Paulo disse que haverá o dia da grande surpresa, e que será quando Deus abrir os “segredos dos corações dos homens”.

Ora, Paulo falava não do obvio [que é a certeza da maldade humana], mas, ao contrário, referia-se ao susto que se terá ante a imensa quantidade de gente de Deus que existiu fora de qualquer informação explicita ou consciente acerca da Lei de Deus ou do Evangelho (Romanos 2: 12-16).

Assim, ecoando a parábola do Joio e do Trigo no Campo do Mundo, Paulo diz que aquele que vê cara e [ou] vê apenas fotos de cenários humanos, não vê nada acontecendo no coração.

Nisto reside o grande enigma da Graça!

Os amigos de Jó olhavam o que estava acontecendo a ele, todas as suas perdas dramáticas, todas as suas dores, e pensavam: “Ele deve ter feito algo muito mau aos olhos de Deus!”

Entretanto, era justamente o oposto…

Jó estava sofrendo o que sofria por ter sido tão profundamente de Deus que isso incomodou até e, sobretudo, à Satanás. Além disso, tudo aquilo era parte de um enigma indecifrável em sua operação, pois, seria pela calamidade que Jó haveria de conhecer a Deus de modo essencial e visceral.

Isto porque antes de tudo acontecer Jó conhecia a Deus só de ouvir e de saber; daí o amar, mas, sobretudo, o temer; pois o reconhecia e de tal reconhecimento obtinha sabedoria. No entanto, após tudo o que houve, Jó foi imerso gradualmente na experiência de Deus, ao ponto de, ao fim de tudo, ele se quedar agradecido por ter passado por tudo a fim de conhecer a Deus como quem o vê.

“Agora os meus olhos te vêem”.

Às vezes alguém vê uma pessoa sofrendo muito, ou passando por aquilo que se pede a Deus que nos poupe de conhecer por experiência; e, em razão de tal observação, julga que aquilo que vê com os olhos é a ira de Deus se derramando sobre a tal pessoa, sem que saiba que nunca antes aquela pessoa tinha crescido tanto na experiência de Deus como em meio à sua dor ou dores.

Outras vezes se vê pessoas prósperas e tranqüilas aos nossos olhos, e imaginamos que elas são as simbolizações perfeitas das “bênçãos de Deus”, sem sabermos que naquela tranqüilidade aquelas pessoas estão se anestesiando, perdendo os nervos da alma; pois andam cada vez mais em sua própria força e presunção de poder e capacidade; até que chegue sobre elas a luz ou as trevas, visto que para Deus as trevas e a luz são a mesma coisa, conforme Isaías e o Salmo 139.

As trevas e a luz são a mesma coisa!…

Assim, a luz cega a Paulo e o imerge em trevas para que veja. Depois disso Paulo teve que aprender que quem vê e interpreta nem sempre interpreta o que é, mas quase sempre o que “projeta ou transfere”.

Sim! Após sua conversão ele teve que viver o resto de sua vida sendo interpretado pelos judeus como um herege, um desertor ou um louco; e pelos cristãos de Jerusalém como um ser independente e insubmisso, pois não só jamais subira a Jerusalém para pedir conselhos, como também se adiantou em entendimento espiritual em relação aos crentes híbridos da Cidade Santa, pois levou o Evangelho às implicações que os de Jerusalém não queriam, e por isso diziam que não podiam admitir.

Quem passasse e apenas visse os três crucificados [Jesus e os dois malfeitores] e nada ouvisse do que entre eles era dito e conversado, jamais iria imaginar que o do Meio era Deus e que um dos que Lhe falavam estava recebendo a promessa de já passar a primeira noite após a sua morte na terra, no Paraíso de Deus.

Ninguém sabe nada dos que nada dizem ou dos que não são ouvidos. E ninguém sabe nada porque raramente quem ouve o faz com o coração limpo de juízos.

Entretanto, na maioria das vezes, a Graça está operando no absurdo e no impensável…

Porém, enquanto isso, os homens não entendem; e julgam o bem da Graça na vida do “ser calamitoso” como sendo sinal de seu pecado; sem verem que mesmo quando o é, ainda assim, o mais ativo meio de Graça num mundo caído está em operação em meio ao que chega à pessoa como dor e como perda, embora os que observem a tal pessoa já cheguem interpretado tudo como juízo divino.

Paulo sabia o quanto os que o julgavam estavam enganados, e, por isso, transferia tal possibilidade de má interpretação a si mesmo.

Ora, essa era a razão de ele [que era um filho da misericórdia e que buscava alcançar misericórdia] transferir a mesma possibilidade de interpretação equivocada para qualquer que fosse o juízo que ele pudesse fazer acerca de todos os “mal-interpretados”. De fato, não apenas pelo que ele sabia que era a verdade, mas pela sua própria experiência com a realidade, ele cria que haveria o dia quando mesmo os pagãos mais longínquos haveriam de se tornar uma surpresa chocante para aqueles que, a distancia, os julgavam perdidos por completo. Assim como os judeus julgavam que Paulo estava perdido.

Quanta salvação acontece sob os mantos de trevas e perdições!

Quanta reconciliação humana acontece nas perdas!

Deus tem filhos que os que chamam a si mesmos “filhos de Deus” jamais admitiriam à família!

Assim, afirmo: a Graça tem enigmas que chegam aos sentidos humanos como calamidade!

A partir de mim e de muitos outros vejo como os melhores tempos com Deus quase sempre acontecem enquanto os homens pensam que estamos vivendo os piores tempos possíveis; do mesmo modo em que muitas vezes os nossos piores tempos com Deus acontecem enquanto os homens pensam que estamos vivendo nossos dias de glória.

Por isso digo a você o seguinte: sempre seja reverente ante a calamidade humana [qualquer uma e qualquer que seja], pois, mesmo que para você o espetáculo possa ser o de uma calamidade, ou mesmo de morte, ainda assim, em geral, é justamente nessas horas que as vidas das pessoas mais mudam para o bem delas mesmas.

É direito seu e meu [e mesmo um dever à sabedoria] evitarmos todas as formas de calamidade.

O sábio vê o mal e se esconde dele!…

Todavia, se algo que você não busca acontecer [mesmo que aconteça em razão de um erro seu], não trate o acontecido como algo mal para você, mas, ao contrário, abrace aquilo como disciplina e poda do amor de Deus, limpando você a fim de que você dê fruto ou dê muito mais fruto ainda.

Entretanto, nesse dia mal, agüente firme as “interpretações”; pois, se com o “justo Jó” os seus “amigos justos” fizeram como fizeram, então que não dizer de você e de mim, especialmente quando à semelhança do “bom ladrão” estamos pegando aquilo que os nossos atos merecem?

Portanto, não se deixe matar pelos “amigos” e nem pelas “interpretações” [tais coisas são piores que o diabo nessas horas]. Ao contrário, seja submisso a Deus, não faça perguntas, mas responda a tudo com a fé que se entrega pedindo que o melhor de Deus brote do caos; e não aceite que o caos tenha o carma de ser Caos para sempre; pois, de fato, é do caos que Deus principia todas as coisas novas.

Apenas creia. E qualquer que seja o caos haverá de se tornar adubo para o maior plantio da Graça divina em sua vida, isso se seu coração seguir em silencio quebrantado.

Nele, que conhece os segredos dos corações dos homens,

Caio