
Em meio a um cenário de incertezas sobre o apoio do segmento evangélico à sua pré-candidatura presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) intensificou sua agenda com visitas a importantes igrejas pelo país. O objetivo é consolidar a adesão de líderes e fiéis para a corrida eleitoral de 2026, buscando evitar divisões que poderiam prejudicar sua campanha.
A movimentação de Flávio Bolsonaro surge após um episódio que chamou a atenção do mundo político e religioso: o apoio declarado do bispo Samuel Ferreira, líder do Ministério de Madureira — uma das maiores correntes da Assembleia de Deus —, a Ronaldo Caiado (PSD). Esse endosso, divulgado em vídeo durante o lançamento da pré-candidatura de Caiado, surpreendeu muitos, especialmente porque, dias antes, deputados ligados à mesma denominação em São Paulo haviam migrado do PSD para o PL, indicando uma possível aliança nacional com Flávio.
Diante deste cenário, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro, o “filho 01” de Jair Bolsonaro, está organizando uma série de visitas às igrejas mais influentes do meio evangélico. A estratégia visa demonstrar proximidade e garantir o engajamento do segmento, que representa um eleitorado expressivo.
Estratégia de aproximação e alianças
O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder da legenda na Câmara e pastor licenciado da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, tem sido um dos articuladores desses encontros. Ele explica que o critério para a ordem das visitas segue o ranking do IBGE de 2010, que lista os maiores grupos evangélicos do Brasil. “Eu fiz um trabalho para a aproximação do Flávio com o segmento, por ordem de tamanho e de grandeza. Eu peguei todo o planejamento e falei: ‘vamos sentar com cada um desses líderes denominacionais’”, declarou Cavalcante, lembrando de falhas passadas onde falta de parametrização levou a descontentamentos.
As próximas agendas programadas incluem visitas à Igreja do Evangelho Quadrangular, a terceira maior denominação do país, e a membros da Igreja Batista, um grupo tradicional que foge do espectro das igrejas pentecostais. Um evento nacional com a Congregação Cristã, considerada a segunda maior igreja pentecostal, mas sem liderança centralizada, também está em planejamento. Além disso, no dia 3 de maio, Flávio Bolsonaro comparecerá a um encontro da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, igreja ligada ao próprio Sóstenes Cavalcante e ao pastor Silas Malafaia.
Tensões e desafios no diálogo com o segmento
Apesar dos esforços de aproximação, circulam nos bastidores queixas de algumas lideranças evangélicas sobre uma suposta falta de diálogo por parte de Flávio Bolsonaro, com relatos de que o senador estaria deixando de atender parlamentares e representantes de igrejas. Essa postura tem sido interpretada por alguns como um sinal de arrogância, sugerindo que a campanha acredita em um apoio automático do segmento.
Um membro da bancada evangélica, falando sob reserva, expressou preocupação: “Não sei o que pode acontecer daqui para frente, mas tem um versículo na Bíblia que diz que a arrogância precede a ruína. A pessoa acha que já está tudo ganho e não está”.
Um exemplo dessas tensões ocorreu durante a visita à Assembleia de Deus Ministério do Belém, em 6 de abril. O deputado federal Marco Feliciano (PL-SP), ligado ao Ministério Catedral do Avivamento, também da Assembleia de Deus, pediu a palavra para expor queixas sobre o não cumprimento de um acordo feito com o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022. Na ocasião, esperava-se que o PL indicasse Feliciano como candidato ao Senado por São Paulo, algo que lideranças evangélicas cogitam para o pleito deste ano.
Perspectivas e articulações futuras
O pastor Silas Malafaia, uma figura influente na Assembleia de Deus e próximo da família Bolsonaro, acredita que a maioria das denominações apoiará Flávio. Ele minimiza o impacto do apoio do Ministério de Madureira a Ronaldo Caiado, classificando-o como uma questão de preferência política dentro da direita. “Acredito que o Flávio vai levar o maior quinhão do mundo evangélico”, afirmou Malafaia, destacando que a Convenção Geral das Assembleias de Deus é a maior organização evangélica do país.
Existem especulações sobre os motivos que levaram o bispo Samuel Ferreira a apoiar Caiado. Entre elas, estaria a insatisfação por não conseguir emplacar um nome para o Senado em São Paulo — Feliciano e Cezinha de Madureira eram cotados — ou o interesse em indicar um vice na chapa de sucessão de Caiado em Goiás, estado com forte presença do Ministério de Madureira. Outras lideranças observam que o Ministério de Madureira pode estar buscando manter relações com diferentes espectros políticos, sinalizando ao bolsonarismo com a migração de deputados para o PL, ao centro com o apoio a Caiado e até à esquerda, com o apoio à indicação do Advogado-Geral da União, Jorge Messias, ao STF, feita pelo presidente Lula.
Apesar das complexidades, aliados como Sóstenes Cavalcante e Silas Malafaia continuam articulando para garantir que Flávio Bolsonaro participe de eventos do Ministério de Madureira. “Te garanto que Flávio estará lá”, assegura o líder do PL na Câmara, demonstrando confiança na superação dos atuais desentendimentos e na consolidação do apoio evangélico.
Fonte: Metrópoles
