Nos últimos 30 anos, as mulheres aumentaram sua presença em ocupações tradicionalmente masculinas. O inverso, no entanto, não ocorreu, e profissões que sempre foram consideradas femininas permanecem com baixos percentuais de homens atuando.

A constatação é da pesquisadora Regina Madalozzo, do Insper, que comparou na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE) o percentual de mulheres em 21 ocupações entre 1978 e 2008.

No final da década de 70, menos de um quinto dos advogados e médicos eram mulheres. Hoje, elas são quase metade dos profissionais dessas áreas.

Algumas carreiras seguem altamente masculinas, mas, mesmo nelas, é possível identificar aumento da participação feminina. Entre engenheiros, por exemplo, a proporção foi de 5% para 11%. Entre policiais e detetives, de 2% para 13%.

Se elas demonstram vontade e capacidade de atuar em ocupações onde eram minoria, o mesmo não se pode dizer dos homens em relação a áreas majoritariamente femininas.

Em 30 anos, houve pouca ou nenhuma alteração nos percentuais masculinos de enfermeiros, professores, profissionais de creche ou costureiros.

“Embora ganhando menos que os homens nas mesmas ocupações, as mulheres estão entrando em áreas tradicionalmente masculinas. Eles, no entanto, não aceitam, ou não são bem aceitos, em profissões dadas como femininas”, afirma Regina Madalozzo.

Ela explica que o perfil mais feminino de algumas ocupações é explicado pela similaridade dessas funções com o trabalho doméstico. “As mulheres entraram no mercado em profissões relacionadas ao cuidado. Isso era entendido como extensão do que faziam em casa.”

Salários

A desigualdade entre salários de homens e mulheres diminuiu no Brasil nos últimos 30 anos, mas o diferencial é, quase sempre, a favor dos homens.

Dados tabulados pela Folha a partir da Pnad de 2008 mostram que, de um total de 61 ocupações analisadas, em apenas seis o rendimento das mulheres por hora de trabalho superava o de homens.

Mesmo em profissões em que a participação masculina é inferior a 20%, o rendimento delas é, em média, menor.

Secretários do sexo feminino, por exemplo, representam apenas 7% do total, mas recebem por hora 32% a mais que mulheres na mesma profissão.

Nas poucas áreas em que as mulheres têm rendimentos maiores, Regina Madalozzo explica que, frequentemente, isso ocorre porque o nível de escolaridade delas é superior ao dos homens na mesma profissão.

Um exemplo disso pode ser constatado entre guardas e vigias, ocupação em que as mulheres são apenas 5% do total.

O rendimento médio por hora de trabalho delas é 10% superior ao de homens. Mais da metade (53%) dessas profissionais têm ao menos nível médio completo. Entre homens, esta proporção não passa de 31%.

Trabalho em casa ainda fica sob cuidado feminino

Se resistem a ocupar postos de trabalho considerados femininos, homens apresentam ainda mais dificuldade em dividir afazeres domésticos.

A aversão masculina a tarefas como limpar a casa, cozinhar, lavar roupa ou cuidar dos filhos é verificada em todas as classes, como mostram os dados da Pnad, tabulados pela Folha.

Considerando apenas pessoas que estavam empregadas em 2008, mulheres dedicavam, em média, 18 horas semanais para essas tarefas. Os homens, apenas quatro horas semanais.

Entre trabalhadores de baixíssima instrução, a média de trabalho feminino é de 24 horas semanais. Para homens desse grupo, a média é de quatro horas. Mulheres com nível superior e renda acima de 20 gastam sete horas semanais. Já os homens dessa faixa, apenas três horas semanais.

Mudanças de papéis causam estranheza

Quando começou a dirigir ônibus no Rio, há nove anos, Maria Aparecida Lemos, 40, reparou que alguns passageiros faziam sinal para que ela parasse, mas, ao vê-la, não subiam.

Ela se lembra especialmente de um desconfiado senhor que nunca aceitava entrar no veículo. Até que um dia, talvez distraído, subiu no ônibus e virou passageiro frequente.

Mulheres motoristas ainda são minoria -o crescimento de 1978 a 2008 foi de 0,2% para 1,4%-, mas a cena, aos poucos, vai se tornando mais comum.

Mesmo assim, chamam a atenção. Maria Machado, 33, companheira de sua xará na viação Real, conta que, no Carnaval passado, turistas pediram para tirar uma foto ao vê-la ao volante.

Na Real, mulheres são apenas 14 num universo de 850. Cláudio Callak, diretor da empresa, afirma que, se pudesse, contrataria mais. “Elas se envolvem menos em acidentes.”

Homens que fazem o movimento oposto e ingressam em carreiras tradicionalmente femininas também contam história de estranhamento e, às vezes, preconceito.

Perseu Silva, 23, é o único professor homem na educação infantil da Escola Parque, no Rio. “O máximo que percebi foi um estranhamento por parte de alguns pais. Mas todos me acolheram bem.”

Marcelo Bueno, 33, diretor da escola Estilo de Aprender, em São Paulo, também diz que não foi vítima de preconceito quando era professor na educação infantil. Talvez por isso sua escola tenha padrão raro: a maioria dos professores é homem. “Quando [os pais] percebem que o professor é capacitado, se tranquilizam”, conta.

Fonte: Folha de São Paulo