Imagem da santa católica Nossa Senhora Aparecida ao lado do candidato a presidente Flávio Bolsonaro. (Foto: Reprodução)
Imagem da santa católica Nossa Senhora Aparecida ao lado do candidato a presidente Flávio Bolsonaro. (Foto: Reprodução)

Boato de que candidato retiraria título de padroeira do Brasil circulou nas redes, mobilizou eleitores católicos e acabou no centro de uma disputa judicial sobre liberdade de expressão

Uma notícia falsa envolvendo Flávio Bolsonaro (PL) e Nossa Senhora Aparecida ganhou força nas redes sociais nesta semana e passou a integrar a disputa eleitoral de 2026. A mensagem afirmava que o candidato à Presidência pretendia, caso fosse eleito, retirar da santa o título de Padroeira do Brasil.

Não há registro de proposta ou declaração de Flávio Bolsonaro nesse sentido. A informação, entretanto, se espalhou rapidamente por redes sociais e grupos de mensagens, provocando reações entre eleitores católicos e levando a campanha do candidato a recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Segundo levantamento da empresa Palver, citado pela Folha de S.Paulo, cerca de 37% das mensagens analisadas trataram a narrativa como verdadeira, em conteúdos acompanhados por manifestações de indignação de católicos e pedidos de voto contra Flávio. O levantamento considerou publicações no Instagram, X, TikTok e Kwai, além de grupos públicos do WhatsApp e Telegram.

Como o boato começou

A circulação da informação ganhou impulso depois de uma referência feita pela jornalista Maria Cristina Fernandes, da GloboNews, a um suposto movimento dentro da Igreja Católica relacionado à possibilidade de retirada do título de Nossa Senhora Aparecida.

Posteriormente, a emissora fez uma retratação e esclareceu que a informação estava relacionada a um projeto de lei apresentado em 2007, que havia sido arquivado no ano seguinte e não tinha relação com Flávio Bolsonaro.

O projeto mencionado havia sido apresentado pelo então deputado federal Victorio Galli, de Mato Grosso, e acabou arquivado em 2008. À época, Flávio Bolsonaro era deputado estadual no Rio de Janeiro e, portanto, não tinha atuação sobre a proposta apresentada no Congresso.

Mesmo após a correção, o conteúdo continuou circulando. Montagens, cards e publicações passaram a associar o episódio ao atual candidato do PL.

Flávio nega e diz que informação é falsa

Flávio Bolsonaro reagiu à repercussão e negou qualquer intenção de alterar o status de Nossa Senhora Aparecida.

Em vídeo publicado nas redes sociais, afirmou:

“Isso é uma grande mentira, não tem pé nem cabeça, não existe esse projeto”.

No dia seguinte, voltou ao assunto e declarou:

“Isso é uma fake news e não existe absolutamente nada de concreto, nem projeto”.

O candidato também afirmou que é evangélico e que respeita outras tradições religiosas:

“Jamais faria isso. Todos sabem que eu sou cristão, sou evangélico, mas que eu respeito todas as religiões.”

A campanha passou a tratar a circulação do boato como um problema eleitoral. Segundo a equipe de Flávio, a informação teria sido utilizada para prejudicá-lo entre eleitores católicos.

Dados da Palver indicaram que o assunto atingiu seu pico em 25 de setembro. Nas redes sociais, foram registradas 735 menções para cada 100 mil mensagens naquele dia. A análise também apontou que a maior parte das mensagens com posicionamento era crítica ao candidato.

Alckmin entra na discussão

A repercussão também chegou à campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O vice-presidente e candidato à reeleição na mesma chapa, Geraldo Alckmin (PSB), publicou um vídeo direcionado ao eleitorado católico.

Embora não tenha citado diretamente Flávio nem o boato, Alckmin afirmou que as tradições religiosas seriam preservadas durante um eventual novo governo.

“Tenho recebido mensagens de católicos preocupados com os rumos do país e com as notícias lamentáveis que estão circulando desde o dia de ontem. Preciso esclarecer que, enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando este país, as tradições religiosas, tão sagradas para as famílias brasileiras, estarão protegidas e preservadas”.

Em seguida, acrescentou:

“Defendemos que o Brasil é um país que tem respeito por todas as religiões. E capaz de conservar, pacificamente, as tradições católicas”.

A manifestação foi interpretada pela campanha de Flávio como parte da exploração política do episódio. O caso passou, assim, a envolver não apenas a desinformação sobre a santa, mas também a disputa pelo eleitorado religioso.

Lula também comenta o episódio

No domingo (27), Lula foi questionado sobre a controvérsia em entrevista à BandNews. O presidente afirmou que não sabia dizer se a informação era falsa, embora o assunto já tivesse sido identificado como desinformação em reportagens e pela própria GloboNews.

“Eu não sei se foi fake news. O dado concreto é que isso está na rede social muito forte.”

Lula também afirmou que Nossa Senhora Aparecida continuará sendo a padroeira do Brasil e defendeu o respeito entre as religiões.

Durante a entrevista, o presidente relembrou ainda o episódio de 1995 conhecido como “chute na santa”, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão.

Caso chega ao Tribunal Superior Eleitoral

Diante da repercussão, a campanha de Flávio Bolsonaro acionou o TSE. O ministro André Mendonça determinou, na sexta-feira (25), que as plataformas retirassem publicações que apresentassem como verdadeira a informação sobre a suposta retirada do título de padroeira.

Na decisão provisória, Mendonça classificou a informação como “notoriamente inverídica” e determinou que as plataformas atuassem preventivamente para impedir a disseminação de conteúdos com a mesma alegação. O descumprimento poderia resultar em multa de R$ 50 mil por dia para cada provedor.

A decisão também determinou que as plataformas informassem quais providências haviam adotado e quantas publicações foram removidas. Conteúdos jornalísticos e materiais destinados a desmentir a informação falsa ficaram fora da determinação.

A campanha de Flávio pediu ainda que fossem identificados os responsáveis por perfis anônimos que haviam publicado o conteúdo.

Dino derruba decisão de Mendonça

Dois dias depois, porém, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), anulou a decisão de Mendonça em resposta a um pedido apresentado pelo ator Antônio Tabet, que havia tido uma publicação removida.

O post de Tabet não citava diretamente Flávio Bolsonaro. Segundo a decisão de Dino, não havia grau suficiente de certeza para determinar a remoção do conteúdo com base na associação entre a expressão utilizada pelo ator e o candidato.

Dino afirmou que a decisão anterior poderia atingir também manifestações religiosas e discussões sobre o tema. Para o ministro, debates sobre ideias religiosas não deveriam ser impedidos por decisões judiciais desproporcionais.

A decisão restabeleceu a publicação de Tabet e, segundo a reportagem da Folha, alcançou também outras postagens que haviam sido removidas pelo mesmo fundamento.

A campanha de Flávio reagiu negativamente e acusou Dino de atuar politicamente em favor de Lula. A defesa do candidato também questionou a competência utilizada na decisão. Essas são alegações da campanha, e não conclusões judiciais sobre a atuação do ministro.

O que a polêmica revela sobre católicos e evangélicos

O episódio também trouxe para o debate eleitoral uma diferença teológica entre católicos e evangélicos.

Segundo especialistas ouvidos pela Folha, os evangélicos reconhecem Maria como mãe de Jesus, mas não atribuem a ela a mesma função de intercessão existente na tradição católica. No protestantismo, santos não são objeto de culto ou veneração.

A pesquisadora Magali Cunha, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), explicou que, na compreensão evangélica, Maria é valorizada como “serva de Deus”, mas não como mediadora entre Deus e os seres humanos.

Essa diferença ajuda a explicar por que a associação de um candidato evangélico a uma suposta iniciativa contra o título de Nossa Senhora poderia produzir repercussão particularmente forte entre eleitores católicos. No entanto, as reportagens consultadas não identificam qualquer proposta atual de Flávio Bolsonaro para retirar o título da santa.

Disputa religiosa ganha espaço na eleição

O episódio ocorre em um cenário no qual religião e política têm ocupado espaço relevante na campanha presidencial. A circulação do boato aproximou ainda mais o debate eleitoral das diferenças entre católicos e evangélicos e levou candidatos, campanhas, líderes religiosos e integrantes do Judiciário a se manifestarem.

A disputa também resgatou outro tipo de desinformação religiosa que já atingiu Lula em eleições anteriores. Segundo análise publicada pela Folha, há décadas circulam boatos de que o petista pretende fechar igrejas ou perseguir cristãos. O jornal relaciona esses episódios ao uso do medo religioso como elemento de mobilização eleitoral.

No caso atual, entretanto, o ponto central permanece sendo uma informação falsa sobre Nossa Senhora Aparecida e Flávio Bolsonaro, que se espalhou pelas redes, provocou reação da campanha, gerou decisões judiciais divergentes e passou a ser utilizada no discurso eleitoral de diferentes grupos.

Com a decisão de Dino no domingo, o episódio ganhou ainda uma dimensão jurídica envolvendo os limites entre combate à desinformação, liberdade de expressão e liberdade religiosa.

Fonte: Folha de S. Paulo

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