Juan Manuel Esquivel (E) prega um apartamento do bairro pobre de El Chorrillo, no Panamá
Juan Manuel Esquivel (E) prega um apartamento do bairro pobre de El Chorrillo, no Panamá

Eles vão de casa em casa, Bíblia na mão, percorrendo El Chorrillo, um bairro pobre da Cidade do Panamá, para tentar converter os jovens católicos que se encontram na capital panamenha por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, evento com jovens católicos que iniciou neste quarta-feira, 23 e que terá a presença do papa Francisco.

Roberto Rodríguez, é um ex-católico de 20 anos, diz que Deus o tirou de um “mundo onde ele não queria estar”: drogas, álcool e confusões.

“Eu estava perdido”, confessa Roberto à AFP.

Neste bairro, as igrejas competem pelo fervor dos jovens que são vítimas, ou integram as gangues que lutam pelo controle de blocos de edifícios coloridos e deteriorados.

O jovem ajudante de supermercado parece entrar em transe junto aos pregadores que o acompanham para transmitir a mensagem de seu Deus, diz a reportagem da agência AFP.

“Digam amém”, pede Juan Manuel Esquivel, que se declara “reformado” depois de passar 28 de seus 50 anos
Bíblia na mão na prisão.

“Amém!”, responde Roberto, fervorosamente.

Concorrência

El Chorrillo é um bairro icônico por ter sido devastado pela invasão dos Estados Unidos ao Panamá em 1989 e também é um exemplo da perda de território da Igreja de Roma no continente com o maior número de católicos.

Foi precisamente a histórica influência norte-americana sobre este país – os Estados Unidos, de maioria protestante, encorajaram sua independência em 1903 para construir uma rota interoceânica – que proporcionou a expansão evangélica, explicam especialistas.

Lá, as igrejas protestantes, como Hosanna, multiplicaram sua influência por intermédio de uma rede de pregadores.

Em torno da Igreja Católica de Nossa Senhora de Fátima, existem seis centros evangélicos entre locais de oração, ou de orientação para os jovens, bem como cozinhas que distribuem sopa.

Segundo os moradores, os evangélicos começaram a proliferar há 15 anos. Eles já são 19% dos quatro milhões de habitantes no Panamá.

É uma verdadeira competição com a Igreja católica, afirma a especialista Claire Nevache em um relatório do centro de de estudos de iniciativas democráticas Cidem.

Exceto pela polícia, a presença do Estado é precária. As igrejas preenchem as lacunas deixadas por famílias desestruturadas, pela falta de escolas e pela violência juvenil.

Além do desemprego, a violência grassa entre os jovens.

No Panamá, mais da metade das 440 vítimas de homicídios em 2018 tinham menos de 30 anos, segundo dados oficiais. Desse total, 25% eram homens com menos de 25 anos de idade.

Bíblia na mão

Os evangélicos cresceram muito entre os jovens com uma estratégia simples, mas eficiente: sair em busca deles, em vez de esperar sua ida ao templo.

“É preciso ir ao beco, à escadaria, à casa. Deixar o jovem sentir que você se importa com ele”, explica a pastora Dalia Viveros, que dirige as escolas da “Cidade do Louvor”.

“Onde há pobreza, marginalização, igrejas evangélicas oferecem uma experiência de fé em um Deus efervescente”, comenta o padre Jonathan Vásquez.

“Eles estão se espalhando”, admite o pároco de Nossa Senhora de Fátima.

Anexada à igreja, uma escola e um orfanato apoiado pela Igreja alimentam cerca de mil crianças diariamente.

Competir com os evangélicos é, porém, complicado e até mesmo hostil.

“Há tensão, confronto, porque se trata de impor quem tem a verdade e quem está certo, com a Bíblia na mão”, diz Vásquez.

Fonte: AFP via Yahoo