Jogo de bets (Foto: Canva Pro)
Jogo de bets (Foto: Canva Pro)

Aliança entre alas conservadoras e progressistas busca frear o impacto social das plataformas de apostas e cassinos digitais no país

Organizações da sociedade civil cristã lançaram nesta terça-feira (22) a Carta Compromisso: Cristãos Contra Bets, um documento que articula uma frente inédita entre diferentes espectros políticos da fé. A iniciativa coloca em evidência os custos humanos e financeiros do vício em jogos online, citando impactos que incluem depressão, aumento de taxas de suicídio e o endividamento severo das famílias. Segundo dados reunidos pelo grupo, os danos sociais superam as receitas arrecadadas pelo setor em 2025.

Assinado por entidades como Justiça Pública, Aliança Evangélica, Associação Brasileira Cristãos na Ciência e Médicos de Cristo, o texto sublinha a importância da união em prol da proteção familiar. “A proteção da família e do próximo é um princípio cristão. Antes de qualquer divisão doutrinária, tradição eclesiástica, visão política ou sobretudo cálculo eleitoral, somos o povo que aprendeu que o amor (a Deus e ao outro) é a síntese de nossa fé”.

Pressão por regulação no cenário eleitoral

O objetivo do movimento é instituir um pacto com candidatos à Presidência, exigindo medidas concretas, como o bloqueio de sites clandestinos e a proibição de utilizar o Bolsa Família e outros benefícios sociais em apostas. O presidente do Justiça Pública, Danilo Erly, reforça o caráter suprapartidário da medida. “O objetivo é apresentar o compromisso ao próximo presidente, independentemente de quem seja. Esse tema precisa ser central nesta campanha e hoje está acessório. Sabemos que conta com um lobby poderoso, e por isso mesmo o período eleitoral é o momento ideal para que a sociedade levante sua voz e seja ouvida.”

As campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) estão entre as priorizadas para a entrega da carta. A preocupação é corroborada por pesquisas, como a realizada pelo PoderData em setembro de 2025, que indicou que 41% dos evangélicos e 34% dos católicos já realizaram apostas em plataformas online.

Vulnerabilidade e a busca por recuperação

Relatos de fiéis ilustram a destruição patrimonial e emocional causada pela compulsão por jogos. Armando, 29, fiel de uma igreja carioca, descreveu o processo como um ciclo destrutivo. “Você acha que, por ser crente, ser um cara correto, Deus vai te dar essa moral para ganhar. Essas coisas destroem a família. Exatamente o que o diabo quer.”

O problema tem levado instituições religiosas a buscarem apoio especializado. Em Novo Hamburgo (RS), a congregação luterana do pastor Lucas Graffunder passou a sediar reuniões do Jogadores Anônimos. A adesão cresceu de 15 pessoas em 2025 para cerca de 70 por semana um ano depois. Para o pastor, a abordagem dentro das comunidades exige cautela. “A vergonha pode dificultar muito o primeiro pedido de ajuda. Precisamos ter cuidado com a maneira como falamos do assunto dentro das igrejas. Reduzir o vício a uma simples falta de fé pode afastar justamente quem precisa.”

Vozes de diferentes espectros

A repulsa à indústria das apostas ecoa em diversas lideranças. O apóstolo Estevam Hernandes, da Renascer em Cristo, classifica o fenômeno como “um verdadeiro câncer na nossa sociedade”. Na outra ponta do espectro político, o deputado Henrique Vieira (PSOL-RJ) também critica a prevalência das propagandas no cotidiano. “É uma indústria bilionária que adoece o povo, que continua se endividando e perdendo até o direito de viver o esporte como paixão.”

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