Sem “remédio” eficaz, a crise política e ética que infesta o país em todos os níveis governamentais virou forte munição para “alimentar” cada vez mais os sermões dos padres e pastores evangélicos.

As homilias das missas católicas já eram condimentadas com componentes de reflexões sociais, mas com o recrudescimento da corrupção o clero decidiu investir com mais afinco na conscientização política, mas com o cuidado de não partidarizar o discurso.

“Como filho de Deus, o homem tem que ser tratado com dignidade, tem que ter o básico necessário para sobreviver”, diz padre Beto, da Paróquia Sagrado Coração. Ele assume com tranqüilidade que seus sermões são cada vez mais politizados.

“É preciso fazer as pessoas pensarem mais na estrutura política e econômica do nosso país. Há milhões de brasileiros que não levam uma vida digna”, comenta.

O religioso, nas suas homilias, reforça aos fiéis presentes nas missas a necessidade de fiscalizar o Estado em todos os níveis governamentais.

“Os cidadãos devem se informar para onde vai o dinheiro dos impostos, se o governo fomenta as oportunidades de emprego. É necessário saber o que o prefeito, a prefeitura e os vereadores fazem. Isso é uma obrigação religiosa”, arremata.

Ele reforça que no Concílio Vaticano II (documento de renovação dos pensamentos católicos elaborado entre 1962-1965) deixa claro que a Igreja Católica é uma força ética. “Toda visão de Deus gera uma ética. E a ética deve levar a todas as dimensões”, prega.

Para arrematar, padre Beto lembra que Jesus Cristo foi um cidadão altamente politizado.

“Morreu na cruz porque deve ter criticado o império romano e a aliança selada entre a cúpula de Jerusalém e os líderes romanos.”

‘Bater nos políticos é muito fácil’

Amaldiçoada por grande parte da população – consciente ou não –, a banda podre da classe política brasileira é alvo do clero, que também cobra uma ação mais efetiva e prática dos fiéis no combate aos atos de corrupção.

“Bater nos políticos é muito fácil. É preciso mostrar porque eles são corruptos”, diz Boaventura Barron, padre da Paróquia São Sebastião.

“São corruptos porque nas suas famílias nunca se falou em honestidade”, afirma.

Ele está convicto da importância da Igreja Católica continuar sua missão em busca da conscientização política e social de seus fiéis.

“É preciso iluminar a vida política, que é essencial para todos nós. A palavra de Deus se orienta muito nesse sentido para se viver plenamente a justiça”, comenta.

Para pároco, é preciso ‘transformar a pessoa’

Na opinião do padre José Bringas, pároco da São Sebastião, as homilias devem ser reservadas para a leitura do Evangelho, sem contextualizações com o panorama do mundo atual.

“O que precisa ser buscado é a transformação da pessoa e de seus atos errados”, argumenta. “Ou seja: mostrar dentro do contexto do outro a importância da dimensão social para motivar a reflexão e mudança”, prega.

Escrita do Evangelho é contextualizada para exemplificar a realidade atual

A politização dos sermões nas missas é sustentada por meio de passagens bíblicas do Evangelho.

A crise institucional e ética enraigada na cultura política brasileira há décadas é comentada nas missas católicas sem nominação e partidarização.

As citações ocorrem por meio de ilustrações bíblicas e e dos textos do Evangelho.

Padre Milton César Carraschi, da Paróquia São José Trabalhador – região da Vila Industrial –, diz que freqüentemente emplaca nas suas homilias a interpretação de passagens evangélicas na confrontação com os fatos sociais da atualidade.

“O Evangelho não é deslocado. Sua interpretação é sempre contextualizada, é aproximada com os dados atuais”, comenta.

Na avaliação dele, a Igreja Católica não deve se pender somente para o discurso espiritualista.

Pastores preferem eventos pontuais e ações sociais

Na avaliação do presidente do Conselho de Pastores Evangélicos de Bauru e Região, Edson Valentim, o reforço e o empenho no despertar da consciência política dos cristãos de um modo geral é uma realidade.

Embora durante alguns sermões os pastores evangélicos façam intervenções pontuais sobre a realidade política e econômica do país, Valentim explica que o mais importante para reverter o estado anti-ético que dá sinais de consolidação é a transformação da sociedade.

“As igrejas evangélicas trabalham para transformar os cidadãos e as cidades. Para isso, é preciso haver uma transformação espiritual e social”, prega. Para Valentim, os cristãos precisam entender que as mudanças não vão ocorrer simplesmente porque as igrejas estão cheias. “Precisamos transformar a cidade para que ela fique sem andarilhos, transformar os cristãos para pôr fim ao divórcio e estruturar as famílias, acabando com a apreensão de drogas e oferecendo mais saúde e educação”, aponta.

Na opinião do presidente do conselho, os eventos e ações sociais surtem mais efeitos na busca de uma sociedade mais justa e igualitária.

Para reforçar essa conduta de ações pontuais para despertar a consciência social nos fiéis, a entidade encerra hoje à noite o 1º Congresso Apostólico Profético. Cerca de 1,2 mil pessoas de todo o estado marcam presença no evento, que também conta com a participação do pastor Rony Chaves, da Costa Rica.

Fonte: Jornal Bom dia Bauru