Cristãos em Paris, capital da França.
Cristãos em Paris, capital da França.

Silvano Mendes
RFI

A revista semanal do jornal Aujourd’hui en France traz uma longa reportagem sobre a presença crescente das igrejas evangélicas na periferia de Paris.

O texto explica que um novo templo abre a cada dez dias na França e que mais de 200 locais de culto funcionam no norte da capital, um número que já ultrapassa o das igrejas católicas ou das mesquitas.

A reportagem de seis páginas apresenta uma série de igrejas evangélicas que atraem cada vez mais fieis na região de Seine-Saint-Denis, no norte de Paris. Mesmo se cerca de 100 templos estão registrados oficialmente na região, o texto aponta que o número real de locais de culto pode ser o dobro, já que muitos pastores não registram suas igrejas criadas de forma improvisada, até mesmo dentro de casa.

“Os cultos podem ser apenas reuniões esotéricas dentro de apartamentos, garagens e porões, mas também podem acontecer em estádios, como shows dignos de estrelas americanas”, enumera a reportagem. Um dos exemplos apresentados é o da igreja Charisma, uma das maiores da região. A cada domingo, ela reúne mais de 4000 fiéis vindos dos arredores da capital, que rezam em um galpão gigante, equipado com dezenas de telões.

Estima-se que a França tenha cerca de 650 mil evangélicos, e mais de um terço deles têm menos de 30 anos, anuncia a revista. Segundo a reportagem, “o sucesso dessas igrejas nas periferias francesas é acima de tudo o reflexo da chegada de migrantes, que desembarcam no país com sua fé e seus costumes”.

Vários templos se construíram como pequenas comunidades ligadas por uma nacionalidade ou um idioma em comum. Isso faz com que, até hoje, algumas igrejas sejam conhecidas por receber fiéis vindos sempre de um mesmo país.

Falta de controle e abusos

O controle das igrejas é muito difícil, explica a revista, já que os locais de culto abrem e fecham rapidamente “de maneira um pouco anárquica”. Como existem poucas estruturas para regulamentar a atividade dos evangélicos, “qualquer fiel mais carismático pode se apresentar como pastor”, afirma o texto.

O resultado dessa falta de fiscalização é o aumento de relatos de abusos, como as dezenas de casos de estupros, exorcismo, fraudes e terapias de conversão para homossexuais registrados em algumas igrejas. A revista aponta que 120 queixas foram feitas contra pastores evangélicos apenas em 2018.

Desde 2010, a França possui um Conselho Nacional dos Evangélicos (Cnef, na sigla em francês). O organismo tenta regulamentar a atividade e, segundo Daniel Liechti, um de seus representantes ouvido pela reportagem, busca “afastar os grupos pseudo-evangélicos e os pastores autoproclamados”.

Diferente do Brasil

O Cnef também faz questão de dizer que os evangélicos da França não tentam se envolver em política, “como é o caso nos Estados Unidos e no Brasil”. Porém, ressalta o texto, na França o fato de tentar converter alguém a uma religião é visto como algo suspeito. E o proselitismo é um dos princípios dos evangélicos, pontua a revista.

Essa tentativa de atrair novos fiéis é visível nas saídas das estações de trens de periferia, com pastores distribuindo panfletos, café e pedaços de bolo, mas também por ações de alfabetização e distribuição de roupas ou alimentos. Um tipo de ação muito parecida com a efetuada pelas entidades muçulmanas.

A concorrência entre os pastores e os imãs nas periferias, aliás, é outro ponto levantado pela reportagem, já que muitos muçulmanos estariam se tornando evangélicos. Segundo o Cnef, eles já seriam entre 10% e 20% dos novos convertidos, aponta a revista semanal do jornal Aujourd’hui en France.

Fonte: RFI