Há dores que aparecem no exame. Outras aparecem na vida.
Minha alucinação é suportar o dia a dia
E meu delírio é a experiência com coisas reais*
A medicina contemporânea tem nos ajudado a compreender algo que, de certo modo, a Psicanálise escuta há mais de um século: o ser humano não sofre dividido em compartimentos. Não existe um corpo de um lado e uma história do outro. Somos atravessados por experiências, vínculos, perdas, traumas, ambiente, memória e desejo. E, algumas vezes, aquilo que não encontrou palavras parece encontrar outras maneiras de se manifestar.
É justamente nesse ponto que o diálogo interdisciplinar se torna tão necessário, por exemplo, entre a Psicanálise e a Epigenética.
A fibromialgia, por exemplo, envolve dor crônica, fadiga, alterações do sono e maior sensibilidade no processamento da dor. No autismo, por sua vez, podem existir particularidades importantes na percepção de sons, luzes, texturas, temperatura e estímulos corporais. Em ambos os casos, embora se trate de condições distintas, encontramos uma questão que merece atenção: um corpo que pode permanecer demasiadamente exposto ao estado de alerta.
E o que acontece quando o alarme do organismo toca durante muito tempo?
A epigenética nos oferece uma interessante possibilidade de diálogo. Ela demonstra que possuir determinado DNA não significa que nossos genes funcionem de maneira absolutamente indiferente às experiências vividas. Fatores como estresse, alimentação, inflamação, ambiente e experiências adversas podem interferir nos mecanismos que regulam a expressão gênica. Uma dessas formas de regulação é a metilação do DNA, que não modifica a sequência genética, mas participa da maneira como determinados genes são expressos.
Gosto de pensar o DNA como uma partitura. A partitura está ali, mas a existência participa da maneira como a música será tocada.
Isso não significa afirmar que todo sofrimento emocional produzirá uma doença, muito menos reduzir condições complexas a traumas psicológicos. Significa reconhecer algo mais interessante: biologia e experiência não vivem necessariamente em mundos separados. O organismo também responde ao ambiente e à história que atravessa esse organismo.
É aí que aparece outra personagem importante: a micróglia. As células microgliais participam da defesa e da manutenção do sistema nervoso central, comunicando-se com processos ligados à imunidade e à inflamação. O problema não está em sua existência ou ativação, necessárias à proteção do organismo, mas na possibilidade de uma ativação persistente participar de estados inflamatórios e de maior sensibilização do sistema nervoso. Em uma imagem mais simples: a micróglia funciona como uma espécie de guardiã do cérebro. Protege. Vigia. Mas uma guarda que nunca abandona seu posto de alerta também pode participar do sofrimento.
Talvez possamos pensar algo semelhante a respeito da vida psíquica. Aquilo que um dia foi defesa pode continuar funcionando mesmo quando o perigo já passou.
Freud ensinou-nos que o sintoma não é simplesmente um defeito a ser eliminado. Há nele uma tentativa de solução, uma formação que procura responder a conflitos que nem sempre alcançam a consciência. Em minha própria coluna já escrevi que o sintoma pode assumir a função de comunicar aquilo que não conseguiu encontrar outro caminho de expressão.
Por isso, diante da dor crônica, a Psicanálise não deveria cometer o equívoco de dizer: “isso é psicológico”. A dor é real. O corpo é real. O sofrimento é real. A função da escuta analítica é outra: perguntar quem é o sujeito que sofre nesse corpo.
Quando essa dor aumenta? O que acontece quando essa pessoa precisa descansar? Existe culpa em parar? Quantos “nãos” deixaram de ser pronunciados? Quanto sofrimento precisou ser suportado silenciosamente para que se pudesse continuar correspondendo às expectativas do outro?
No autismo, essa questão adquire ainda outra dimensão. Há pessoas que passaram anos mascarando incômodos, imitando comportamentos socialmente esperados, suportando estímulos excessivos e tentando caber em ambientes pouco adaptados às suas necessidades. O comportamento que muitas vezes é interpretado como “difícil” pode ser justamente a linguagem possível de um corpo sobrecarregado.
É também nesse cenário que precisamos discutir o uso terapêutico da cannabis medicinal, especialmente do canabidiol, sem transformá-lo nem em vilão nem em milagreiro.
Produtos à base de cannabis vêm sendo estudados em diferentes situações clínicas relacionadas à dor, ao sono, à ansiedade e à qualidade de vida. Na fibromialgia, algumas pesquisas apontam benefícios potenciais para determinados pacientes, sobretudo na dor e no sono. No autismo, estudos com formulações ricas em CBD investigam principalmente sintomas associados, como irritabilidade, ansiedade, alterações do sono, agitação e comportamentos de autoagressão.
É importante deixar claro: cannabis medicinal não cura o autismo, porque autismo não é uma doença a ser “curada”. Também não existe uma resposta terapêutica idêntica para todas as pessoas. Seu uso deve fazer parte de um cuidado responsável, individualizado e acompanhado por profissionais habilitados.
Mas há uma pergunta que considero especialmente importante para a Psicanálise: o que se torna possível para o sujeito quando o corpo sofre um pouco menos? Às vezes, antes de elaborar um trauma, alguém precisa conseguir dormir. Antes de falar sobre a dor, talvez seja necessário que ela diminua. Antes de produzir associações, estabelecer vínculos ou reorganizar a própria vida, pode ser necessário que o organismo deixe de experimentar o mundo como ameaça permanente.
É por isso que não vejo contradição entre Psicanálise, Medicina, Neurociências e práticas terapêuticas responsáveis; ao contrário, percebo a urgência de uma clínica que abandone a disputa pela posse do paciente.
Nenhuma especialidade possui o sujeito inteiro. O médico cuida de uma dimensão; a Psicologia e a Psicanálise escutam outras. A fisioterapia, a terapia ocupacional, a nutrição e tantas outras áreas podem acrescentar diferentes possibilidades de cuidado. A cannabis medicinal, quando indicada, pode integrar essa rede. Porque a dor crônica não precisa apenas de uma explicação: precisa de cuidado integrado e reconhecimento.
Talvez seja justamente aí que ciência e Psicanálise possam se encontrar: não para que uma explique ou colonize a outra, mas para que ambas reconheçam que existe alguém para além do diagnóstico.
Alguém que sente. Alguém que sofre. Alguém que possui uma história. E, sobretudo, alguém que ainda pode desejar.
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas me interessa mais*
Talvez cuidar seja exatamente isso: não negar as marcas que a vida deixou no corpo, mas criar condições para que elas não sejam obrigadas a determinar, sozinhas, toda a música que ainda poderá ser tocada.
* Alucinação, de Belchior
Helena Chiappetta

