Fachada de um templo da Igreja Universal em Angola
Fachada de um templo da Igreja Universal em Angola

O Ministério das Relações Exteriores, chefiado pelo ministro Ernesto Araújo, colocou em sigilo 68 dos 71 telegramas sobre a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) trocados entre a pasta e a embaixada do Brasil em Luanda (Angola) entre janeiro de 2018 e setembro de 2020.

Questionado sobre o sigilo, o Itamaraty disse que a liberação dos telegramas poderia colocar em risco “relações internacionais do país”. Dos telegramas em sigilo, 39 foram classificados como “secretos”, cujo prazo para divulgação é de 15 anos. Os outros 29 foram classificados como reservados, com prazo para divulgação de cinco anos.

A Igreja de Edir Macedo enfrenta uma crise em Angola, onde está há quase 30 anos, e teve todos os seus templos fechados pela Procuradoria-Geral da República angolana, que acusa a IURD de submeter pastores a vasectomias, discriminação racial, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Edir Macedo é apontado como um dos principais aliados de Jair Bolsonaro junto ao eleitorado evangélico. Em 2018, ele declarou apoio a Bolsonaro. Em 2020, diante do agravamento da crise entre a igreja e o governo angolano, Bolsonaro enviou uma carta diretamente ao presidente de Angola, João Lourenço, pedindo que as autoridades locais garantissem a integridade física dos membros da IURD no país.

O acesso aos telegramas permitiria compreender pontos importantes sobre a condução da política externa do país, especialmente em cenários marcados por tensões internacionais.

Um dos únicos telegramas liberados, por exemplo, mostra como a crise envolvendo a  Igreja Universal do Reino de Deus no país africano estaria afetando até a vida de brasileiros que não são ligados à instituição.

Segundo o documento,  um missionário brasileiro evangélico da Assembleia Ministerial Cristã de Angola, em Luanda, relatou que, em razão das tensões relacionadas à IURD no país, o templo onde ele atuava foi invadido por angolanos que o agrediram e confiscaram seu passaporte.

“Segundo o brasileiro, sua congregação teria sido invadida por nacionais angolanos contrários à atuação da IURD em Angola e sua família vem sendo vítima de ataques de racismo e xenofobia. Afirmou que, nessa ocasião, ele teria sofrido agressões físicas e teria tido seu passaporte confiscado”, diz um trecho do telegrama.

Procurado duas vezes, o Itamaraty não respondeu se efetivou o repatriamento da família ou não.

Na avaliação do professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), David Magalhães, o governo brasileiro protege a Igreja Universal do Reino de Deus como se fosse ela fosse uma empresa.

“Normalmente, os países protegem os interesses do governo e de empresas consideradas estratégicas aos interesses do país. Quando o Itamaraty classifica telegramas sobre a Universal, ele está protegendo a igreja da mesma forma que protege uma empresa ou um braço do governo”, afirmou o professor.

Magalhães fez pesquisas acadêmicas com base em telegramas diplomáticos relacionados aos interesses de fabricantes de armas brasileiras e diz que, em muitos casos, o governo colocou documentos em sigilo sob a alegação de que as informações poderiam prejudicar essas companhias e o interesse nacional. Para ele, o sigilo imposto aos telegramas da Universal revelam uma “simbiose” entre a Igreja e o Estado.

Via Lei de Acesso à Informação, o Itamaraty disse que a classificação dos telegramas foi feita de forma legal e teve o objetivo de não prejudicar as “relações internacionais do país”.

“Os expedientes classificados, que, ressalte-se, correspondem a um pequeno percentual dos documentos tramitados pelo Ministério das Relações Exteriores, são classificados como reservados, secretos ou ultrassecretos para não ‘prejudicar ou pôr em risco a condução de negociações ou as relações internacionais do País, ou as que tenham sido fornecidas em caráter sigiloso por outros Estados e organismos internacionais”, disse o Itamaraty.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a IURD rebateu as acusações feitas contra ela em Angola. A igreja disse ser vítima de “ataques violentos” e xenófobos promovidos por um grupo de ex-pastores da IURD em Angola e que teriam sido expulsos da instituição por “desvios de conduta moral e prática de crimes”.

A IURD negou a imposição da prática de vasectomia em seus pastores e disse que os “invasores” dos templos da igreja teriam espalhado “mentiras” para confundir a sociedade angolana.

“Para confundir a sociedade angolana, os invasores espalharam mentiras absurdas, como por exemplo uma acusação de ‘racismo’. A verdade é que esses dissidentes têm promovido ataques xenófobos – esses sim, racistas – contra a Universal e seu corpo eclesiástico”, diz a igreja, em nota.

A IURD disse ainda que não pediu apoio ao presidente Bolsonaro para que ele enviasse a carta ao presidente de Angola.

Fonte: Brasil 247 e OGlobo