Realmente há impedimento na fala?

O conceito de fala é algo a ser compreendido no processo de comunicação. Segundo Vygotsky:

“o momento de maior significado no curso do desenvolvimento intelectual, que dá origem às formas puramente humanas de inteligência prática e abstrata, acontece quando a fala e a atividade prática, então duas linhas completamente independentes de desenvolvimento convergem (VYGOSTKY, 2010, p.12)”.

A partir do nascimento, (alguns estudiosos afirmam que até antes), começa-se a ouvir todos que estão próximos pelo processo de imitação. Associado com o desenvolvimento físico, inicia-se a repetição do que se ouve. Nasce a fala, no início restrita, com poucas palavras, que em geral, servem para várias situações e objetos. Tudo isso dependendo do contexto e das situações relacionadas com a linguagem.

Por esse processo a oralidade irá se transformar em linguagem simbólica, a partir do momento em que as habilidades de leitura e escrita passam a ser dominadas.

O texto de Vygostky continua tratando a fala sob o ponto de vista da fonologia, da morfologia, da sintaxe da língua e das regras de uso da linguagem, reguladoras em contextos sociais como mais importantes no que diz respeito às funções e intenções comunicativas. Veremos agora, a fala a partir da linguagem do desejo. Nesse contexto, a fala enquanto linguagem nada mais é do que um porta voz desse desejo, desejo este que ao passar pelo desfiladeiro da linguagem é nomeado. Sendo esse desejo nomeado pela linguagem, é a fala que se torna o seu porta voz.

Esta abordagem, da fala como linguagem de desejo, encontramos nos escritos do psicanalista Lacan. Nesses escritos, encontra-se, também, que a função da linguagem tem relação com a estrutura do inconsciente, abordada por Lacan em vários de seus artigos e seminários.

Lacan, 1985 p.27, “considera que o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Assim, ele coloca em cena a importância da fala.

Na leitura psicanalítica o não dito tem mais valor que o dito, pois o não dito fala mais sobre o sujeito do que propriamente o dito. Entende-se, assim, que não pode haver impedimento na fala, e consequentemente na comunicação. Assim, até o não dito, que se apresenta em forma de sintomas, pode comunicar algo bem maior, que não se utiliza do discurso oral para se fazer compreender.

Vê-se, então, que a fala, do ponto de vista cognitivo, não se faz porta voz do desejo, porque este fica subtendido, oculto na palavra, à mercê da interpretação de cada pessoa.

Helena Chiappetta

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Helena Chiappetta
Maria Helena Barbosa Chiappetta é psicóloga clínica (CRP 02/22041), 1ª vice-presidente da Associação Brasileira de Bacharéis em Psicanálise (ABBP) e integrante da Comissão Coordenadora de Análise e Supervisão da mesma instituição; psicanalista clínica pela ABBP e ABRAPSI; avaliadora datista pela CORETEPE (CRTP-1041); e escritora. Sua trajetória reúne clínica, docência e escrita, com olhar voltado às neuroses atuais e às relações entre psicanálise, educação e experiência simbólica. Especializou-se em Neuropsicologia; Psicanálise, Psicopatologia e Saúde Mental; Terapia Familiar; Arteterapia; Psicopedagogia Clínica e Institucional; e Ciências da Religião. É licenciada em Letras, Pedagogia e Filosofia, bacharela em Teologia e bacharela em Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais, formações que sustentam uma prática interdisciplinar e sensível às dimensões subjetivas do contemporâneo. Atua como professora convidada no Curso de Formação em Psicanálise da SNTPC e no Programa de Pós-Graduação Lato Sensu em Psicanálise e Teoria Analítica da FATIN, com experiência docente em Hebraico Bíblico, Psicanálise e Teoria Analítica, Educação Religiosa, Artes e Teologia, com ênfase em Ciências da Religião Aplicada e Liderança Institucional. É colunista do Portal Folha Gospel, onde escreve sobre saúde emocional, cultura e espiritualidade. E-mail: helena.chiappetta@icloud.com Instagram profissional: @h.chiappetta Espaço Livre Mente: @espacolivre_mente
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