René Brülhart, 40, tem a missão de limpar o Banco do Vaticano de todas as suspeitas de lavagem de dinheiro.

René Brülhart, 40, foi diretor da Autoridade de Informação Financeira do Vaticano por quase meio ano. O advogado suíço e ex-chefe da unidade de inteligência financeira de Liechtenstein está numa missão para limpar o Banco do Vaticano de todas as suspeitas de lavagem de dinheiro e outras transações financeiras ilegais.

Spiegel: Sr. Brülhart, você é parcialmente responsável pela renúncia do Papa Bento 16?

Brülhart: Isso não está dentro da minha área de responsabilidade. Por que a pergunta?

Spiegel: A primeira renúncia de um papa em séculos causou especulações por toda parte. Por exemplo, há quem diga que o papa teve de renunciar porque pressionou para que houvesse mais transparência no Instituto para Obras Religiosas (IOR), conhecido comumente como Banco do Vaticano, e esforçou-se para limpá-lo de todas as suspeitas de lavagem de dinheiro. Esse é o seu trabalho.

Brülhart: Vamos deixar que as teorias da conspiração sejam simplesmente teorias da conspiração. Somente o emérito Santo Padre sabe as razões definitivas de sua demissão. Não tem nada a ver com o meu trabalho.

Spiegel: Desde setembro de 2012, tem sido o seu trabalho intensificar a luta contra a lavagem de dinheiro e eliminar as vulnerabilidades do sistema financeiro do Vaticano. Quanta disposição para fazer reformas existe de fato?

Brülhart: Em 2010, o Papa Bento 16 tomou a iniciativa de combater a lavagem de dinheiro e fundou a Autoridade de Informação Financeira. A primeira lei contra a lavagem de dinheiro foi implantada em 2011, e essa lei se tornou ainda mais rígida alguns meses depois. O Vaticano se submeteu a uma auditoria feita pelo Comitê de Especialistas em Avaliação de Medidas Antilavagem de Dinheiro e Financiamento do Terrorismo (Moneyval) do Conselho Europeu. A igreja tem a intenção de aplicar as normas internacionais.

Spiegel: O relatório do Moneyval do verão de 2011 certifica que o Vaticano tem feito progressos, mas ainda apresenta graves deficiências, como a falta de independência e o monitoramento insuficiente por parte de sua autoridade de supervisão.

Brülhart: Nós não vivemos em um mundo em que basta apertar um botão para tudo ficar perfeito. O relatório foi uma avaliação objetiva da situação. Temos feito grandes esforços desde então, e devemos continuar. O próximo passo será fortalecer a estrutura legal do sistema de monitoramento dentro da área de supervisão do IOR, conforme estipulado.

Spiegel: Na virada do ano, o banco central italiano desligou brevemente todos os terminais de cartão de crédito no Vaticano devido ao risco de lavagem de dinheiro. O que o levou a isso?

Brülhart: Ainda é preciso saber como o dinheiro pode ser lavado pelos visitantes do museu. Por diversas razões, as autoridades italianas competentes chegaram à conclusão de que, no momento, as transações de negócios com o Vaticano feitas por bancos italianos ou por filiais de bancos estrangeiros na Itália podem envolver riscos.

Spiegel: Isso provavelmente está baseado em uma série de investigações italianas sobre lavagem de dinheiro nas quais o Banco do Vaticano esteve envolvido.

Brülhart: Cada caso deve ser analisado individualmente. De um modo geral, a cooperação bilateral é melhor do que se imagina normalmente, mesmo durante as investigações. Estamos trabalhando intensamente em áreas que precisam de melhorias. O objetivo é criar uma nova relação baseada na confiança mútua. Isso não fracassará, a meu ver.

Spiegel: O senhor diz que o Vaticano não é um centro financeiro, e que o Banco do Vaticano não é um banco, mas sim uma instituição financeira. Onde estão as diferenças?

Brülhart: Na minha opinião, o IOR é um tipo único de instituição financeira. Não é um banco comercial como o Deutsche Bank e não é um banco de investimento como o Goldman Sachs. Seu objetivo não é o de gerar o maior lucro possível. A missão do IOR é promover obras cristãs. É principalmente uma empresa de serviços da Igreja Católica que lida com as transações monetárias internas. Não há filiais internacionais. A maioria das atividades acontece através de outros bancos.

Spiegel: No entanto, o Banco do Vaticano opera de forma totalmente secular em todo o mundo.

Brülhart: A Igreja Católica é uma instituição global, e o IOR tem de oferecer seus serviços para a igreja de uma forma global. Mas não há paz em todos os lugares do mundo. Há países que estão sob sanções, quer da comunidade internacional ou de países específicos. No entanto, também há uma vida cristã nesses países, com comunidades e igrejas que precisam ser apoiadas financeiramente. Isso nem sempre é fácil.

Spiegel: Isso significa que o IOR também tem de manter relações financeiras com países que foram colocados na lista negra?

Brülhart: Não com países sob sanção, mas sim com as instituições da igreja que estão ativas dentro desses países. Quando falamos sobre o possível uso indevido do IOR para lavagem de dinheiro, o mundo lá fora tem que reconhecer o papel excepcional do IOR. Não estamos falando aqui sobre transações bancárias convencionais. Isso é o que eu tento transmitir para as pessoas com quem eu falo no mundo todo. Ao mesmo tempo, o Vaticano precisa compreender que as suas funções podem ser propensas a atividades ilegais. Na verdade, o IOR deve sempre ser capaz de reconhecer se suas atividades estão servindo aos propósitos da igreja.

Spiegel: Muitas das transações financeiras do Vaticano são realizadas em dinheiro, e é isso que o torna particularmente suscetível à lavagem de dinheiro.

Brülhart: Esse risco existe em todos os lugares onde há um grande número de transferências em dinheiro. É por isso que é tão importante saber de onde o dinheiro vem e para onde está indo.

Spiegel: No passado, empresários duvidosos, que antes de mais nada não deveriam sequer ter se tornado clientes, supostamente usaram o Banco do Vaticano com a ajuda de testas-de-ferro. Sua instituição classifica cerca de mil clientes como “altamente problemáticos” e há informações de que você estaria investigando seis casos de suspeita de lavagem de dinheiro.

Brülhart: Atualmente não quero citar nenhum número preciso, mas eu não confiaria nos números mencionados. Além disso, há uma diferença entre os relatórios de atividades suspeitas e as investigações de fato. Relatórios de comportamento suspeito não são nada negativos, mas sim um sinal de que o sistema está funcionando. E, finalmente, nem toda suspeita é confirmada –em vez disso, há explicações para as anormalidades. A verdade da questão é que nossas iniciativas estão começando a ter o efeito desejado.

Spiegel: Vamos dar um exemplo fictício: Em um país propenso à lavagem de dinheiro, a igreja recebe grandes doações para manter as casas de culto. Como você pode garantir que esses fundos realmente são destinados a essa finalidade e que não só uma parte do dinheiro vai para as igrejas, enquanto o resto é lavado?

Brülhart: Nesse caso, temos que saber o mais cedo possível quem são as pessoas envolvidas. Quem será responsável por realizar o trabalho correspondente? Será que a quantidade de dinheiro doado é razoável em relação ao uso pretendido?

Spiegel: Então você pretende ter contatos em todas as instituições que podem fornecer informações confiáveis sobre o uso do dinheiro?

Brülhart: Claro. Transparência interna não é um fantasma, nem uma ameaça. Pelo contrário, ela fortalece e protege. Sabe-se com o que se está lidando com e os detalhes de cada caso individual. O mesmo vale para o IOR.

Spiegel: Essa também é a linha oficial do Vaticano?

Brülhart: Ao longo dos últimos meses, testemunhei uma grande vontade política para ir nessa direção. Mas, ao mesmo tempo, estamos lidando com o que talvez seja a mais antiga instituição do mundo. Estruturas evoluíram aqui durante muitas gerações. Eu, portanto, preciso me comunicar muito. Tenho que explicar a lógica por trás das medidas previstas e onde essas mudanças representam uma vantagem para a igreja. E isso é uma coisa boa.

Spiegel: Onde está a vantagem?

Brülhart: Quer queira, quer não, o Vaticano é uma instituição importante. Ele está permanentemente no centro das atenções. Num cenário midiático em mudança, o Vaticano precisa apresentar e explicar suas ações. A Igreja Católica representa 1,2 bilhão de fiéis em todo o mundo. Ela defende crenças e valores morais. Isso engendra responsabilidade. A igreja fortalece a sua posição moral quando combate confiável e publicamente o mal secular da lavagem de dinheiro.

Spiegel: Por décadas, o Banco do Vaticano teve uma total falta de transparência e foi ligado repetidamente à lavagem de dinheiro e à máfia. Isso é tudo teoria da conspiração e mito?

Brülhart: Prefiro trabalhar com os fatos. Se alguém olha para o tamanho do Banco do Vaticano, em outras palavras, a quantidade de ativos administrados…

Spiegel: … estamos falando de pouco mais de 6 bilhões de euros (cerca de US$ 7,75 bilhões dólares), valor que corresponde aos depósitos de clientes do banco de poupança do distrito de Ludwigsburg, na Alemanha.

Brülhart: … então esse é um volume administrável quando falamos da ameaça potencial de lavagem de dinheiro. Não estou tentando minimizar sua importância, mas sim apenas esclarecer o seu tamanho relativo. É o trabalho de minha instituição descobrir lavagem de dinheiro, rastrear onde ela possivelmente ocorreu e preveni-la onde quer que seja uma ameaça iminente. A ideia é estabelecer um sistema de defesa sustentável e funcional, que permita o reconhecimento precoce de possíveis abusos na área de finanças.

Spiegel: A eleição de um novo papa também significa um remanejamento de posições-chave na estrutura de poder do Vaticano. Que impacto isso terá sobre o seu trabalho?

Brülhart: Nenhum, eu suponho. Pelo menos nada de negativo. É claro que novos indivíduos serão nomeados para cargos administrativos. Desde 2010, o Vaticano fez um compromisso claro de combate à lavagem de dinheiro. Durante o período da “sede vacante” eu não vi um único sinal de reversão. Muito pelo contrário, um movimento positivo foi lançado, e isso continuará. Acredito que não há como voltar atrás agora.

[b]Fonte: Der Spiegel[/b]