferença e sermos sal e luz em nosso país. Precisamos rever prioridades e lançar fora todas as coisas que nos afastam de viver um evangelho pleno e abrangente.

Um abraço,

Leon Neto